Até quando irá durar a inabalável fé do Demolidor?

Toda a construção da segunda temporada da série está sendo baseada no conceito de fé e identidade. Foram oito episódios desenvolvendo o personagem de Matt Murdock através da interação do protagonista com o meio em que ele vive. Anti-heróis, quase vilões, aliados e inimigos, todos cooperam para que a construção de Demolidor como herói seja a mais forte possível. Sem a pressão dos filmes da casa para atrapalhar o andamento da trama a liberdade é imensa e o resultado está cada vez mais satisfatório. De maneira geral este oitavo episódio serve para classificar o resultado da ideologia criada pelo vigilante da Cozinha do Inferno em cima de sua lei mais segura, criada em cima do mandamento mais importante da bíblia: não matarás.

Atribuir a culpa ao personagem como o próprio título deste capítulo faz é um dos pontos que trabalha em favor de solidificar a poderosa fé do personagem principal da série. É através desta regra que o Demolidor coloca a Elektra em risco de vida. É novamente a produção tentando expor os problemas com cada tipo de abordagem. Ser o herói compete uma discussão moral que vai além da utopia criada por Matt. A partir do momento que ele impede que Elektra aja da maneira que ela julga adequada, existe um ferimento não apenas da personagem, mas dentro do próprio pensamento estipulado pelo herói. Não matarás é um dos mandamentos, mas quando o seu inimigo não segue nenhum, a regra deixa de funcionar como deveria. Tudo se resume a colocar o Demolidor em situações de questionamento de sua própria fé e crença. É só observar como ele se comporta quando a vida da “namorada” está na balança. Matthew é um vigilante que reza e pede a ajuda de uma força divina para sanar algo que ele claramente não tem poder para fazer. Um herói católico em um mundo com alienígenas e deuses nórdicos – o verdadeiro significado de fé imperturbável. A pergunta levantada é: Até quando? É isso que o roteiro pretende discorrer com o segundo ano da série.

E é então que entra Stick, um homem que não segue absolutamente nenhuma lei que não seja a sua. A superioridade do personagem vai além de sua aparência física e a série faz bem ao expor essa característica através das cenas de luta. E ele não tem nenhuma amarra, por isso é eficaz. Quem também não vive com uma coleira é a Elektra, subjugada pela exigência que o Matt fez e por isso desfavorecida. Sem deixar de comentar a respeito da presença do criador do Demolidor, Stick, gosto muito do personagem e aprovo bastante o trabalho que o ator, Scott Glenn, desenvolveu para o episódio. Existe uma posição de respeito muito grande, mesmo quando o personagem utiliza de um certo de tipo de humor intransigente para criar sua cena.

Toda a evolução da cena pós luta foi muito interessante e acelerou, literalmente, o nível de adrenalina de Mea Culpa. Como eu já havia mencionado anteriormente, é muito bem ter o Matt utilizando todo o leque de habilidades que o seu “poder” permite. De fato o seriado possui um entendimento muito grande de como o Demolidor funciona e opera.  Também foi através da sequência inicial que finalmente maiores detalhes do passado da Elektra foram “revelados” pelo Stick. Uma mulher que luta bem o suficiente para rivalizar com ninjas treinados com certeza esconde um passado bem interessante. E esconder é o melhor esporte praticado por ela.

Matt trabalha através da honra, de um preceito que vai além de simplesmente matar, mas sim de procurar dar uma oportunidade para que cada indivíduo se arrependa de seus atos e compreenda seu lugar dentro de um mundo ordeiro. O problema é que não existe honra quando o inimigo que você enfrenta utiliza lâminas envenenadas. E a guerra que Stick faz referência com certeza compete uma seriedade maior para Marvel’s Daredevil. Este também pode ser o motivo de união entre os Defensores de Nova York, composto por Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro. Todos engajados em proteger Nova York.

Assim como muito fundamentalista religioso o Matt não acredita em qualquer conto que não seja o da sua religião. Toda a história que o Stick contou só passa a ter alguma relevância quando o mestre questiona o próprio conceito da religiosidade cristã, a imortalidade. É também levantando questionamentos que os sentimentos do Matt pela Elektra são expostos de forma mais abrangente. Como discutido antes, é o grande dilema da personagem em querer ser alguém que Matt acredita. E tão rápido quanto começa, tudo desmorona. A natureza é bem mais forte entre aqueles que não se sentem dignos de redenção.

