Mais dos coadjuvantes em outro excelente episódio de Demolidor
Ter uma série com um personagem chamado ‘Demolidor’ no nome não é algo para ser levado levianamente. A construção em cima de um herói visto como o próprio Diabo, trabalhando na Cozinha do Inferno, impõe um tipo de medo e compreensão a respeito da temática de forma bem delimitadora. Então o que fazer com quem não veste o manto? Como tratar coadjuvantes quando a ação do protagonista é muito mais interessante e, convenhamos, o motivo para a grande maioria estar assistindo a série? É exatamente o que Demolidor está tentando melhorar para sua segunda temporada. Para justificar a presença do núcleo “administrativo”, a produção está cada vez mais tentando refinar e aprimorar Karen e Foggy. Até agora o empenho está recebendo um saldo positivo.
Durante a primeira temporada da série eu fui um grande opositor a presença de Karen e Foggy, especialmente pela trama desinteressante que o advogado e a secretária desenvolveram com a senhora Cardeñas. Se lá no passado o despejo da simpática cupido não mantinha o peso necessário para guiar os dois personagens, nesse o problema com a testemunha é algo que acrescenta um peso muito maior a ambos. Aqui eles não estão mais agindo apenas como o “anjo” no ombro do diabo, mas sim como peças chave e fundamentais para o andamento do processo que está intimamente ligado ao antagonista. Não é uma velhinha em um dos prédios que o Fisk quer demolir, o motivador do herói, é o assassinato em massa e a tentativa de proteger um bandido das mãos do misterioso assassino, e também da promotoria. Bem mais relevante e importante.
Quem também está rapidamente ganhando um foco maior e um aprofundamento filosófico e ético gigantesco é Matt Murdock, tanto dentro quanto fora de ambas as fantasias que ele usa. O que o episódio passa através do próprio discurso do Matt é a sua falta de preparação para enfrentar o Justiceiro. Ele questiona a si mesmo, mas sem dar a entender que não existem esperanças. Seu desejo é fazer novamente, para fazer melhor. É uma evolução muito grande do arquétipo apresentado durante a primeira temporada e que só mudou consideravelmente depois da descoberta do paletó especial do Wilson Fisk. O Demolidor não é um herói completo, mas o excesso de confiança que Matt criou desde a derrota do Rei do Crime fez com que ele menosprezasse Frank Castle durante a primeira luta entre os dois. É até mesmo diferente da surra que o vigilante tomou de Nobu, na primeira temporada, já que lá o que acontecia era, de fato, uma superioridade técnica por parte do ninja do Tentáculo.
Enquanto Matt luta contra a consequência de sua momentânea perda auditiva, Karen e Foggy trabalham contra a promotoria em uma clara demonstração de inteligência e força. É importante ter um aprofundamento maior dos personagens coadjuvantes, já que eles são tão importantes quanto o próprio Demolidor dentro do roteiro. Essa abordagem coloca ambos os personagens em contato direto com a trama da temporada e expande nossa imersão. Quando a quebra do ritmo narrativo vem através de um acréscimo, a viagem se torna bem mais proveitosa. Não estamos aqui deixando de lado uma luta emocionante entre o herói e algum capanga, para acompanhar Karen e Foggy jantando. Ao contrário, o que acontece nessa cena é tão importante quanto o que está acontecendo com Matt em seu apartamento.
Na primeira temporada o desenvolvimento do vilão veio a conta gotas durante os primeiros episódios, para depois desencadear a brilhante execução de um dos melhores antagonistas da Marvel, incluindo filmes. A prova final da mudança de ritmo dentro da série é que o Justiceiro já ganhou sua alcunha no segundo capítulo, diferente do Fisk, que nós sabemos ser o Rei do Crime, mas nunca foi nomeado como tal. Além do mais, através de pastas e mais pastas contendo suas vítimas, acompanhamos o roteiro expandindo o horizonte dos personagens e demonstrado exatamente o que aquele vigilante é capaz de fazer. Todos os marcados pelo Justiceiro são criminosos, o que o aproxima bem de Matt, ou do que o Demolidor seria se a atitude do herói fosse a de empunhar em uma mão o martelo da justiça e na outra a foice do executor. Adequada também é a fala do policial, exemplificando como a vizinhança vê o Diabo e como ela teme o Justiceiro, o carniceiro da justiça.
