O cerco aperta para Frank ‘Justiceiro’ Castle em Demolidor.

Toda ação tem uma reação, uma consequência. Ela pode ser muito grande, normal, ou praticamente imperceptível, mas com certeza terá algum tipo de resultado. Para quem combate o crime é uma verdadeira roleta russa. Quer seja para promotores, policiais, ou até mesmo o carcereiro, o envolvido molda caminhos para si e para tantas outras pessoas no trajeto. Diferente do Demolidor o Justiceiro enfrenta a criminalidade sem se preocupar com as consequências. Seu único objetivo é o resultado imediato. E assim instaura-se o caos. É o que acontece quando você começa a matar abelhas com uma raquete elétrica, o barulho é muito alto e cada vez mais abelhas vão saindo do buraco. Enquanto o Justiceiro estiver limpando a cidade agressivamente, novos inimigos surgirão. Assim como na sangrenta cena inicial, a responsável por ilustrar como é manutenção do crime em Hell’s Kitchen.

Também é através das consequências das atitudes de Matt e Frank que acompanhamos o funeral do Grotto. Essa cena serve para mostrar o motivo pelo qual o Demolidor luta. A esperança e a redenção são as armas utilizadas pelo herói. Essas são as palavras que guiam o personagem e eu gosto de ver como a série pegou um aspecto tão marcante dos quadrinhos e o elevou a um novo dimensionamento. Em um mundo com alienígenas e deuses é interessante ver como a fé de um super-herói é construída, com tanto respeito. Os diálogos entre o padre e o Matt são ótimos para ilustrar o relacionamento que o herói que se veste de diabo tem com a religião. O valor da vida, o perdão, o homem cheio de falhas, esse é o Demolidor e o episódio faz questão de desenvolver esse lado através das cenas na igreja. Culpa é o que motiva o Demolidor a ser melhor. Culpa é o que motiva o Justiceiro a ser o pior de si mesmo em busca do melhor para os outros.

…a culpa significa que o seu trabalho ainda não terminou

É válido observar como o Matt utiliza a Karen e as pessoas comuns a seu redor para criar um prisma do que ele deve fazer e como o certo e o errado vêm carregados de diversos dilemas diferentes. Claro que não seria Karen se ela não fizesse algo precipitado. Alguém se esqueceu da brilhante atitude que ela teve ao levar o Ben Urich ao local onde a mãe do Fisk estava? Sair por aí com os arquivos do Justiceiro é apenas mais momento que com certeza irá prejudicar a secretária ou alguém próximo dela. Até nisso a série leva pontos positivos, por não mudar aquela mulher instantaneamente e sem motivos, por mais irritante que isso a permanência a transforme.

Por enquanto nós não sabemos muito a respeito da história do Justiceiro, mas aos poucos os pedaços de informações começam a se desenvolver. O carrossel, as investigações da Karen, a experiência de quase morte do personagem. Tudo isso coopera para criar uma mentalidade. Ter mais um antagonista ganhando um aprofundamento maior só eleva o prestigio que as séries da Marvel para a Nertflix tem. É imprescindível ter mais do “vilão” para que exista uma dimensão maior do que o herói é. Sem um antagonista o protagonista também não consegue construir a sua história. Quando esse mesmo personagem, criado para elevar o emocional do herói e aqueles à sua volta, é bem construído, a experiência se torna infinitamente mais prazerosa.

Conforme o próprio discurso do Demolidor no episódio passado, cada pessoa que o Justiceiro mata deixa para trás uma família, indivíduos que por mais que esses bandidos não mereçam se preocupam de alguma forma com elas, são laços além da compreensão de quem está do lado de fora. O Demolidor tenta observar o “lado de lá”. Por isso, as consequências das atitudes do Justiceiro refletem da mesma maneira que as do Demolidor, como o policial mencionou. A sociedade está mudando e pouco a pouco esses heróis e vigilantes impõe sua importância nessa transformação. Claro que no núcleo explorado neste episódio a preocupação maior é com o dinheiro. O novo líder da máfia irlandesa pontua com precisão o que realmente faz a diferença para aqueles que o Justiceiro está apagando. Frank Castle é um louco que não tem nada a perder e as interações dele com o irlandês são uma maneira de ilustrar quem ele é. Mais do que isso, a investigação da Karen dentro da casa do anti-herói pontua outro aspecto que não havia sido explorado até então. Você vê o louco, mas nunca parou para se perguntar o que o fez enlouquecer?

