As origens de Elektra Natchios em Demolidor.
Desde que apareceu pela primeira vez na série durante a temporada de estreia, através de um comentário feito por Matt em uma conversa com o Foggy, Elektra se tornou rapidamente a personagem mais antecipada pelos fãs do primogênito da parceira entre Marvel & Netflix. Assim como o Diabo da Cozinha do Inferno a ninja assassina também havia recebido um filme para chamar de seu, outra versão aquém do esperado. Por esse motivo as expectativas aumentaram consideravelmente quando os produtores da série revelaram a presença da estudante grega na segunda temporada de Daredevil. Entre polêmicas com a escolha da atriz, uma grega sendo representada por uma asiática, ao comportamento obtuso do criador da personagem, muito estava na balança para a nova versão live action de Elektra. E apesar de toda a força feita pela camada xiita de fãs rabugentos, Ellodie Young entregou muito mais do que o esperado.
Após a surpresa no apartamento do Matthew no episódio passado, começar este com um flashback de dez anos atrás é extremamente satisfatório. Mostrando dessa vez o passado do que assistimos na temporada anterior com os Abacates da Lei, mas através de uma ótica diferente e menos esperançosa, o roteiro privilegia a relação entre um Matt mais imaturo e uma instável mulher sensual. Ao invés de inserir a origem da amizade entre Foggy e Matt e o nascimento das ambições de ambos, como havia escolhido retratar em seu flashback no ano anterior, a ideia neste quinto episódio é trazer o relacionamento de Elektra e Matt para o holofote. Uma mulher misteriosa e que chama a atenção do jovem estudante de direito antes mesmo de dizer qualquer palavra. A atração é mutua e imediata. E ter um capítulo especialmente dedicado a explorar essa personagem é mais um dos acertos de Demolidor, em uma temporada extremamente competente.
Sem sobra de dúvidas essa é uma temporada de pessoas desconectadas do mundo e Ellodie Young é extremamente competente na missão de passar o ar de mistério, sensualidade e arrogância que Elktra Natchios exige – sem deixar de mencionar o sotaque absolutamente sexy e cheio de poder. A personagem tem muita força e exibe seu controle ao destruir o Matt com apenas algumas frases carregadas de veneno. O mais interessante é notar a rápida mudança no comportamento do nosso estudante de direito. Em pouco tempo ele se abre com a Elektra, de uma maneira que ainda não tínhamos acompanhado ele fazer em nenhuma outra montagem de cena – o que também explica seu problema futuro em fazê-lo. Não é a necessidade que o compele, mas sim algo além. É o domínio que aquela mulher tem e a pressão que ela exerce em cima do personagem.
Lentamente, mas com agilidade a série nos guia através de uma aproximação entre dois personagens fascinantes e fascinados um pelo outro. Aos poucos a intimidade é aprofundada e os laços de cumplicidade estreitados. Tudo culmina na cena de luta através de movimentos que exalam tensão sexual. E é uma luta ótima de ver, porque existe coreografia, mas parece natural e a naturalidade eleva a carga dramática consideravelmente, através da imersão. Se não soa falso, fica difícil desviar a atenção e questionar o que está sendo apresentado. Também é fundamental compreender que o relacionamento entre Matt e Elektra não é tradicional em nenhuma instância, e que aquele homem que estamos vendo é totalmente diferente do que se tornará Demolidor, apesar de guardar alguns conceitos bem próximos.
Sempre existiu uma escuridão gloriosa dentro de você
O relacionamento se desenvolve através de provocações e intimidade, mas o principal é a manipulação. A cena de sexo entre os dois é carregada de luxuria e muito significante. O melhor é perceber que a equipe técnica escolheu deixar a trilha sonora como se ela fosse uma revelação, um momento divino dividido entre homem e mulher através de uma relação muito especial para Matt, o católico futuro Diabo da Cozinha do Inferno. Aquele é um momento em que ambos os adultos estão descobrindo de verdade quem são. Eles estão expressando fisicamente a proximidade e a sede de aventura que cada um tem. Matt foi treinado desde criança por um homem cego e com a promessa de ser uma espécie de guerreiro sagrado. Apesar de ter escolhido ser um advogado, para honrar a imagem do pai, ele ainda é aquela mesma criança por dentro, cheia de energia e com muito a oferecer além de ler livros e o sistema de leis dos Estados Unidos. A cena em questão eleva a sensualidade e proximidade de uma forma que nem mesmo Karen pode competir. A diferença aqui é que tudo acontece no passado e o Matt de hoje não é o mesmo de dez anos atrás, mesmo que a Elektra ainda o veja como tal.
Por falar na empreendedora secretária, Karen continua representando o Justiceiro. Como outro lado da manipulação ela permanece demonstrando seu envolvimento e como é capaz de trazer os dois advogados para uma espiral de problemas. De maneira geral é ótimo acompanhar a influência que a personagem tem sobre os dois amigos. Além de ser delicioso poder criar um paralelo entre Matt do passado e o do presente, ambos sendo conduzidos e se deixando manipular por duas mulheres diferentes, mas aparentemente com a mesma capacidade hipnótica. A diferença entre Karen e Elektra é que o interesse dela é outro, apesar de gostar do advogado cego desde o começo da série, ela está engajada em descobrir o que puder a respeito da teia de mistérios que é Frank Castle, com inteligência, mas uma boa dose de imprudência. A natureza da Karen é a de contestar, mas ao invés de aprender com o que aconteceu no passado, a vitória sobre o Fisk a fez querer ir além. Existe um teor de confiança e desejo de desafiar muito grande dentro da personagem, o que a aproxima muito da personalidade do Demolidor. Talvez seja daí que tenha surgido o interesse mútuo. Ambos cortejam o caos com intensidade semelhante.