A melhor cena do novato, porém, é aquela em que o Justiceiro está na loja procurando armas para comprar e como ele “entende” o negócio onde está metido – ideologicamente falando. Você não quer ser o cara que tenta vender pedofilia para o “herói” que pune quem vai contra a lei, mas o vendedor entende qualquer um com pouco respeito pela vida humana como membro do mesmo clube que ele pertence. Existe também uma conexão entre o vendedor e o que é considerado legal nos Estados Unidos, ampliando uma discussão muito mais sociológica para quem vive debaixo deste regime, o do armamento da população comum. O porte de armas já foi discutido várias vezes e ainda é pauta política de vários discursos do Presidente Obama. Justiceiro já foi até utilizado como símbolo da empreitada, como um pôster boy para o armamento e também para a defesa do desarmamento. Polarizando o assunto do que é capaz um americano que pode, por direito, andar armado e defender sua própria vida, ou agir como um vigilante de seus próprios ideais. O que foge a regra, o que não é aceitável legalmente, Frank Castle não permite. E com essa cena a série praticamente descreveu o manual do Justiceiro.
No final do episódio Daredevil é uma série que está aprendendo com os seus erros e ao mesmo tempo buscando aprimorar aquilo que já estava funcionando em seu ano de estreia. O caminho não será fácil, mas através destes dois episódios já é possível compreender que existe sim uma evolução, especialmente através do lado dos coadjuvantes. O melhor é poder perceber o desdobramento de discursos tão poderosos e relevantes para a sociedade. Quem acompanha a série apenas como diversão, talvez não note, mas quem entende que cada produção é banhada por política e ideologia, terá um prato cheio para discussão.
Easter eggs e outras informações
– Durante a conversa com o policial é mencionada a frase “proposição dos heróis”. Essa é uma conexão com o evento da Marvel do filme ‘Capitão América: Guerra Civil’, onde será feita a proposta de registro dos heróis norte americanos.
– Edgar Brask pode ser uma homenagem a Edgar Delgado, responsável pela arte de Wolverine/Punisher #2.
– O assistente da promotora é chamado Blake Tower. O personagem existe nos quadrinhos e já auxiliou, além do Demolidor, o Capitão América, Mulher Hulk e Misty Knight (personagem ligada ao Luke Cage). A primeira aparição do personagem foi em Daredevil #129 de 1976.
– Já a sua chefe, Reyes, não tem nenhuma contraparte direta nos quadrinhos. Existe, entretanto, uma doutora Cecilia Reyes, que é mutante e já cuidou do Demolidor.
– O sobrenome Reyes também tem conexão com outro personagem chave da Marvel e que andou recebendo algumas indiretas algum tempo atrás. O novo Motoqueiro Fantasma atende pelo nome Roberto Reyes. Seu debut foi em All-New Ghost Rider #1, de 2014.
– Dentro da máfia foi nomeado Brass e existe um personagem importante dentro da Marvel com esse codinome, Morgan Stark. Morgan é primo do Tony Stark e chefe do grupo de mercenários conhecido como Stockpile.
– No episódio apareceu uma loja chamada Redfield Eletronics. No jogo Marvel Vs. Capcom, através do final do Chris Redfield, é possível ver o Matt Murdock trabalhando como um dos advogados durante o julgamento do Albert Wesker. Ele também ajuda a capturar o vilão quando ele tenta fugir do tribunal.
– Foi feita menção ao nome Warzone, título do filme estrelado pelo Justiceiro e liberado exclusivamente para o mercado de home vídeo.
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