Karen se mete em problemas, mas isso apenas demonstra quão engajada ela é. Dificilmente uma vítima e uma ótima adição ao rol de mulheres da Marvel, mesmo que imprudente. Por isso é até mesmo fácil fazer uma conexão com Jessica Jones, onde nós conhecemos no episódio AKA What Would Jessica Do a casa da heroína da série. Aqui vemos a do Castle e em ambos os casos as habitações funcionam como um reflexo da mentalidade de cada um. Aquilo que eles eram antes de eventos traumáticos terem moldado o que se tornaram. Frank foi um homem respeitado, um pai de família e um soldado condecorado. Assim como ele perdeu a família, colocar o cachorro, o exemplo da sua conexão sentimental em uma cena tão fria, serve para humanizar cada vez mais aquele que, de uma forma ou de outra, está sendo pintado como um “vilão”. O resultado também é complexo. Ele é hábil e frio. Perceber que sua posição de vitima era uma maquinação, onde tudo fazia parte do plano de vingar sua família, excede o padrão de loucura pintado pela série e desmorona um pouco a cor mais branda que ele estava exibindo.

O diálogo final entre herói e anti-herói no cemitério termina aproximando os dois e ajudando a construir mais do relacionamento entre homens tão parecidos. Homens que perderam tanto através das mãos de outras pessoas. Homens que não acreditam merecer a felicidade por causa das coisas que já fizeram. Ambos lutando guerras pessoais e exibindo estresse pós-traumático de uma forma que apenas quem já vivenciou a linha de frente de uma batalha sabe como funciona. Se a culpa significa que o trabalho ainda não acabou, a não leitura do livro para a filha do Frank significa uma vida de culpa. O resgate do Justiceiro pelas mãos do Demolidor também os aproxima de uma maneira que o próprio diálogo no episódio passado não fez. É uma união porque o Matt entende que a tragédia da vida do Frank o levou a cometer os crimes que ele comete hoje. Uma compreensão de que aquele poderia ser ele e a mensagem é bastante clara. Juntar ambos é um trabalho muito bem conduzido do roteiro. É válido e apenas salienta como essa segunda temporada está se provando superior até agora. Antes tínhamos o herói lutando sozinho, mas sem propósito. Agora podemos acompanha-lo tentando moldar um novo destino para ele e também para Frank.

No fim do dia o Demolidor entende que sua presença está atrapalhando o sistema e é por isso que ele passa a prisão do Justiceiro para o policial. É o quarto episódio e o Justiceiro já está preso. Gosto do modelo do Netflix exatamente por isso, por permitir que a história seja contada como um filme. Já sobre o romance entre Karen e Matt, sabendo que ainda existirão outras temporadas para Daredevil, você entende que o clima entre os dois não está nascendo para crescer e florescer, mas sim para trazer problemas. No entanto o que importa é a trajetória e o que acontecerá entre ambos até que o trem descarrilhe. E tudo desanda muito rápido, quando a Elektra aparece.

Easter eggs e outras informações

– Construção das cenas de luta do Demolidor utilizando seu bastão como um bumerangue e saltando sobre as vítimas enquanto luta é uma ótima forma de demonstrar a superioridade do diabo da cozinha do inferno quando ele luta contra homens comuns. É fácil.

– Este episódio foi mais longo, com vinte minutos a mais.

– Vimos na temporada anterior as pernas do Tilt Man, na oficina do Melvin Potter. Neste episódio é possível ver também o torso. Melvin também está com uma camiseta bem próxima a utilizada por sua contraparte nos quadrinhos, o vilão Gladiador.

– Nos quadrinhos a Karen não tem um irmão, apenas pai e mãe.

– A série fez uma referência aos diversos vídeos no YouTube a respeito de militares voltando de suas missões e surpreendendo seus familiares.

– Vários heróis da Marvel já lutaram contra o vício em bebidas alcoólicas, incluindo Tony Stark em sua história ‘O Demônio na Garrafa’.

– O passado militar misterioso do Frank Castle pode ter alguma conexão com o Nuke, de Jessica Jones?

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