De volta para encerrar The Good Wife os Kings apresentam uma última hora cheia de ambíguas decisões.

Quando a cena abre no episódio piloto de The Good Wife, a câmera focaliza as mãos dadas de um casal que segue para uma coletiva de imprensa em que admissões de traição e renúncias serão feitas. O homem que fará tais admissões é o mesmo de sempre e no curso do que virá pelos próximos sete anos, ele não mudará. A mulher ao lado dele, no entanto, é um protótipo confuso do que já foi um dia. Alicia aparece apática, abatida, com uma expressão perdida e ainda aprisionada às obrigações de garantir que tudo na vida do marido seja limpo, inclusive um simples fiapo de pano em seu terno.

Quando a última sequência da série se abre, o mesmo casal caminha de mãos dadas para uma nova coletiva de imprensa. Dessa vez, não há traições a serem admitidas, mas há renúncia. A grande diferença, porém, está no que os repórteres não são capazes de saber no momento: A mulher ao lado de Peter Florrick está prestes a arriscar viver um novo amor, prestes a assumir uma campanha para um grande cargo do estado, é uma mulher forte, decidida, que fez vir à tona suas maiores ambiguidades morais. Aquela mulher não é mais uma vítima… Pelo contrário, ela faz vítimas.

Esse paralelo foi a base criativa do Series Finale do show, que depois de amargar sua temporada mais irregular, conseguiu ter seus criadores de volta para que um fim digno lhe fosse proporcionado. Os Kings chegaram numa casa completamente bagunçada e com o que se tinha de material disponível, muito pouca coisa poderia ser feita. Olhando por essa perspectiva, digo com certo alívio que apesar de algumas decisões estranhas, a série teve dignidade na hora de dizer adeus; e conduzida pelas mãos daqueles que a conceberam, mostrou como sempre teve muito potencial a oferecer.

A começar pelo caso, que ao cair nas mãos dos criadores acordou de um sono cheio de tédio e voltou a fazer daquele jeito que a gente mais gosta: a cada bloco, pelo menos duas viradas completamente inesperadas nos rumos das investigações. Insisto que pouco importava qual seria o destino de Peter (um personagem que conseguiu o feito de passar sete anos andando em círculos), mas esses últimos momentos do último julgamento foram divertidos. Testemunhas estranhas, juiz estranho, detalhes surgindo completamente do nada e fazendo todo sentido. E ainda com aquele que foi, sem dúvida, o grande momento catártico do episódio: assistir Diane vendo seu casamento provavelmente lhe escorrer pelos dedos.

De fato, está na reação de Diane ao encontrar Alicia depois disso, o que considero o grande problema dessa finale. Até o momento em que as duas brigam, a coisa segue de modo perfeito. É irônico e eficaz que no meio daquela briga estejam duas boas esposas, lutando pela honra de seus maridos. Mesmo que no final do segundo tempo da partida, os Kings encontraram uma forma de correlacionar Alicia e Diane (frenemies em potencial) numa mesma sintonia. A beleza da coisa toda, inclusive, estava em ver Diane sendo esmagada pelos argumentos que ela mesma ensinou Alicia a defender, numa clara alusão à forma hipócrita com a qual Miss Lockhart e Will sempre julgaram os interesses alheios. Foi um belo “faça o que eu digo e não o que eu faço”.

Contudo, quando chegamos até aquele corredor e o tapa que Alicia deu em Peter no piloto, se transforma no tapa que Alicia sofre de Diane, as coisas ficam confusas para mim. Aprovo o gesto dramático, embora duvide que ele fosse acontecer se analisarmos as personagens friamente. Porém, é um final e um final pede gestos dramáticos. O problema é colocar em perspectiva que Alicia ganhe o tapa que deu. Lá no piloto ela está agredindo o marido por tudo que teve que engolir dele. Aqui na finale, ela sofre uma agressão por ter vitimizado outra pessoa. Para uma série que tentou representar empoderamento feminino e independência, me soa ligeiramente esquisito que a última sequência tenha correlacionado Alicia e Peter. Quando ela leva aquele tapa, está sendo julgada por sua implacabilidade. E ao colocá-lo no quadro geral, a personagem acaba soando o resultado negativo de um amadurecimento. Ela perdeu fronteiras morais a ponto de arruinar a relação de uma amiga/colega de trabalho, apenas para alcançar seu objetivo. Alicia nunca foi boazinha e sempre gostamos disso, mas ao correlacionar o tapa que ela dá em Peter com o que ela leva de Diane, o roteiro está nos dizendo que Alicia, de alguma forma, transformou-se no marido. Se sim, de que forma isso pode ser positivo para o discurso feminista do show?

