E finalmente The X-Files faz o episódio com o monstro-da-semana mais perigoso de toda sua história.

A métrica sempre era a mesma… The X-Files lançou e fortaleceu a fórmula que transformava mitos e lendas em verdades possíveis através de brechas científicas e midiáticas. Por nove anos, o show recheou suas temporadas com vários roteiros apoiados na premissa de que todo monstro surgiu de algum tipo de visão da realidade, distorcida ou não, alienada ou não. Mulder era necessário para manter o espírito do interesse e Scully para desvendar detalhes científicos que em primeira instância queriam desmentir o parceiro, ainda que terminasse sempre o confirmando.

A série nunca foi implacável com suas criaturas fantásticas. Quase sempre elas eram criadas para assustar e matar, mas eram humanizadas na maioria das vezes. Eventualmente, uma consciência especial era delegada a elas, como no caso da criatura que precisava comer cérebros mas queria viver bem entre os homens e o vampiro sem características clássicas que usava dentes falsos para se sentir mais pop.  O conceito de monstruosidade trabalhado na série era sempre o mesmo: sobreviver às vezes requer atos de crueldade, o que não significa que não haja alguma culpa no exercício de cometê-la.

Porém, em nove anos, nunca vimos um monstro tão perigoso como o que vimos nesse adorável episódio três da décima temporada. O episódio escrito por Darin Morgam teve uma quantidade impressionante de easter eggs, quase todos eles saídos de episódios escritos por ele mesmo no passado. Ao tomar a decisão de levar a trama para o humor, o roteirista encontrou a porta aberta para uma série de homenagens e deboches que tornaram essa experiência completamente mágica para os fãs.

Em termos de estrutura foi só nostalgia. Alguém é morto num teaser, os dois agentes são chamados e novas mortes vão revelando novos detalhes. A dinâmica de Mulder acreditando e Scully duvidando, porém, sofre uma pequena alteração, quando o agente resolve que esse é o momento de uma passada a limpo em todos os seus impulsos de fé. Aqui preciso dizer que David Duchovny reencontrou seu personagem em plenitude… Que delícia ver Mulder tentando se adaptar ao novo mundo enquanto reconhecia uma meia-idade ainda tomada daquele espírito infante que ele carrega na forma como aceita o fantástico que todos desprezam com arrogância.

Darin foi muito atento, é impressionante. Ainda que na estrutura a série estivesse sendo revisitada de modo totalmente referencial, ele não se acovardou ao jogar os dois agentes em momentos de auto avaliação e impulso que não eram parte do jogo. Enquanto Mulder revia os casos para descobrir que passou anos defendendo ideias loucas, Scully desfilava pelo episódio com uma leveza irresistível, segura do que fazer, segura de que o parceiro estava em numa pequena crise passageira e ainda aparecendo numa fantasia de Guy de forma ÉPICA, seduzindo e transando. Eu nunca vi Scully transando nem em sonho. 

A questão da modernidade ainda é outro ponto sobre o qual os roteiros têm se debruçado muito. E do jeito certo. Quando eles vão pra investigar o lagartosomem e tem apenas um desenho como pista, Mulder comenta como era estranho que ninguém tirasse uma foto, já que todo mundo fotografa tudo hoje em dia. Ter só um desenho era bem coisa deles nos anos 90, mas agora não pode ser. Então, Mulder começa a usar um aplicativo de fotos de modo hilário, nos alegrando com sequências deliciosas de perseguição. A sequência entre ele e Scully no necrotério já é uma das melhores coisas que o show já fez. Assim como o momento em que ele começa a acreditar e ouve dela : “É assim que eu gosto do meu Mulder”. Então, se não bastasse tudo isso já ser ótimo, o telefone dele toca e o ringtone é o próprio tema da série. EU QUASE MORRI. 

Já tivemos episódios cômicos no show algumas vezes e lembro que na época isso era visto com hesitação pelos fãs, que sempre queriam mais sangue e escuridão. Com exceção da sexta temporada (tomada demais de episódios leves e solares por ser a primeira filmada fora de Vancouver), tudo sempre foi muito equilibrado. Mais importante que isso é reconhecer que os roteiros sempre se esmeram em embasar essa comédia de boas viradas. A virada desse episódio foi inteligentíssima, porque ver homens virando monstros porque foram submetidos a experiências, exposições radioativas ou porque foram mordidos é a coisa mais normal da ficção. Mas, ver um monstro virar homem pela mesma razão, não. 

Na fantástica cena em que Guy, o lagartosomem, explicava para Mulder que a mordida lhe condenara a uma vida medíocre e cruel, as mensagens subliminares eram tantas que quase me sufocaram. Eu queria gritar todas elas, porque eram tão preciosas, tão relevantes… No fim das contas, a vida de Guy como uma criatura-lagarto era muito tranquila até que ele se deparasse com um monstro. Nós, os seres humanos é que somos esse monstro. Nós é que sufocamos nossa própria existência com nossa consciência corrosiva, nossa agressividade, nossa sexualidade irracional e a ambição e luxúria que nos acomete constantemente. Uma mordida e Guy se tornou um monstro engravatado que só pensa em sexo e responsabilidades egoístas. Ser monstro é mais tranquilo… Ou melhor, quem são os monstros desses anos contemporâneos? Não são aqueles que se escondem em suas cavernas ou esgotos. Esse é o recado de Darin Morgan. Genial, é só o que posso dizer.

Então, no final, a epifania de Mulder é absoluta. Ele, que começou o episódio falando sobre monstros que eram farsas, descobriu um que era de verdade, mas que lhe transmitia a verdade com a força de uma marretada: existem monstros sim, Fox. Mas, eles não são os que tem escamas, três olhos ou uma calda. Quem diria, senhores… The X-Files realmente amadureceu. Isso me emocionou de verdade. Sobretudo quando os olhos de garoto de Mulder brilharam no momento em que a fantasia se revelou diante dele. O sorriso infante no semblante do agente me abriu o peito numa explosão de catarse. Dei até uma choradinha leve, de pura alegria… Podem rir, mas eu dei. Assim como ele, eu acredito em monstros. E acredito também que posso viver para não ser um deles. 

Forever Excer: Scully se apressando em dizer que o pôster na parede era dela. Recado dado. 

Forever Excer 2: A prostituta pseudo-atacada por Guy era a Shangela, uma das populares drags de RuPaul’s Drag Race. Estava ótima e ganhou até um elogio de Gillian nas redes. Gillian, aliás, no mesmo tweet contou que quem desenhou o lagartosomem foi sua filha, Piper. 

Forever Excer 3: Mulder, the internet is not good for you. 

Forever Excer 4: David Duchovny de cuecas ainda dá muito caldo. 

Forever Excer 5: Na cena no cemitério, as duas sepulturas onde estão os personagens são homenagens a duas figuras falecidas da equipe. O diretor Kim Manners e um assistente de Carter, Jack Hardy.

Forever Excer 6: Quando Scully diz “Você sabe, eu sou imortal”, ela está se referindo ao episódio em que ela pergunta a um vidente como ela morrerá e ele diz: “You don’t”. 

Forever Excer 7: O cãozinho que Scully relembra, Queequeg, foi um que ela teve durante a terceira temporada, quando após um caso ela resolve adotar o animal (exatamente o que ela fez agora). QueeQueg foi comido por um jacaré gigante. Ambos, ele e Dagoo, tem seus nomes tirados da obra Moby Dick.

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