Após uma estreia que superou expectativas e alcançou uma audiência bastante significativa, The Night Of retornou para seu 2º episódio com a missão de fidelizar o público e envolvê-lo definitivamente na trama de Naz. Mantendo o ritmo cadenciado e uma qualidade técnica admirável a série volta a entregar um ótimo episódio que funcionou não apenas para criar ainda mais empatia com os personagens como também para aguçar o desejo de seguir adiante nos próximos capítulos.

Eu havia comentado na review anterior que a minissérie tem uma construção lenta e esse Subtle Beast veio para corroborar ainda mais esse aspecto.  Sem eventos ditos clímax, tais como aquele em que Naz descobriu o corpo de Andrea e quando foi descoberto com a faca na delegacia, a sensação é que o ritmo desse 2º episódio foi ainda mais lento que a premiere. De fato, foi um episódio de transição que apresentou as consequências e o desenrolar imediato do ‘dia seguinte de um crime’ bem como toda a construção do caso contra Nasir Khan. Fica cada vez mais claro que The Night Of não é sobre o assassinato de Andrea ou a vida de Naz, a minissérie trata das engrenagens que movem o sistema criminal americano e cada um dos detalhes apresentados de tão crua e veridicamente são exatamente a história que avança e que a série quer contar.

A trama trabalhada minuciosamente e desenvolvida passo a passo deixa ainda mais evidente a sensação de estarmos lendo um livro policial. Impressiona-me o cuidado das tomadas feitas e como enquadramento é planejado para nos dar vislumbres originais dos acontecimentos que se passam. Um incrível trabalho de direção, trilha sonora e fotografia que contribui e muito para a tensão criada e se torna parte importante da experiência de assisitir The Night Of.

Em Subtle Beast o dia amanhece e a série torna-se menos escura que na premiere. A cena do crime parece menos macabra vista à luz do dia, mas a realidade de Naz parece mais palpável. Tanto para ele que confronta suas próprias lembranças, e a ausência delas, encarcerado em um pesadelo impensável, quanto para sua família que aos poucos contempla a gravidade da situação que o jovem filho envolveu-se. Esse episódio tratou justamente dos eventos que se seguem à descoberta do corpo de Andrea e da prisão de Naz, mostrando os diferentes pontos de vista sobre um mesmo crime: o acusado e sua família, a família da vítima, a polícia e o Detetive, o advogado de Defesa e a Promotoria.

Verdade x Justiça. É na primeira conversa de Naz com seu advogado que temos algumas das melhores frases do episódio. Stone não quer conhecer a história de Naz ou a verdade por trás daquele cenário, mas quer construir a melhor história que o inocente diante do que parece tão irrefutável. A verdade que inocenta e livra a consciência de Naz não é aquela que comoverá e convencerá o júri, e essa é uma das primeiras lições que o jovem precisou compreender:

“Não quero estar preso a verdade. A verdade pode ir pra o inferno, ela não vai ajudar em nada aqui.”

Interessantemente, mais tarde vemos o Detetive Box dizendo que a Justiça é um grande clube do qual ele não quer fazer parte. Ele ainda afirma que ‘não é um agente duplo e que seu trabalho é procurar a verdade’. Um contraponto extremamente curioso entre ‘os papéis’ de personagens tão interessantes. Stone busca defender Naz independentemente de acreditar nele ou na sua história, para seu trabalho de defesa isso pouco importa. E é justo o homem que investiga Naz e o aponta como maior suspeito que busca a verdade que ele tanto quer que acreditem…

Aí está um dos grandes pontos positivos de The Night Of. Não estamos falando de um Detetive que orquestra uma grande farsa para incriminar Naz ou de um advogado de defesa heróico e irretocável. É tudo muito real, diferentes facetas verossímeis de um mesmo sistema e a maneira com a qual lidam com um caso tão aparentemente óbvio (mas na verdade tão intrincado e complexo) como esse de Nasir Khan.

Fera Sutil. Stone também dá dois grandes conselhos para Naz. O primeiro e extremamente importante “Fique calado” que deve ser o maior guia e escudo de Nasir ao longo dessa temporada. Inicialmente ele não compreendeu a amplitude desse aviso e conversou com os pais, especialmente por ter caído na sutileza daquele que seria o próximo grande aviso de seu advogado. Quem é o Detetive Box.

“Box é o chefão aqui. Ele é muito bom. Como bom policial ele manipula você dentro das regras. É um opressor talentoso, uma fera sutil”

E as manipulações legais dessa fera sutil, que dá nome ao episódio, ficaram evidentes por diversos momentos. Seja quando Box libera que os pais conversem com Naz na delegacia na expectativa de captar algo nas entrelinhas dessa conversa, seja quando ele, transvestido de um ‘bom amigo’ tenta persuadir o jovem a confessar o crime. Box tem evidências circunstanciais e biológicas praticamente irrefutáveis, mas sabe que uma confissão seria matadora. E é dando a bombinha de asma à Naz e usando discursos persuasivos atrás de frases como ‘Ajude-me a te ajudar’ que Box tenta induzir o jovem a explicar porque um jovem como ele cometeria tamanha crueladade. Mas ali Naz já havia sido ‘dominado’ por Stone e tinha aprendido que seu maior trunfo era manter-se calado.

