Muito muda, mas o caos permanece o mesmo em Demolidor.

É válido ver o quão diferente a segunda temporada de Demolidor é se comparada a primeira. Ainda são os mesmos elementos e personagens, mas o ritmo está demonstrando uma grande jornada evolutiva. Não estamos mais encarando a origem do Demolidor, Matt já é, para todas as causas e efeitos, o protetor da Cozinha do Inferno. Como já vimos, até mesmo com o respaldo de alguns membros da força policial, ele é um ícone. Então, o que realmente faz com que o segundo ano da série se diferencie do primeiro? Quais são as principais características que fazem o telespectador diferenciar a missão já cumprida, com a que está em desenvolvimento?

Wilson Fisk teve sua história desenvolvida de forma separada da do herói. Tudo convergia para um mesmo propósito, a proteção e retomada da Cozinha do Inferno, mas as motivações eram completamente opostas. O herói queria manter viva a imagem do bairro que cresceu e evitar danos colaterais, ao passo que o vilão enxergava a transformação como um processo violento e com muitas vítimas casuais. Para renascer é preciso queimar. Com o Justiceiro tudo recebe uma nova luz, mas ainda dentro do mesmo escopo, afinal ambos estão querendo algo similar, limpar o bairro. A diferença está na concepção da justiça.

E então, quando entramos na comparação entre ritmo e desenvolvimento de história, é muito fácil separar cada trama. Quando vemos o vigilante acorrentado já temos a boa noção de como a história está seguindo, com velocidade. Existe uma construção artística impecável dentro da produção, mesmo que utilizando um recurso já explorado pela nona arte. De maneira geral o Demolidor/Matt é um homem acorrentado pelos seus princípios. Como limpar uma cidade corrupta sem, de fato, limpá-la totalmente? O que o herói faz é a manutenção da paz, mas nunca sua instauração completa. Por ter um objetivo igual, mas uma execução diferente, o Justiceiro atinge exatamente o ponto que quer. São princípios que impõe uma discussão aprofundada dentro da psique dos personagens. O que é complexo demonstra mais trabalho, sem sombra de dúvidas.

A série ainda já começou a lidar com o aspecto negativo do verdadeiro herói. Isso é algo bom, pois confere uma quebra na narrativa importante ao lidarmos com um mundo de homens e mulheres engajados na proteção de um ideal visto por muitos como o verdadeiro. Como bem sabemos a cadeia não é um reformatório, mas um curso especializado para a bandidagem. Quem o Demolidor prende hoje tem chance de se transformar em um novo Rei do Crime amanhã. É este dilema que a segunda temporada de Daredevil quer demonstrar através da criação de um anti-herói. Ela é competente por conseguir levantar a discussão e nos fazer questionar o nosso próprio lado. Faltando tão pouco tempo para a estreia de Guerra Civil a Marvel já está nos colocando em uma posição de divisão. Você torce pelo Justiceiro ou pelo Demolidor? Os dois são heróis, mas com armas e conclusões diferentes para um mesmo propósito.

E é por elevar a discussão que eu julgo essa segunda temporada tão boa quanto a primeira. As consequências das ações do Justiceiro já começam a ser sentidas com a crescente rivalidade entre gangues e operações criminosas. Quando existe um homem destruindo tudo, levanta-se a pergunta de quem ele é e quem o contratou para fazê-lo. E é exatamente por isso que a ação do Justiceiro é prejudicial aos habitantes da Cozinha do Inferno. O Diabo é um nome, uma máscara, um uniforme, ele é alguém a ser temido e que age como herói. O Justiceiro é um pesadelo desenfreado que não quer nada além de sangue. E o sangue em um mundo tão cruel é como um buraco em um dique. Basta uma rachadura para que outros vazamentos comecem, e não as rachaduras já começaram em Demolidor.

Existem várias forças “do bem” operando em Hell’s Kitchen. Tudo depende do ponto de vista de quem acompanha. Temos Reyes procurando dar um fim na operação de homens que se julgam acima da lei, e ao mesmo tempo a firma de advocacia de Foggy e Matt, procurando ajudar dentro do que as regras permitem. Nem todo mundo consegue o que quer e é daí que o brilho do desenvolvimento dos coadjuvantes neste segundo ano vem. Ao colocar alguém competente para rivalizar e não uma senhora irritante, Demolidor conseguiu presentear Foggy e Karen com uma história interessante e que está, até agora, me fazendo querer mais.

