Ninguém foi poupado.
Eram três quando ouviram os três segredos… Havia neles uma vontade crucial de transmitir ao mundo aqueles ensinamentos, mas de alguma forma, eles não podiam fazer isso imediatamente. O mundo não era capaz de ouvir. Então, eles esperaram até que a mensagem que precisavam transmitir pudesse ser absorvida em sua plenitude. Não eram segredos fáceis. Eram o início do fim. Eles eram três quando aquela entidade lhes contou segredos… E por mais que se anunciasse santa, ela era a proclamação de um mundo sem luz e sem fé.
Quando The Leftovers estreou na televisão americana, a rejeição ao seu formato se deu por dois grandes fatores: tratava-se de uma série do “maldito” Damon Lindelof e seu retorno se dava de modo agressivamente auto-afirmativo. Havia uma linguagem dramática afetada, incisiva; e uma série de analogias que precisavam de muita atenção para serem desvendadas. Não era realmente uma produção acessível e mesmo que pautada em qualidade, estava correndo sérios riscos de cancelamento. Um retorno para uma segunda temporada só foi possível porque o planejamento, provavelmente, convenceu a HBO a continuar a aposta.
Depois de I Live Here Now ficou muito claro por que os executivos do canal não podiam deixar de produzir esse ano. É simplesmente sensacional que essa história sobre os efeitos do “arrebatamento” numa sociedade obrigada a lidar com uma crise de fé, tenha caminhado para um enredo planejado minuciosamente em cima da vingança. Se o resto do mundo considera Miracle um local a ser reverenciado, os Remanescentes Culpados, liderados por Meg, consideram abominável que haja um lugar onde as pessoas sintam-se favorecidas sobre as outras. A ideologia do grupo condena qualquer expressão social de orgulho perante a Partida. Não é só uma questão de lembrar, mas de reconhecer a crueldade e aleatoriedade do novo mundo.
Então, quando colocamos essa finale em perspectiva com o restante da temporada, fica evidente que havia um plano em andamento muito antes de Kevin chegar à Jarden. O plano era o de aniquilar aquele pedaço de terra onde o caos não havia chegado e tirar da população da cidade a ilusão de que eram especiais de alguma forma. Os Remanescentes, enfim, após todas as críticas sofridas no primeiro ano, se tornaram a engrenagem principal dos eventos, por mais velados que eles estivessem, preparando terreno para uma lição que invadiu a cidade como uma praga da verdade: Ninguém foi poupado.
Em 13 de Julho de 1917, três crianças portuguesas teriam tido a visão de uma entidade que lhes contou três segredos, repartidos com o mundo pouco a pouco. O episódio ficou conhecido como O Segredo de Fátima, que em suas duas primeiras partes, apenas seguiu a métrica teatralizada das descrições infernais e de um tempo de guerra e terror. Não digo efetivamente que tenha havido qualquer impulso de Damon Lindelof em construir a história de Evie e suas duas amigas (três crianças) como arautos equivalentes ao Segredo de Fátima, mas quando lemos sobre o terceiro segredo, divulgado muitos anos depois, é impossível não traçar um pequeno paralelo.
Há um brilhantismo inegável nessa noção. Há um brilhantismo inegável sobretudo no plano de Meg, que calculou minuciosamente a forma como iria desajustar a cidade. A maior prova de que ninguém havia sido poupado realmente é que Evie e suas amigas compartilhavam de um sentimento mútuo de frustração, que nunca podia vir à tona porque seria um ruído no meio da necessidade da cidade de soar otimista e milagrosa. Assim, mais do que recrutar as meninas, Meg quis usá-las para arrancar de outros moradores aqueles mesmos sentimentos de frustração, fazendo com que ao fingir a partida, a ideologia remanescente fosse envenenando todos aqueles que não experimentaram aquele tipo de perda. Enfim, quase impossível não aplaudir um plano desses.
A coisa toda ganha uma dimensão realmente especial, quando consideramos que o sistema de ação dos Remanescentes se baseia na quebra dos códigos sociais pré-estabelecidos. Não há mais laços, não há mais hierarquia, não há mais religiões. Evie e suas amigas acabam funcionando sim, como emissárias dessa ideologia para uma cidade ainda dominada pela ideia de que Deus os escolheu por alguma razão. Ao ler um pouco do segredo de Fátima número 3, não consigo deixar de ser levado para a “coincidência” daquelas três crianças portuguesas terem vindo anunciar a “morte” das organizações sacras.
“E vimos numa luz imensa, que é Deus, algo semelhante a como se vêem as pessoas no espelho, quando lhe diante passa um bispo vestido de branco. Tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre. Vimos vários outros bispos, sacerdotes, religiosos e religiosas subirem uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande cruz, de tronco tosco, como se fora de sobreiro como a casca. [tal qual a cruz acima do totem no meio de Jarden] O Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade, meio em ruínas e meio trêmulo, com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena. Ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho.
Chegando ao cimo do monte, prostrado, de joelhos, aos pés da cruz, foi morto por um grupo de soldados que lhe disparavam vários tiros e setas e assim mesmo foram morrendo uns após os outros, os bispos, os sacerdotes, religiosos, religiosas e várias pessoas seculares. Cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. [os remanescentes agem na destruição das noções do religioso] Sob os dois braços da cruz, estavam dois anjos. Cada um com um regador de cristal nas mãos recolhendo neles o sangue dos mártires e com eles irrigando as almas que se aproximavam de Deus.”