Aos poucos a trama que começou com o Justiceiro também recebe mais cores através da promotoria. Novamente é uma ótima oportunidade para aprofundar o Foggy e deixá-lo longe das atitudes do Matt, mas mesmo assim conectado a trama principal. A volta da advogada da primeira temporada, Marci, expõe a preocupação em deixar o lado cômico de lado e aprofundar cada vez mais o aspecto adulto do personagem. E senhores, é manipulação surgindo de todos os lados. Outro ponto conectado a trama dos coadjuvantes é o que surgiu através da investigação realizada por Karen no New York Bulletin. Através dele fica fácil perceber a falta que Ben Urich faz para a série. Hoje a produção faz uso do Ellison para demonstrar uma faceta que poderia ser utilizada por Urich. E neste ritmo de investigação jornalística o jornalista seria uma perfeita adição para o time. Não que Ellisson não tenha cooperado, mas Urich com certeza teria um peso maior. A série também trabalha o primeiro encontro entre Karen e Matt logo após as investigações e negócios escusos que cada um dos personagens estava envolvido. E na lista de encontros estranhos, esse foi o mais awkward ever.
O essencial deste quinto episódio é entender que Elektra quer tirar o demônio do Matt, mas não exorciza-lo completamente, o seu desejo é o de colocá-lo na superfície. Aquela é uma mulher do caos, uma verdadeira deusa grega da tormenta. Sua missão é levar Matt para baixo, fazer dele seu igual. É só analisar a linguagem corporal do futuro herói. Sua reação é a de ficar parado enquanto ela quebra tudo. De ser desafiado e aceitar o desafio. A cena com a Elektra cortando queijo em cima do protagonista é um belo exemplo de como o relacionamento dos dois funciona, totalmente sem regras e extremamente perigoso, mas divertido, instigante. Estar deitado com a barriga para cima é a posição mais vulnerável que uma pessoa pode adotar. Ter alguém totalmente instável cortando algo em cima de você é um sinal bem grande de confiança e imprudência. E é assim que os dois desenvolveram o relacionamento, com base na diversão e na falta de preocupação com o que poderia acontecer.
Elektra e Matt completavam um ao outro e ver o advogado desprezando a mulher no presente só atiça mais ainda a curiosidade para a montagem do flashback, que se torna útil exatamente por cobrir lacunas que demandariam um diálogo pesado em exposição e explicação. É assim que o recurso deve ser utilizado, contraposto ao que já está acontecendo, mas sem repetir, ou justificar totalmente o que nós já estamos vendo. Isso é um flashback útil. É um complemento. O interessante é ver o Matt tentando negar o seu passado com a Elektra ao dizer que se sente mais confortável com coisas baratas. Elektra é louca. Justiceiro é louco. Ninguém é normal e apesar do ritmo mais lento, este foi um episódio que me fez abraçar a loucura.
Easter eggs e outras informações
– A primeira aparição de Elektra Natchios foi em Daredevil #168 de 1981. A personagem foi criada por Frank Miller, o mesmo que apareceu há um tempo proclamando que a personagem da série não é e não seria nunca a mesma que ele idealizou para a nona arte. A personagem teve um relacionamento breve com o Demolidor em ‘O Homem sem Medo’, ela desiste de ficar ao lado de Matt ao perceber que ela era instável demais e ele muito bom. Inicialmente ela havia sido treinada pelo Stick, mas o mestre desistiu da aluna ao perceber sua volatilidade.
– Roxxon é o nome da empresa que já apareceu antes em diversas propriedades da Marvel Estúdios e TV. É possível ver o nome da corrupta empresa em Homem de Ferro 3 e também em um posto de combustível em Agents of S.H.I.E.L.D. Em Agent Carter o dono da Roxxon já sofreu nas mãos de Peggy Carter algumas vezes.
– Na série o prédio que Elektra visita chama-se Yakatomi, talvez uma referência ao prédio Nakatomi, de Duro de Matar.
– Karen é chamada de deusa no episódio, mas na nona arte ela é conhecida como Page Angel.
– No pôster da academia que Matt e Elektra visitam é possível ver em um dos pôsteres o nome ‘Elisson’, uma clara homenagem ao autor Harlan Ellison, que já trabalhou em Demolidor e Vingadores. A revista escrita por Ellison, “The Deadliest Night of My Life”, inclui uma participação da Elektra, também através de um flashback.
– Roscoe Sweeney é o nome real do personagem ‘Fixer’, o homem que encomendou a morte do pai de Matt Murdock. Sua primeira e última aparição foi em Daredevil #1 de 1964. O personagem morre de um ataque cardíaco enquanto foge do Demolidor.
– Landman and Zack é o nome do escritório de advocacia que Matt e Foggy estagiaram, também é o lugar onde Marci trabalhava. A advogada fez uma menção a um trabalho relacionado a Jessica Jones, para a atual firma Hogarth, Chao & Benowitz.
– Foi mencionado o nome Asano, conectado diretamente a Roxxon. Nos quadrinhos existe uma empresa chamada Asano Robotics, que surgiu em Iron Man #257.
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