Falando neles, Karen continua seu caminho de justiceira – sem trocadilhos. Apesar de não ter nenhum conhecimento legal ela consegue colocar o Foggy em situações que sozinho ele não ousaria aparecer. Ela o transforma em outro tipo de personagem. Quando a abordagem em cima dos secundários requer mais trabalho e refino, a série ganha muito. É só ver o discurso dele no hospital e o quanto de destaque Foggy realmente merece. Um merecimento que seria negligenciado caso Matt estivesse ali, porque para Foggy, ele é o herói, mas para o texto todos são/podem ser. O advogado sempre esteve à sombra de Matt Murdock, quer seja na beleza, ou no conhecimento. Quando vemos o trio unido Foggy é apenas o alivio cômico. Quando o vemos com Karen, por outro lado, ele consegue ir além do esperado. Sem esquecer-se do caminho que Karen está trilhando desde a primeira temporada, cada vez menos ciente dos riscos que ela sofre quando decide bancar a jornalista/advogada. Uma hora tudo vai explodir na cabeça da moça e não imagino que repetirão o padrão aqui, um Wesley por ano é o suficiente.

Qual a diferença entre um soldado e um justiceiro? A conversa franca entre Matt e o Punisher expande essa pergunta. A maior luta entre personagem não é a traçada pelos punhos, mas o embate moral entre os dois. E quando o próprio Matt perde a fé e entende quem é o Grotto, um bandido que matou uma senhora com marido e filhos, ele vê o próprio discurso sendo utilizado contra ele. A ótima tensão nas cenas de luta entre o Justiceiro e o Demolidor também ajudam a elevar a tensão dramática da conversa que ambos tiveram, porque no final, você sabe que Matt não permitirá que Frank seja devorado pelos cães do inferno, mas não tem certeza se o Justiceiro estenderia a mesma cortesia ao Diabo da Cozinha do Inferno.

Além do mais temos uma posição privilegiada, já que acompanhamos o pandemônio no hospital e em Hell’s Kitchen simultaneamente. Realmente, com os diálogos utilizados pelo Demolidor tudo soa muito lindo, muito altruísta, muito fora do real. Quem já está no chão apanhando ou sendo roubado semanalmente pode discordar do herói da Cozinha do Inferno. A bondade que existe em todos e que apenas poucos podem ver é o que separa o herói do anti-herói, o Demolidor do Justiceiro. Mas o reconhecimento também demonstra a imagem que cada um passa para o mundo, é só pegar a fala da Claire a respeito da reputação que o seu “amigo” está construindo.

Lentamente o episódio foi criando uma tensão que culminou em uma ótima conclusão. E que cena final, amigos. Que cena emocionante em um episódio cheio de momentos de prender a respiração. Quando o velho aparece no corredor e a única opção para o Matt é deixar o Frank de lado e ir fazer o que ele sabe melhor, observamos a decisão verdadeiramente difícil. Puxar o gatilho é fácil, Frank já deixou bem claro. E quando eu pensei que seria apenas a mais nova cena do corredor da série, começa a pancadaria na escada e tudo eleva para outro nível. Que bela compreensão de como o herói luta, como ele funciona, e quão orgânicas as cenas se tornam através desse entendimento. Até a luz tremeluzindo e vermelha coroam o brilhante trabalho da equipe técnica da série. Um time que sabe exatamente o que está fazendo e para onde quer ir.

Easter eggs e outras informações

– A cena entre o Justiceiro e o Demolidor em cima do prédio é idêntica ao painel de Punisher, na linha Marvel Knights.

img1

– Mais uma vez foi feita uma menção ao ‘Orfanato St. Agnes’, o mesmo que a Daisy Johnson, a Quake de Agents of S.H.I.E.L.D. também foi enviada.

– Toda a montagem de cores dentro do episódio e o apelido que o Justiceiro dá para o Demolidor, Red/Vermelho, é uma alusão que vai além do uniforme do personagem, mas a própria construção da paleta de cores que é utilizada até hoje. Existe também nos quadrinhos o Demolidor Amarelo.

– Claire fala sobre um “amigo” do Demolidor, um homem que ela tratou com pelo impenetrável. Para quem não acompanhou Jessica Jones, Claire estava fazendo uma referência ao personagem Luke Cage.

– A enfermeira também falou sobre o seu “turno do inferno”. Existe um filme chamado ‘Last shift’ em que um policial está em seu último turno quando forças sobrenaturais começam a aterrorizá-lo.

– Report it to the Police, o painel que estava na delegacia, é uma ótima conexão com Guerra Civil e a luta contra a presença de vigilantes mascarados.

Leia também:

Crítica do episódio 13

Crítica do episódio 12

Crítica do episódio 11

Crítica do episódio 10

Crítica do episódio 9

Crítica do episódio 8

Crítica do episódio 7

Crítica do episódio 6

Crítica do episódio 5

Crítica do episódio 4

Crítica do episódio 2

Crítica do episódio 1

Artigo anteriorDaredevil 2×02: Dogs To A Gunfight
Próximo artigoDaredevil 2×04: Penny and Dime