“A”… De apatia.
Colocada em retrospectiva, quais são as duas maiores lições que The Walking Dead tenta nos “ensinar”? Em primeiro lugar está a lição da sobrevivência. Mesmo que sem nenhuma perspectiva de paz, os personagens seguem nas próprias jornadas reafirmando desesperança, mas sempre decididos a continuar vivendo. Dizem que diante da adversidade, a vontade de viver se revela surpreendente e eu não duvido disso e nem quero tirar a prova. Pra sobreviver vale tudo. E com isso, a série nos entrega sua segunda grande lição: nunca perca sua humanidade.
Num mundo onde os mortos se levantam e comem os vivos, o paralelo humano fica frágil, oscilante. O julgamento diante de um animal selvagem é um, mas o julgamento diante de um rosto familiar – mesmo que transfigurado – é outro. Se pessoas mortas são responsáveis pela morte, o que diferencia a civilização é a vida, e entende-se “vida” por consciência, discernimento. Se um walker não tem, um ser vivo precisa ter. Mas, no processo da busca pela sobrevivência, alguns valores e escrúpulos inerentes à condição da vida precisam ser descartados para permitir a defesa. E é aí então que começa o problema… Como me diferenciar dos monstros se pra viver cometo atrocidades?
Pode parecer riquíssimo se visto assim, e até é. Escondida na força das próprias metáforas, The Walking Dead parece um braço perdido da militância analítica. Ela abre mão de tudo para cavar profundidade, se contorce toda para soar erudita e chega a extremos absurdos como o desse season finale, que possuído por um espírito de desafio intelectual, soou como o final de temporada mais apático de toda a história do show.
Já fizeram isso conosco antes… O final da terceira temporada foi bem preguiçoso e adiou para a temporada seguinte o destino do Governador. Com isso, podemos esperar que os pormenores de Terminus sejam solucionados só lá pelo episódio 8 do quinto ano. Vendo por esse aspecto, estão até sendo coerentes com o próprio planejamento, ainda que seja o planejamento mais lento do mundo. Porém, na finale da terceira temporada ainda tivemos a morte de Andrea e isso deu ao episódio um pouco de dignidade. Mortes de impacto fazem parte de que qualquer cartilha dramatúrgica e até séries do alto escalão crítico lançam mão disso. Se não tem nada melhor pra mostrar, mate alguém. No caso de The Walking Dead, não… Faça mais um episódio de narrativa fragmentada, focado num só núcleo, não responda nada e adie algum clímax até o ano seguinte.
Fiquei desconfiado logo de cara, quando vi aquele flashback. Esses roteiristas não querem mesmo deixar essa prisão pra trás. Não havia nada de relevante naquele passado, exceto o paralelo com o presente caótico. Mais analogias e metáforas… A cada cena que maximizava a violência do dia atual, uma outra cena de leveza era invocada no flashback. A intenção dessa season finale foi essa: continuar reiterando o que já estamos CANSADOS de saber. Os sobreviventes se monstrualizam por necessidade e isso os faz parecer menos humanos. Precisa sublinhar isso toda semana?
Sim, precisa. E a razão pra “galerinha do Daryl” existir foi utilizada na reafirmação desses processos. Aquele pessoal serviu apenas para nos colocar diante do momento dos quadrinhos em que Carl quase é estuprado (gerando uma avalanche de memes na rede). Sem dúvida, é um momento de muito impacto emocional e que foi dirigido com uma boa escolha de iluminação e ângulos. Muitos fãs esperavam pela ocasião em que Rick mataria um dos saqueadores com uma mordida e numa perspectiva dramática, essa sequência foi a única com as doses certas de verdade e apelo. Tardia, mas eficiente.
Porém, para cada elogio de direção, um deslize inacreditável. Quando Carl e Rick surpreendem um homem sendo atacado por walkers na floresta, é absurda a forma como a marcação de cena é feita, com um buraco imenso por onde o homem poderia ter facilmente fugido. Fiz questão de fotografar pra vocês verem:

E não é de hoje que a gente reclama dessas marcações desleixadas, que uma hora fazem os walkers serem rápidos demais e outras horas, não. Que os fazem atacar quando perto dos humanos enquanto permitem, em outras ocasiões, aproximações questionáveis… Na morte de Lizzie, a tentativa de correlação com Ratos e Homens já tinha resultado numa diagramação esquisita… Enfim, nunca vou entender como um diretor comete um deslize desses. Essa vítima teria conseguido facilmente escapar desse cerco.
No meio do caminho tinha uma metáfora… E lá estão as armadilhas que Rick elucida sendo correlacionadas com a maior armadilha de todas: Terminus. Ficamos sete episódios acompanhando trilhos que nunca terminavam, para chegarmos ao final deles sem nenhum esclarecimento digno. Claro que as pistas para o grupo de canibais estavam ali, mas o público foi recompensado de alguma forma por ter esperado tanto? Personagens enigmáticos, inscrições enigmáticas, velas, pertences, rostos… Tudo que consegue formar uma boa atmosfera de suspense, mas configurado para corresponder à apatia da narrativa, que promete um clímax que nunca vem.
Enfim, os personagens se encontram dentro do vagão “A”. Nesse ponto, cansei de buscar referências apoiadas nos primitivismos da letra alfabética e me conformei com o embuste. Faltavam poucos minutos pro episódio acabar e tudo que ele me ofereceu foi mais um discurso sobre os limítrofes entre homem e monstro. Se existe um fator cool no fato da armadilha ter capturado animais piores que o algoz? Claro que existe. O povo de Terminus vai sofrer. Mas o problema de The Walking Dead nunca foi carência metafórica, disso ela está empanzinada. O que a gente não vê é boa organização dramatúrgica, bom planejamento a curto prazo e o mínimo, o mínimo que seja, de brilho. “A” de apática… “O” de opaca… “I” de insípida.
Sei que muitos de vocês preferem que eu não esteja aqui no quinto ano, mas não vou prometer que não estarei. Eu acho que não vou conseguir deixar a série enquanto ela ainda for a única produção recorrente sobre esse tipo de apocalipse. A fórmula é pobre e eficiente e eu ainda não vou saber lidar com a abstinência. Prometo, no entanto, que se aparecer algum colaborador que tenha perspectivas mais otimistas, eu considerarei passar as reviews adiante. Gosto de falar de The Walking Dead, uma pena que ela nem sempre respeite o tamanho desse amor.
Até mais…
PS – Já saiu o primeiro pôster da 5ª temporada que estreia por meados de outubro.
















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