É também Box quem dá a camisa de Harvard que Naz vem a usar na prisão e a sutileza dessa escolha não me parece ao acaso.

Ressalto aqui como Bill Camp e John Turturro estão sensacionais dando vida a personagens tão interessantes e ‘cinzas’ como Box e Stone. Camp dá a Box exatamente essa sensação de uma fera sutil que tranquilamente prepara o terreno para abocanhar sua vítima ao mesmo tempo em que uma rusga de dúvida o assola ao confrontar o quebra-cabeça da morte de Andrea. Por outro lado, Turturro desempenha com grande êxito a figura de um advogado desprestigiado e de capacidade questionada (inclusive pela própria ex-mulher!) que convive com um eczema e não se acanha em afirmar que ‘está no local certo, na hora certa’. Excelente poder vê-los dialogando e confrontando-se com tanto talento. Da mesma forma, foi ótimo conhecermos mais camadas da vida de Stone através das cenas que aparece em casa dialogando com o filho e cuidando de seus pés.

Família. Enquanto Naz está preso e isolado ele está ‘protegido’ do preconceito que o acompanha e que será sua sombra durante todo esse caso. E quem sofre com isso é justamente sua família. Atordoados e com toda a dificuldade inerente a compreender que o filho foi acusado de um homicídio, eles ainda são apunhalados a cada vez que escutam frases como ‘um muçulmano maluco cortou uma garota’. Quando eles afirmavam que tudo não passava de um equívoco, ainda não tinham dimensão do problema que o filho se metera. Essas revelações começam a aparecer na conversa entre os três na cadeia quando eles assustam-se a cada fato contado por Naz. Como pais, eles ainda acreditam na palavra do filho, mas começam a compreender a complexidade de defendê-lo diante das circunstâncias apresentadas. Naz não foi um bode expiatório encontrado aleatoriamente na rua. Ele esteve na cena do crime, ele dormiu com a vítima, seu DNA está lá e a possível arma do crime estava com ele. Interessantemente quando a polícia chega para revistar a casa de Naz, a mãe dele já fazia o mesmo em seu quarto.

Subtle Beast também introduziu um novo personagem e porque não, um novo suspeito do crime. O padrasto de Andrea, Don Taylor (Paul Sparks) chega para expor um pouco do passado conturbado da menina. E por ele ficamos sabendo que ela envolveu-se com diversos tipos de drogas, perdeu a mãe e o pai, não estudava ou trabalhava e morava em uma casa pertencente à sua falecida mãe. O comportamento de Don é absolutamente estranho. Desde o primeiro momento quando atende a chamada de Box e mostra-se irritadiço julgando que ela estava presa novamente até os momentos em que reconhece (?) o corpo. Além de fazer questão de enfatizar que a jovem é sua enteada e não sua filha, sua reação às fotos do corpo de Andrea não poderiam demonstrar mais a distância e frieza dele para com aquela situação. Basta a sugestão de que ele precise ver o corpo da enteada para que instantaneamente passe a reconhecê-la nas fotos.  Por que ele não quis ver o corpo de Andrea? Essa frieza é parte de sua personalidade ou é um escudo que usa para esconder algo que não quer revelar?

Nesse episódio também fomos introduzidos a outro membro do Clube da Justiça, a Promotora que parece conhecer Box profundamente. Apesar do Detetive afirmar que ‘não há onde ela perder’ esse caso, ela encontra, no piscar de olhos de Box e em sua demora para formalizar a acusação, uma brecha que deve ser considerada.

Se Stone está ‘no lugar certo, na hora certa’, o oposto aplica-se perfeitamente a seu cliente. O desespero estampado no olhar do jovem que presencia pela primeira vez a violência da prisão foi impactante. Seu olhar assustado enquanto um dos companheiros de cela chutava o outro que gemia de dor era Naz realizando o cenário alarmante que se encontra por ter estado ‘no lugar errado, na hora errada’. Da mesma forma, igualmente tocante foi seu nervosismo diante do Juíz que lhe nega a possibilidade de fiança e o condena à prisão preventiva. Se os Khan ainda não haviam compreendido a gravidade da situação de Naz, esse momento vem para não deixar restarem quaisquer dúvidas. “Quer pena de judeu? Cometa crimes de judeu”… E diante dos olhos da Justiça Americana Naz cometeu crime de muçulmano…

E o episódio termina com Naz chegando a Rikers Island, o principal complexo prisional de Nova York. Conhecida pela negligência e abuso aos quais os prisioneiros eram submetidos, essa prisão já foi eleita uma das dez piores dos EUA. Se a série seguir mostrando os fatos de forma tão verídica, o pesadelo de Naz pode estar apenas começando…

SM Detective

Suspeitos: Naz; Motorista da funerária; A dupla que viu Naz e Andrea juntos na casa da jovem; Padrasto de Andrea…

– As menções aos gatos parecem tão recorrentes nessa série que começo a pensar se realmente não tenham algum significado ou escondam alguma pista. Um gato aparece na abertura da série, Naz era alérgico e Andrea precisou tirar seu felino de casa e um gato voltou a aparecer na última cena do piloto… Nesse episódio, quando revisita a cena do crime ficamos sabendo que o Detetive Box também é alérgico a gatos!

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