… porque não podemos viver sem os motivos.
Recentemente dei de cara com um exemplar do livro de Tom Perrota numa prateleira da Saraiva Mega Store e achei bem irônico que ele não tivesse mais o mesmo nome de quando foi lançado pela primeira vez. Se antes ele se chamava “Os Deixados Pra Trás”, agora temos Kevin na capa, com o título da série (que era o título original do livro) e o chamativo definitivo para aqueles que correrão para as páginas em busca de respostas. Será uma decepção tremenda para a maioria, já que Os Deixados Para Trás foi lançado com uma perspectiva diferente do que vimos acontecer no lançamento de The Leftovers.
Quando ainda não era série, o livro foi vendido para a imprensa como uma forma de metáfora para os efeitos do 11 de Setembro. As pessoas desaparecidas de modo tão repentino haviam provocado reações de desajuste na sociedade; mas, essa leitura mais prática só pôde ser feita porque Perrota não tinha nenhuma intenção de abordar os mistérios em torno da Partida Repentina. Assim, foi somente na chegada de Damon Lindelof que alguns novos detalhes foram surgindo – com o aval de Tom – e que se iniciou uma exploração cautelosa, mas interessante do que o livro decidiu não aprofundar.
Isso explica porque interromperam as ações do presente nesse episódio nove, nos mostrando um pouco de um passado tão esperado, naquele que deveria ser um episódio filler simplesmente (naquela boa e velha estratégia de descolar pedaços de passado para adiar colisões narrativas), mas que acabou sendo uma das horas mais poderosas que tivemos o privilégio de assistir nesse ano. The Garveys At Their Best realizou um grande sonho de qualquer fã de The Leftovers: visitou o 13 de Outubro e nos deu o golpe fatal.
Já nos importamos com aqueles personagens muito mais do que imaginávamos.
E nesse dia 13 de Outubro, Kevin sai de casa para sua corridinha e fuma escondido da esposa. Aqui já tivemos o primeiro sinal de reversão, esse movimento sempre tão constante na série. Quando demos uma primeira olhadinha na rotina da família, o quadro de normalidade quase nos chocou. Foi bizarro ver Jill sorrindo e Laurie de cabelos penteados… ver aquela casa gigante, toda iluminada, solar, uma organização estabelecida e apenas ameaçada pelo que está escondido na relva. O lar dos Garveys tem rachaduras não só nas paredes.
O ótimo roteiro não perde o foco em momento algum… Quando colocamos o episódio em perspectiva, o clima é de suspensão constante. Tem alguma coisa espreitando nas sombras, aparecendo em pequenas doses, anunciando, sem que eles percebam, que alguma coisa muito ruim está para acontecer. As paredes da casa estão rachadas, a “caneca do herói” de Kevin está vazando e seu emprego é um arremate medíocre do que herdou do pai. Nem mesmo um veado arruaceiro Kevin consegue controlar. Veado esse que aparece, constantemente, como uma espécie de conector metafórico da cidade e do protagonista. A filha de Nora diz: “Talvez ele tenha perdido a família”, o que é exatamente o que acontece com Kevin e com a própria Nora (em perspectivas diferentes).
Nos outros personagens, as reversões e provocações continuam. Fui ao delírio quando Patti apareceu como paciente de Laurie. No diálogo entre as duas, vimos que Patti tinha uma espécie de personalidade absorvente, incapaz de ignorar qualquer coisa passível de afetação e que em sua forma de expressar-se, estabelecia uma conexão manipulativa com Laurie. Patti era uma maníaca depressiva totalmente articulada, invocando as mazelas da própria terapeuta com um ar mórbido, que tencionava aproximá-las pela pior tangente. Quando vem o 14 de Outubro os papeis se invertem justamente porque Patti já é uma veterana do sofrimento interior, e pode, por causa disso, conduzir personalidades omissas como a de Laurie, por essas veredas sombrias.