É claro que se trata de uma analogia frágil e que se aproxima do Season Finale de modo circunstancial. Entretanto, durante aquela passagem impressionante na ponte, não consegui deixar de pensar que sim, eram três “crianças” transmitindo ao “mundo” que o tempo de acreditar nas instituições religiosas acabou e que o impulso individualista é a nova ordem centralizadora da terra. Impressionante como Lindelof conseguiu provar esse ponto de vista de forma clara, estabelecendo uma coerência com tudo que vimos na primeira temporada.
A sequência na ponte cresceu na direção de um pico inevitável. E aliás, que sequência… Fotografia, atuações, música… Um pouco daquele espírito do primeiro ano, com silêncios em meio ao caos e uma beleza ligeiramente sombria. Quando Erika correu pela ponte até Evie foi difícil não se emocionar. Que televisão tão mágica é essa que fizeram? Uma televisão capaz de costurar as nossas expectativas e celebrá-las com resoluções objetivas, ainda que envoltas em recursos dramáticos indiretos.
Toda a tensão do relógio, a promessa de bomba, o clima de medo… Mas, jamais podemos esquecer que Meg não explode granadas, ela só reforça o medo e a vulnerabilidade. Por isso, não haver uma bomba é corretíssimo, sobretudo quando recordamos que é a colonização o processo natural dos Remanescentes. Foi embasbacante ver os membros do grupo infiltrados no acampamento, conduzindo uma invasão a Jarden para tirá-la definitivamente da sua zona de conforto. Eles não trabalham de fora pra dentro, eles sempre interferem de dentro pra fora. Genial, simplesmente genial.
Tudo ter acontecido no aniversário da Partida Repentina também teve seu propósito. Muitas coisas se perderem no meio da invasão e algumas foram recuperadas a partir dessa perspectiva. É muito curioso como esse novo dia 14 restituiu uma família e estraçalhou outra. Se formos olhar bem, todos os personagens do primeiro ano ganharam alguma coisa de volta… Nora teve a chance de salvar sua filha; Laurie retornou para Jill; e Tom retornou para Laurie. Mary acordou e Matt também encontrou sua redenção… Porém, os novos personagens é que sofreram seu primeiro arrebatamento. John perdeu a filha; Erika já entendia bem o que era querer desaparecer; Michael perdeu sua segurança… Tudo numa esperta inversão de polaridades. O dia 14 de quatro anos atrás não atingiu Jarden, mas o dia 14 desse ano devastou-a.
Kevin e John, aliás, foram estrategicamente situados nessa finale. Enquanto a jornada de perdas de John começava, a jornada de redenção de Kevin terminava. Há um aspecto sobrenatural em torno de Jarden que não foi perdido e que é, provavelmente, o aspecto onde se agarram ainda as crenças de Michael e Matt. Kevin realmente esteve enterrado por oito horas e isso se conecta a outras propriedades místicas da cidade. Porém, no caso do protagonista, tudo serviu para uma condução através da liberdade. Kevin “morreu” de novo e voltou ao hotel. Escolheu dessa vez seu uniforme de xerife e com isso, recebeu uma tarefa muito simples: apenas reconhecer, enfim, que tudo que ele queria era voltar para casa. Sem mais disfarces, orgulhos, sem mais necessidade de revestir de complexidade um desejo muito direto: voltar para casa. E assim que ele cantou isso, ganhou uma nova oportunidade. O mais incrível é que ele acordou para uma Jarden cheia de hedonismo. Mas, ao voltar para casa, encontrou absolutamente todos que ele amava esperando por ele. Seu sorriso emocionado foi a expurgação definitiva que encerrou essa temporada de um jeito simples e lindo.
Assim como aconteceu no final do primeiro ano, não posso nem imaginar para onde iríamos se houver mesmo uma terceira temporada. A diferença é que agora acredito totalmente em Damon Lindelof. Se minha admiração por ele era grande por conta de Lost, com The Leftovers eu já o elejo como um dos showrunners mais competentes da TV. Me comove a forma como ele continua a não temer suas resoluções pessoais e espirituais; e como consegue encaixá-las numa engrenagem de tensão como nenhum outro consegue fazer. A vida é o quê, afinal das contas, se não um grande caminho tortuoso e mitológico, regado de prazer e culpa, inevitável, envolto em camadas e camadas de puro medo e mistério?
As Sobras: Todos os detalhes são tão planejados… Erika abriu o presente de Evie e foi maravilhoso notar como ela sempre abre caixas com coisas mortas.
As Sobras 2: O que poderia ter acontecido se Kevin tivesse escolhido o branco dos Remanescentes entre as opções do armário do hotel?
As Sobras 3: Elenco de The Leftovers: ganhem todos um prêmio. Vocês merecem.
Quero agradecer a vocês por essa temporada maravilhosa que passamos juntos aqui, aos tweets pedindo pela review, fazendo elogios, aos compartilhamentos e ao carinho. Eu sou um sortudo danado por ter essa chance de escrever e por ter esses leitores sensacionais. Espero realmente que nos encontremos de novo no ano que vem, se a HBO for capaz de reconhecer o poder dessa série e a forma catártica como ela nos arrebatou esse ano.






















