Karen Page encontra o seu chamado em Demolidor.

O melhor trabalho da segunda temporada de Demolidor tem sido em cima de seus coadjuvantes, em especial Karen Page. Desde que a série começou a personagem tem crescido muito e entregado uma sucessão de ótimos momentos. Tudo bem que a morte do Wesley durante o ano de estreia não desceu muito bem para uns, mas a abordagem em Seven Minutes in Heaven veio para “limpar” a imagem da personagem com o telespectador e oferecer um pouco mais da verdadeira força de uma mulher totalmente capaz e muito longe de ser apenas uma vítima. Tudo isso dividindo o protagonismo com um dos melhores vilões criados pela Marvel, Wilson Fisk com o brilhante Vincent D’Onofrio.

Trazer Wilson Fisk de volta provou ser uma decisão muito boa. Especialmente porque mostra que a ameaça continua viva, mesmo durante sua ausência. Um grande antagonista, como o agora já Rei do Crime não poderia ficar para sempre escondido. Além do mais teria sido um pouco inocente acreditar que a figura que já havia controlado toda Hell’s Kitchen permaneceria indefesa atrás das grades, apenas observando seu trauma infantil através da parede de sua cela. Fisk já controla a polícia dentro do presidio, pelo menos em partes durante o começo do episódio. Uma força como a dele dificilmente poderá ser impedida pela imagem cega da justiça, ou do justiceiro mascarado conhecido como Demolidor.

Toda a interação entre Fisk e Castle é muito boa pois exemplifica exatamente a maneira de pensar de cada personagem. Obviamente em uma temporada sobre manipulação Fisk fez bom proveito de sua posição e necessidade para conseguir o que queria. Seu maior erro, porém, é tentar compreender a mente de um homem que não funciona como a maioria. Enquanto ele pode oferecer o que o Justiceiro quer, tudo funciona para ele, mas a partir do momento em que a sede de correção de Frank Castle ressurgir fica evidente que qualquer um com conexões criminosas pagará o pato. É o manipular e o deixar ser manipulado. De maneira similar funciona Elektra e Matt. E mesmo quando manipula, ainda é possível ver certos tons de verdade fluindo do discurso do vilão. Ele está com muita clareza pensando em seu próprio interesse, mas você até consegue enxergar algum tipo de conexão quando Fisk coloca a família dentro da manipulação. Nós que sabemos a sua relação com o pai e a mãe, compreendemos o que significa a palavra para ele, por isso temos também um escopo maior para trabalhar a situação do Rei do Crime e como ele compreende o organismo que é a Cozinha do Inferno e quem está nela.

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Também foi ótimo ver mais do estilo de luta do Fisk, como se fosse um gorila selvagem – exemplificado através do próprio movimento dos braços do gigantesco Rei do Crime. Para derrotar o Fisk você precisa ser rápido, ou então… bom, pergunte ao Frank Castle. Mas o foco aqui é outro. Colocar Frank Castle dentro da prisão é como colocar uma criança diabética em uma loja de doces e jogar a chave fora. A melhor abordagem em cima do personagem é compreender que os assassinos de sua família não têm rosto. O Justiceiro não precisa punir um vilão em específico, cada criminoso existente é seu inimigo. Por isso sua animosidade para com Fisk fica tão latente.

O roteiro está cada vez mais empenhando em fazer de Castle a versão sem amarras do Demolidor. Ele é como um negativo do herói, diferente, mas produto da mesma imagem. Dessa forma é fácil entender que ele ganhar uma cena de ação no corredor é o sinal de que o texto quer que você entenda o Justiceiro como o “gêmeo” do Diabo da Cozinha do Inferno. E é muito mais sangrento e menos heroico do que foi com o Matt na primeira temporada. A luta de Castle é pela própria vida, não para salvar um garoto sequestrado, ou um inocente. É visceral e o sangue escorre.

Também aprovo bastante as minucias que a série trabalha, como por exemplo, o grupo de limpeza operando no apartamento durante a montagem pós ataque do Tentáculo. Esse tipo de cuidado expõe a preocupação da equipe técnica em não permitir que perguntas desviem o foco do telespectador. Dentro do relacionamento interpessoal do herói a verdadeira motivação da Elektra e a compreensão de que ela gosta de matar abre os olhos do protagonista. Assim como a temporada anterior, que pertencia a Matt Murdock e Wilson Fisk, nessa ela é também de Elektra Natchios. É uma relação importante porque como de praxe, uma série só é boa quando seu antagonista é bom. Apesar de não ter nenhum vilão delimitado até este décimo episódio, Demolidor já deixou claro que sua proposta é dividir a própria concepção do que é ser humano e os dilemas em cima de cada abordagem, cada ideologia.

Indo além é através da conversa entre Matt e Foggy que a posição do Murdock como herói é revelada. O que é ser heroico, como funciona a mente de alguém que luta contra o invisível, todos esses dilemas são pontuados através da ótica da amizade entre os dois, que começou lá na faculdade e que parece cada vez mais próxima de uma cisão. De fato todo o desenvolvimento do Foggy aponta para uma divisão muito óbvia. O roteiro da segunda temporada está fazendo questão de deixar clara a posição do “alivio cômico”, colocando-o como uma pessoa extremamente capaz quando está agindo sozinho. E é a semelhança entre os dois amigos. Ambos trabalham melhor quando estão separados.

Claro que não poderia deixar de comentar o quanto Karen é forte e decidida e o verdadeiro norte dentro da firma de advocacia. E dela a voz da razão. Dentro da “fantasia” de uma repórter ela funciona perfeitamente. Talvez o melhor para ela, fora da firma, seria a de alguém sempre cumprindo a função que Ben Urich deixou aberta. Contudo, parte da criação sai de dentro do caso legal, mas impõe uma situação de empoderamento muito grande para a personagem, de uma forma que poucas séries adaptadas de revistas em quadrinhos consegue – e estou me referindo aquelas que optam por deixar suas personagens femininas exclusivamente como função de par romântico ou obsessão de um grupo de fãs. Muito forte e muito decidida o caminho perfeito para Karen Page é no escritório de Urich. É como se fosse um ciclo se fechando e abrindo o caminho para mais da personagem. Uma mulher que se tornou extremamente necessária para o bom andamento de Demolidor, como série.

Easter eggs e outras informações

Existe um cartel de drogas chamado Dutton & Co. na nona arte, com conexão direta ao personagem Thomas Halloway, o Anjo, que teve debut em Marvel Comics #1 de 1939.

–  O número do apartamento em que o legista estava hospedado é 274, também é neste volume que o Demolidor encontra com os inumanos, na revista ‘The Inhumans Strike’. Uma das falas da revista é: “Saudações. Nós somos de Attilan. Nós somos os Inumanos. Acreditamos que você possui algo que seja de nossa propriedade”. Vale lembrar que a raça inumana está sendo desenvolvida atualmente em Marvel’s Agents of S.H.I.E.L.D.

– O Demolidor foi chamado de akuma-san. Akuma significa demônio.

– O nome do advogado do Fisk é Benjamin Donovan. Donovan foi criado em 1937 e é saído das páginas de Luke Cage, outra série da parceria entre Marvel e Netflix e que estreará em setembro.

– Existe um personagem da Marvel que atende pelo nome de Blacksmith e que parece encaixar em algo parecido com o que a série está desenvolvendo. Winslow Smith foi um lutador com força extra garantida pelo vilão ‘Power Broker’, ele já chegou a lutar contra o Diabo de Jersey. Sua primeira aparição foi em Coisa #29, de 1985.

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