Enquanto isso do outro lado da moeda continua o julgamento de Frank Castle. A tentativa inicial com o discurso do general, e imagino que o cerne do próprio roteiro, é construir uma narrativa que faça com que o telespectador aja exatamente como o júri. É preciso despertar a dúvida não apenas daquelas pessoas que só existem dentro daquele mundo fantasioso, mas principalmente para quem está do lado de fora. Quando todos os soldados do pelotão do Castle sobrevivem, através de um ato heroico, tudo é deturpado pela tomada de uma vida. Não matarás. Em nenhuma situação? É o tipo de problemática que a série quer levantar e imagino que apenas este momento de discussão ideológica seja suficiente para criar uma temporada inteira caso a Marvel decida mais uma parceria com a Netflix, em cima do personagem de Frank Castle.

O trabalho da acusação é o de expandir a visão do telespectador, mas falha consideravelmente quando decide desprezar o aspecto heroico e julgar um soldado através da mesma ótica que ela julgaria um cidadão comum. A base do serviço militar é exatamente a de conferir ao homem um direito que vai além das convenções sociais comuns. Dentro do escopo do trabalho político que a série está construindo o texto é muito competente. Também é uma forma adequada de separar o foco do dono da série para seu suporte. Mais uma vez um ponto dentro da segunda temporada que está consideravelmente melhor que a do ano anterior. Quando Karen diz que o Matt não teria feito melhor, eu realmente acredito e compreendo o motivo da fala. Para nós o advogado cego da Cozinha do Inferno depende unicamente de uma abordagem, a de perscrutar o seu alvo e retirar do nervosismo aquilo que ele precisa. Foggy consegue ir além porque depende exclusivamente do seu conhecimento e humanidade para tratar a testemunha.

Quando a série impõe algum tipo de “problema” causado pela quase morte do Justiceiro é apenas mais uma ferramenta utilizada para humanizar cada vez mais o personagem e criar algo mais parecido possível de um homem com uma justificativa. Não um herói, mas alguém com motivos. Contudo os efeitos colaterais perduram e o que fazer quando a lei do homem não representa a divina? Quem devemos seguir e nos apoiar quando tudo mais falha? Um herói, um vigilante, a lei humana, ou a de Deus? E a série está realizando um trabalho incrível ao convergir todas as perguntas através dos problemas de Frank Castle como homem e como monstro. Não se engane, ele está sim passando pelo inferno, mas é algo que vai simplesmente além do seu trauma. Ao dizimar seus inimigos antes do ferimento mortal ele estava sorrindo. Existe alguma satisfação dentro da mentalidade do personagem ao fazer o que é certo, mas o certo é um ponto de vista e não existe verdade absoluta.

Quem desenvolve bem a confusão ideológica é Foggy e Karen. Assim como o relacionamento conturbado do Matt com esse aspecto da sua vida. É onde está localizada a grande bagunça ideológica do personagem. Atingindo o ápice de Mea Culpa temos o final com Wilson Fisk, trazendo mais um elemento importante para a segunda temporada da série. Enquanto Demolidor permanece lidando com os mais diversos tipos de crise, nós estamos ganhando a progressão de um excelente roteiro para uma série que supre as mais diversas necessidades, indo muito além de um mero entretenimento dedicado a fãs de quadrinhos, mas a exploração da mente humana como um todo.

Easter eggs e outras informações

– Já mencionei anteriormente a respeito do ‘Tentáculo/Mão’, mas como o episódio deu um destaque maior para a organização criminosa de ninjas que o Demolidor não consegue escutar, irei fazê-lo novamente. A primeira aparição do Tentáculo foi em Daredevil #174, criado por Frank Miller.

– Durante o arco ‘Homem sem Medo’ descobrirmos que Elektra também foi treinada por Stick, assim como na série. Na verdade ela foi escolhida antes de Matthew Murdock para ser a arma na misteriosa guerra, mas perdeu o posto quando o mestre cego percebeu quão perigosa e volátil a mulher era.

– O trabalho de Jon Bernthal está simplesmente divino, dando uma nova abordagem para o Justiceiro, uma bem mais humana e explosiva, diferente de sua contraparte nos quadrinhos que sempre optou por aparentar uma frieza maior.

– Foi mencionado o conceito de imortalidade e também o extremo oriente. Talvez seja uma conexão com a terra mística de K’un-Lun e o Punho de Ferro.

– Céu Negro para quem não lembra surgiu na primeira temporada, no episódio Stick, onde surge aquele misterioso garotinho.

– The Chaste é o nome de um enclave místico de artes marciais fundado pelo personagem Izo e liderado pelo Stick. Só é possível chegar até o chaste após a escalada de um íngreme paredão conhecido como ‘The Wall/A muralha’. A grande missão do grupo, assim como explicado pelo Stick, é a de combater o Tentáculo. A primeira aparição do Casto foi em Demolidor #187, de 1982.

– Justiceiro na cadeia é uma montagem clássica das páginas de sua primeira série na nona arte, Circle of Blood.

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