Em várias entrevistas que li sobre o 11 de Setembro, sobreviventes diziam que a véspera tinha sido como um dia qualquer, sem qualquer presságio de tormenta. A véspera da Partida Repentina – se avaliada fora do contexto – provavelmente também pareceria comum. A questão é que o texto da série cava conexões. Então estamos lá… com Nora dizendo para a futura prefeita que nas próximas semanas se dedicará ao emprego e “não terá família”. Naquele momento a personagem buscava autoafirmação, independência, identidade. E esse sentimento era o que a consumia quando o dia 14 chegou. Aquele dia em que ela realmente não teria mesmo uma família… só que pra sempre.
Também vimos Tom indo procurar o pai biológico, simplesmente porque “não consegue fingir que nada aconteceu”, sendo esse é o perfil dele e de todos que se juntam aos Remanescentes Culpados. Imediatamente Kevin lhe diz “ás vezes você tem que fingir”, o que já é uma exemplificação de como ele e Jill lidarão com a situação. Existem aqueles que não conseguem ignorar e existem os que se forçam a voltar para suas vidas. Na festa que acontece na noite do dia 13, na casa dos Garveys, o clima é de fingimento constante, de latência ostensiva, como se por trás do sorriso houvesse sempre uma possibilidade de torpor.
Então, o dia 14 começa e com ele, o roteiro do episódio segue naquele propósito (outra palavra constante nos textos) de nos revelar alguns motivos. Sim, porque decisões muito grandes precisam vir acompanhadas de um motivo e os fãs sempre cobraram que os personagens tivessem um. Lindelof não fez o arrogante e providenciou alguns.
Sendo assim, percebemos que mesmo que a família Garvey não tenha perdido um só membro, ela esteve diante dos eventos da Partida sob uma ótima aterradora: Kevin estava no meio de um ato de adultério quando sua amante desconhecida desapareceu embaixo dele; Jill e Tom davam as mãos num círculo onde cada um era uma fonte necessária para acender a luz do projeto; e Laurie… Laurie tinha um feto que possivelmente desapareceu de seu ventre no exato momento em que ela pensava “isso não deveria ter acontecido”.
Ou seja, numa montagem poderosa de cenas, num clima de tensão constante, onde todos nós já sabíamos o que estava para acontecer, The Leftovers alcançou seu apogeu dramatúrgico, tornando cada um daqueles minutos pré-arrebatamento, numa experiência televisiva simplesmente deslumbrante.
E enfim, o silêncio… Foi estratégico situar esse episódio aqui porque as cobranças por mais detalhes e pelo assentamento das justificativas já era muito grande. O senso de confusão causado pela série começou a fazer mais sentido justamente porque agora temos os motivos, os porquês, ainda que algo tão inimaginável como o 14 de Outubro, fosse afetar qualquer ser humano em proporções gigantescas; ainda que ele não estivesse no centro dos acontecimentos, como os Garveys estavam.
O que The Leftovers fez essa semana, porém, foi mais do que justificar as atitudes de seus personagens. Essa série conseguiu um feito raríssimo: nos levar junto com ela para as profundezas da manifestação humana do desespero… Aquele desespero tão imenso e tão definitivo, que emudece os gritos, trava os sentidos e apodrece a alma.
(…) Então, dois estarão no campo, um será tomado, e deixado o outro; duas estarão trabalhando num moinho, uma será tomada, e deixada a outra. Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso Senhor”
Mateus 24:37-42
As Sobras: Gladys, nossa fantasminha camarada.
As Sobras 2: Quem disse que íamos ficar um episódio sem o fogo? E dessa vez com direito a bueiro explodindo e tudo.
As Sobras 3: O balão agarrado no corpo do veado atropelado: “É uma menina”. Detalhe sinistramente conectado ao estado de Laurie nessas sequências finais.
As Sobras 4: E Liv Tyler? Tava de folga nessas filmagens?















