O Série Maníacos passou um dia nos cenários de Supermax, grande aposta da Globo para o segundo semestre de 2016.

Em dado momento da conversa com os jornalistas que estiveram presentes na coletiva de imprensa da série Supermax, no Projac, o roteirista Fernando Bonassi responde uma pergunta sobre o porquê da decisão de situar a premissa do programa no âmbito de um reality show. Ele, surpreendentemente, afirma que os realities são geniais porque não há maneira melhor de fazer o ser humano vazar de si mesmo do que confiná-lo junto com estranhos a quem eles se apegam e repelem na mesma medida. Dessa forma, um thriller psicológico alcançaria a profundidade necessária.

E é em um reality, apresentado por Pedro Bial, que estão os doze personagens de Supermax. Para concorrer ao prêmio de 2 milhões, eles aceitam o desafio de confinarem-se num presídio e terem sua rotina acompanhada por câmeras. Todos eles já têm alguma história com o crime e a grande pressão está em retornar ao ambiente brutal e corrosivo da cadeia, ainda que por dinheiro. Bial chega a apresentar a primeira prova da competição, mas algo começa a dar errado e de súbito, a história dos doze participantes passa a ser de horror e sobrevivência.

Para que os presentes conseguissem captar parte da atmosfera por trás do show, a produção decidiu abrir a imensa tenda onde foi construído o presídio para os jornalistas e a experiência começou desde a entrada – quando gritos e ruídos estranhos nos recepcionaram – até o mistério por trás das celas da ala principal, que escondiam, em cada uma, um aspecto primordial da trama, ainda que ele fosse apenas o detalhe do cobertor manchado em cima do colchão rasgado de um dos “detentos”.

Os três andares e 800 metros quadrados que compõem a prisão são absolutamente fascinantes… Ainda que o diretor José Alvarenga tivesse citado True Detective e American Horror Story como referências indiretas, o isolamento do reality show (que pode ser tão bem associado a obra de Stephen King), segundo ele, vem de um desejo de “deixar o terror mais próximo”. Por todo o tempo, houve uma preocupação notória por parte da direção e da grande equipe de roteiristas em apresentar Supermax como uma produção que transgredisse o modelo cômico-familiar dos seriados propostos pela TV aberta.

As referências foram, inclusive, um dos aspectos centrais da conversa com a equipe de criação, apresentada por Alvarenga como parte essencial de sua busca por identidade. Nomes como o de Bráulio Mantovani, Raphael Draccon e Raphael Montes chegaram até o Writting Room da série para contribuir com suas especialidades numa sinopse reaberta para isso. Os 10 episódios foram discutidos e idealizados para se encaixarem num propósito dramatúrgico que não se preocupasse em “abrasileirar” nada, deixando que a identificação acontecesse na relação inevitável com os personagens.

Fantasia, sobrenatural e horror são os elementos mais inusitados da produção. Alvarenga falou muito sobre como esses são elementos pouco visitados pelos atores brasileiros e que houve um trabalho específico de imersão nesses universos. O trailer exibido para os jornalistas revelou que, sobretudo o horror, estará marcadíssimo nas sequências mais violentas, que segundo os roteiristas, não sofreram nenhum tipo de censura. Absolutamente tudo que esteve no papel, passou para a tela, mesmo aquilo que eles consideravam mais limítrofe.

Uma das celas do presídio, por exemplo, escondia uma criatura que era manipulada com uma tecnologia de sensor de movimentos parecida com aquela do Smeagol, de O Senhor dos Anéis. Segundo o diretor, eles só foram para a frente com o projeto após terem certeza de que poderiam usar efeitos especiais com 100% de credibilidade, ou o público não acreditaria na trama por mais que o texto fosse bom. A tal criatura compõe um quadro muito curioso da dramaturgia de Supermax, que trabalhará com segredos e mistérios que nós, o público de séries, sabemos muito bem como são ambíguos. Idéias assim podem alçar uma produção ao título de impecável, como também podem destituí-la de qualquer respeito, sobretudo se as referências não forem delicadas e apenas uma muleta oportunista.

O caso de Supermax parece extremamente promissor. A história foi pensada por quase oito meses, houve uma preocupação categórica com o uso de elementos nada habituais para a teledramaturgia brasileira e com um elenco de nomes pouco conhecidos que proporcionam ao público uma relação direta com os personagens (apenas Cléo Pires e Mariana Ximenes são imediatamente reconhecíveis). A ideia de levar os jornalistas até dentro da prisão também foi estratégica. Para um produto que acessa gêneros pouco explorados, eles quiseram aproximar os influenciadores da atmosfera proposta e impedir que qualquer julgamento de superficialidade fosse possível. Deu certo.

Contudo, apesar de todo esse cuidado e todo esse investimento nessa área, minha pergunta para o diretor José Alvarenga resumiu uma outra preocupação dentro da rede. Quis saber se já que a série tinha tantas referências seriadas, que tantos convidados ali fossem representantes de blogs e sites sobre séries, se houve uma preocupação de pensar Supermax como uma série realmente, com mais de uma temporada, já que tantas produções da Globo nunca ultrapassam a primeira. Alvarenga reconheceu isso, assumiu que esse é um erro da própria equipe (dele, inclusive), que está sempre ansiosa para contar novas histórias e acabando por preterir o maior desenvolvimento do que já fora criado. Não descartou a chance de um segundo ano, mas ela pareceu bastante improvável.

Após a conversa com a equipe de criação e direção, fomos convidados para o refeitório, onde bandejas nos esperavam com um lanchinho que não era como o de uma prisão, mas que aumentava o charme da experiência. Cada um de nós também recebeu um kit que continha um uniforme da prisão, que podíamos vestir e tirar fotos como se tivéssemos chegado para uma “estadia”. Ao final da visita, deixamos para trás o complexo, que seria demolido no dia seguinte. A série só estréia em outubro e exatamente por causa da desmontagem iminente, a produção quis mostrar tudo para os jornalistas e blogueiros antes do derradeiro fim. Da experiência, ficou sem dúvida uma sensação de que a teledramaturgia brasileira (na Globo, mais especificamente, onde esse tipo de idéia tem os recursos necessários) está finalmente se encontrando com o público série-maníaco, não só na forma de espectador como de produtor de conteúdo. Um avanço necessário e aconchegante pra todos nós.

Agora só nos resta aguardar a estréia e o texto de primeiras impressões que, sem dúvida, estará esperando por vocês aqui. Supermax, na Globo e no Série Maníacos, em breve, não percam.

Cell Block Notes: Um final alternativo e um grande esquema de confidencialidade foram providenciados para impedir o vazamento da grande revelação da finale.

Cell Block Notes 2: Logo após as filmagens da versão original, uma versão latina foi produzida usando os mesmos cenários que visitamos. Essa versão latina já tem três temporadas planejadas e seguirá apenas a premissa do original.

Cell Block Notes 3: O trailer exibido, infelizmente, entregou parte dos segredos e aumentou a rede de referências, mas, acho que vocês vão gostar.

Cell Block Notes 4: Ao fim dos trabalhos, almoçamos num restaurante incrível lá dentro do Projac (que agora tem que ser chamado de Estúdios Globo). Passear por lá sempre é fascinante e a equipe de produtores tem uma atenção incrível com a gente. Que venham mais experiências como essa.

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