Fizemos eles lembrarem. 

Quem tem do que se arrepender ou do que desejar, sabe o quanto a memória pode ser inconveniente. Ela não se faz de rogada em nos alcançar com seus detalhes perturbadores, que ainda por cima são absolutamente eficazes na arte de trazer à tona sentimentos que lutamos loucamente para manter adormecidos. Objetos, cores, lugares, pessoas… O pior é que geralmente esses detalhes ganham uma nova proporção quando precisam ser esquecidos. Parece até mesmo que eles nos perseguem, determinados a nos surpreender como assombrações que espreitam em esquinas escuras.

Assim, faz mais sentido ainda que o penúltimo episódio da emblemática primeira temporada de The Leftovers, tenha sido um episódio transitório. Isso era necessário para que o caos instalado em Mapleton fizesse mais sentido, fosse mais latente, devastador. A dormência na qual viviam os moradores foi sacudida com a mesma crueldade com a qual seus mundos foram abalados no dia da Partida. Pior do que perder é ter, mesmo que por um minuto, a esperança de que aquilo que foi perdido lhe tenha sido devolvido.

E então, o incrível Season Finale se abre ao som de Ne Me Quitte Pas. A voz da canção pede para não ser abandonada, implora por permanências que não podem ser cumpridas, porque isso tem a ver não apenas com o desaparecimento do que se ama, mas com o estabelecimento de que a memória é a pior sequela dos momentos que rompem a nossa paz.

Não me abandone, é preciso esquecer,
Tudo pode ser esquecido, o que já ficou pra trás.
Esquecer o tempo dos mal-entendidos
E o tempo perdido tentando entender porque”

Tudo que vimos nesse começo de episódio é um ajustamento do que se ouviu no diálogo entre Patti e Kevin. Ela falava sobre nunca conseguir superar, então a temporada voltou ao passado para nos mostrar o que todos queriam esquecer. Até que nessa derradeira semana, esse movimento de anulação do tempo começa a soar definitivamente impossível. Então, estão todos no limite… Incluindo Jill e sua investida no mundo acolhido pela mãe; e Tom, que viu Christine desistir de fingir ser especial, deixando o resultado disso pelo caminho, no chão sujo de um banheiro público.

O que os Remanescentes Culpados fizeram foi de uma crueldade sem precedentes… Quando Mapleton amanheceu com as cópias espalhadas pela cidade, a sensação era de que aquelas forças que abduziram a população tinham decidido ser engraçadas e sorrir as custas de quem ainda estava sofrendo por ter ficado aqui. Lá estavam elas… as cópias. Vestidas como seus originais, mas cheias daquela morbidez velada, o plano levava em consideração que a mente torna bonecos e bonecas passíveis de serem confundidas com cadáveres, que podem ganhar vida enquanto nos olham das prateleiras. Os olhos cheios de um brilho bizarro… mortos e ainda brilhantes.

Nunca me importei com o que eles fazem
Nunca me importei com o que eles sabem
Mas eu sei”

Esse é um trecho da canção Nothing Else Matters, do Metallica, que tocou naquela linda versão em violoncelo, exatamente no momento em que a cidade acordou para seu novo inferno. Lindamente executada e estrategicamente escolhida, a canção compôs a agonia de Nora, que sofreu de novo o julgo de si mesma, sendo sugada de sua aparente conformidade, para se confrontar exatamente com aquilo que queriam os Remanescentes: dor e pesar. Se Jill e Meg eram as provas de que a perseguição deles funcionava, Nora é a prova de que a chave é sempre a memória. Incapaz de matar-se e de viver em eterna lembrança, ela decide ir embora, para um lugar onde possa não fingir que esqueceu, mas fingir que se trata de outra pessoa.

Não sei de que forma Nora e o bebê de Wayne serão conectados, mas afasto a analogia de José e Maria e o aproximo mais de Moisés, que foi abandonado e encontrado por alguém. Levando em consideração que o Cairo continua em pauta, acho que essa pode ser uma referência importante. Kevin e Tom também continuam se encontrando em circunstâncias parecidas, já que o bebê foi achado num banheiro e Wayne também. A morte do homem me soa precipitada, mas sem dúvida há um plano para isso; talvez no pedido concedido à Kevin, que pode tanto ter algo a ver com o que ele quer mudar em si mesmo ou na recuperação de alguma espécie de lar; o que acabou acontecendo, indiretamente, no final.

De certa forma, o Season Finale acabou sendo uma espécie de conclusão emocional sobre a família Garvey. Laurie e Tom estão juntos no anseio pela compreensão; Kevin e Jill compartilham da inevitável inclinação para viver; e se esquecer ou fingir que esqueceu é parte desse processo, que  seja. Patti falou o tempo todo sobre escuridão; convidou Kevin a ser seu companheiro de viagens; mas, aquele sonho era muito mais uma reunião de conflitos do que qualquer outra coisa. No fundo, Kevin só quer refazer-se e isso é extremamente belo nele.

Precisamos dizer aqui que o trabalho de direção e texto de The Leftovers só confirmou sua qualidade. Isso sem falar nos atores, que poderiam, um por um, estar no palco de qualquer boa premiação. A série sempre foi contemplativa, mas nos ofereceu clímax, mortes e viradas incríveis em seu último episódio do ano. Tom Perrota esteve ali, reforçando seu universo (o final do livro apareceu muito), mas abrindo espaço para a ousadia de Damon, que nunca teve medo de fechar ciclos que pareceriam impossíveis de serem fechados.

Somos uma civilização tomada de prisões filosóficas. Estamos culturalmente atrelados aos conceitos que já foram estabelecidos. The Leftovers é tão fascinante justamente porque o arrebatamento derruba esses conceitos. Daí, incapazes de lidar com esse ajuste, os personagens se impedem de seguir em frente, porque a resposta mais compreensível no meio daquilo tudo é aquela que nasce da culpa. Foi isso que os flashbacks mostraram: que sempre houve culpa. E que de alguma forma aquelas pessoas se responsabilizam pelo que aconteceu. Por isso, o sono, a escuridão – vejam só – que tanto foi usada como metáfora para a supressão da memória, pode também acabar servindo para uma outra grande verdade: acordar é compreender de uma vez por todas, que se o passado não é acessível, isso não representa que não haverá futuro.

Mas ele é ele! Quem poderá fazer-lhe oposição? Ele faz o que quer.

Executa o seu decreto contra mim, e tem muitos outros planos semelhantes.

Por isso fico apavorado diante dele; pensar nisso me enche de medo.

Deus fez desmaiar o meu coração; o Todo-poderoso causou-me pavor.

Contudo, não fui silenciado pelas trevas, pelas densas trevas que cobrem o meu rosto”

– Jó 23

As Sobras: A trilha de The Leftovers é um pouco incisiva? É. Mas adoro cada momento. 

As Sobras 2: Meg precisará de mais desenvolvimento no ano que vem, espero. 

As Sobras 3: Justin Theroux, um Emmy pra você, seu lindo. 

Foi uma temporada simplesmente incrível e eu espero que para vocês também. Ano que vem nos encontramos por aqui e eu espero vê-los tão animados quanto eu. Foi um prazer e eu agradeço a cada um dos comentários que vocês enviaram. Até lá então… Se o Arrebatamento permitir.

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