Quando as coisas são muito maiores do que um crime.
O mundo é podre. Repleto de bandidos, crimes, agressões, violência, e tudo de mais ruim que for possível imaginar, é um lugar praticamente incorrigível. Todos os dias vemos um criminoso sendo perseguido, preso ou assassinado. Mais importante que seus nomes, são seus terríveis feitos, muitas vezes típicos de figuras desumanas sem nenhum apreço pela vida alheia. Passam os anos, e só mudam os nomes. A barbárie é idêntica. Diante disso, o conceito da monstruosidade se torna muito mais importante que a figura que a incorpora no momento. Sabendo disso, Nic Pizzolatto cria um final sublime para sua True Detective, em um Form and Void, em que a crueldade de um crime é muito mais ampla do que seu mero executor.
Durante toda a temporada, disse o quanto a série dava muito maior valor à natureza de seus personagens do que à interessante investigação sobre o assassinato de Dora Lange. Com o passar dos episódios, essas tramas se confundem cada vez mais, até chegar ao season finale em total convergência. Assim, não há mais os conflitos de Rust e Marty. Não existe mais a dúvida sobre quem é o assassino. Tudo o que vemos é uma True Detective em quinta marcha, apenas desfrutando de tudo que desenvolveu até aqui.
Logicamente, isso passa pelo Yellow King. Mas note que sua identidade é quase irrelevante, coisa que Pizzolatto faz questão de mostrar ao espectador mencionando seu nome pouquíssimas vezes, e apenas ao final do episódio. O que realmente importa aqui é a natureza desumana de seus crimes, bem como os de seus familiares, incrustrados em cenários tipicamente manipuladores, como a política e a religião. Ou seja, o famigerado rei de amarelo não é apenas Errol, e sim toda uma legião de monstros capaz de ações terríveis contra mulheres e crianças.
Diante disso, a natureza dos heróis, Rust e Marty. Após sete episódios, vemos que a personalidade dos dois ex-detetives praticamente se confunde, com suas ações revelando um pensamento em conjunto quase sinergético. Se até After You’ve Gone víamos True Detective buscando opor seus protagonistas, aqui vemos o quanto o poder influenciador de cada um mexe com o outro. Isso se revela no primeiro diálogo mais longo entre os dois, no carro de Marty, quando eles, apesar das diferenças, conseguem conversar sobre o assunto que os deixou dez anos afastados.
Além disso, True Detective usa seus personagens para estabelecer diversas relações e aplicar conceitos filosóficos por trás da série (além da própria origem do Yellow King, do escritor Robert W. Chambers). Primeiramente ao confirmar um Marty mais duro e rígido ao não hesitar em ameaçar uma assustada mulher com uma arma para conseguir o telefonema que viria a salvar sua vida. Da mesma maneira, é curioso como Cary Fukunaga decide narrar as entradas de Rust e Marty no local onde encurralariam Errol (ou seria o contrário?). Enquanto o primeiro se revela decidido a encontrar o homem pelo qual se obcecara, o segundo ainda se assusta com a montanha de roupa infantis em um canto, que naturalmente o relembram do vídeo a que assistira algumas semanas antes.
Aliás, é impossível não tirar o chapéu para o trabalho sublime de Fukunaga nos minutos que antecedem ao blecaute de ambos os protagonistas. A começar pelo fato de a sequência ter sido desenhada para ser longa, ampliando o grau de tensão e reduzindo a sensação de desfecho morno no espectador. Mas todo o seu trabalho com sua câmera, que, inquieta, impede que tenhamos total noção do que acontece no local, nos colocando em posição semelhante a dos personagens, criando uma sensação de total imersão. Até mesmo a angustiante trilha sonora contribui para que passemos a ansiar pelo desfecho daquela tortura.
O que nos leva ao momento em que Rust e Errol finalmente se (re)encontram. O realismo da cena impressiona, especialmente por não posicionar o protagonista como um ser humano infalível e invencível. Pelo contrário, os fantasmas que atacam Rust desde sempre o distraem, o que faz com que a situação se torne um dos pontos mais altos de toda a temporada. Nesse ponto, é interessante que Pizzolatto não tenha optado por uma providencial chegada de Papania e Gilbough, que se tornaria artificial demais, mas em um último suspiro de um cabeça-dura Rust que, assim como Marty fizera com Ledoux (não é coincidência esse “revezamento”), traz justiça sem se importar com leis e julgamentos.
Diante de toda a temática religiosa que circunda os Tuttle e Errol, que buscam justificar o injustificável através de seus cultos, é interessante como True Detective utiliza a figura de Rust como salvador, em um plano em que ele surge desfigurado de uma forma que lembra as feições vendidas pela igreja católica de Jesus Cristo, enquanto encara, inexpressivo, as estrelas. E não se satisfaz com o fato de ter derrubado apenas um dos responsáveis pelo mal que há no mundo, e se ver incapaz de ir atrás dos outros, em uma atitude inconsolável típica do personagem, além de contribuir com a ideia da série de não procurar canalizar a culpa em apenas uma pessoa, mas em um conceito mais amplo.
Tudo isso traz para Rust seu momento mais vulnerável, em que finalmente se entrega aos verdadeiros motivos para ser tão durão e insensível. Nesse ponto, Matthew McConaughey entrega sua performance mais tocante, criando um traço orgânico e extremamente convincente da dor sofrida por seu personagem por ter sobrevivido. Esse sensível diálogo que ele tem com Marty revela a cumplicidade entre eles, além de estabelecer uma interessante metáfora sobre luz e escuridão, onde o personagem de Woody Harrelson revela uma perspectiva pessimista sobre a dominância das trevas, e Rust o corrige com um discurso otimista impossível para ela antes do que ocorrera com Errol. Afinal, eles podem não ter derrubado todos os responsáveis pelo círculo de Tuttle, mas ao menos conseguiram trazer um pouco de luz para a monstruosidade que há no mundo.
Ainda que o mundo ainda esteja muitíssimo longe de ser bom.