Ao menos não tivemos a cena que me assombrava: Alicia correndo para os braços de Jason numa cena de aeroporto. Os Kings não podiam fazer e eles não fizeram. Usaram Will como uma forma de emocionar a audiência, de trazer o público para perto de novo, fazendo a protagonista ponderar sobre qual seria a melhor decisão. Em dado momento Alicia diz: “Jason it’s not you”, resumindo o sentimento geral de que aquela relação encomendada às pressas sempre soou deslocada e desajeitada. De certa forma, também há muitos significados importantes no instante em que ela resolve não pegar de volta a mão do marido e correr atrás de Jason. Enquanto ela faz isso ao som de Better, da Regina Spektor, temos um sinal discreto de que ela poderia ser melhor que o ex-marido em tudo, ser melhor que qualquer outro advogado… Mas, aí voltamos às mensagens contraditórias do finale: Quando ela chega ao corredor e encontra o julgamento de Diane, o roteiro parece voltar atrás e dizer: “não, ela não é tão melhor assim”. Tal qual Peter, ela se recompõe – ela sobrevive sempre – e passa por cima dos próprios “pecados” para manter sua austeridade. Ela e Peter próximos de um conceito de amoralidade que lhes aproxima. Qual é a intenção aqui? Uma Alicia feliz por dar um grito de liberdade ou uma Alicia infeliz, estapeada por um movimento grave de traição, recompondo-se friamente e dançando as regras sombrias do poder? São mensagens confusas, muito confusas e conflitantes.

Nem vamos mencionar que depois de trezentas campanhas para milhões de coisas, a série perdeu uma chance de ouro de mostrar Alicia realmente a frente de um cargo público importante. O sétimo ano teria sido provavelmente mais original. Com o casamento podendo ser encerrado, Peter sem cadeia e os filhos na faculdade, a protagonista poderia arriscar mais não só na vida pessoal, mas na profissional também. Quando vemos os Kings fugindo de grandes sentimentalidades nesse final, somos levados a especular que se eles não tivessem afrouxado o cabresto, talvez o show se preocupasse menos com o homem com qual Alicia fosse ficar e mais no que Alicia fosse fazer. Perder possibilidades em uma dramaturgia como essa é sempre dolorido… Já é difícil se despedir de uma série, mais ainda quando ela deixa pelo caminho os rastros do que poderia ser e não foi. Para nossa sorte esse “não foi” foi só aqui nesse último ano.

Obviamente que uma última temporada ruim não seria suficiente para apagar de vez toda a importância que The Good Wife teve para a televisão americana. Essa sempre foi uma série de TV aberta feita com a qualidade e elegância de uma série de TV fechada. Alicia era uma protagonista poderosa, complexa e cercada de coadjuvantes que nos bons tempos, tornaram a experiência do show irrepreensível. O texto era impecável, a fórmula nascida da obviedade do procedural, mas longe de ser previsível. Inteligência, sagacidade e humor refinado sempre foram as bases mais importantes desse programa e por isso é claro que não pude deixar de sentir um nó na garganta quando a tela apagou pela última vez e a voz da Julianna Margulies não entrou para nos recomendar que ficássemos ligados para cenas do próximo episódio.

Aliás, Julianna Margulies merece toda a reverência e respeito do mundo por esse papel. Não há nesse elenco um só nome que tenha se equivocado. Mas, há nomes que defenderam personagens especiais para o meu coração e que não podem sair dessa review sem serem mencionados. Carrie Preston, que foi disparada a melhor advogada convidada do show… Sarah Steele, que fez com que Marissa roubasse TODAS as cenas em que aparecia… Stockard Channing, que aterrorizava o conservadorismo dos FlorrickMakenzie Vega, que fez Grace renascer e é claro, Ana Gasteyer, que fez a juíza mais relevante de toda a série, in my opinion.

Terminamos essa obra de arte com sabores agridoces, em grande parte provocados por aquela velha história do produto exausto de si mesmo, vítima de negligencia artística. Mas, nenhum engano no caminho vai tirar de The Good Wife o seu lugar de excelência. Essa é uma série de primeira grandeza, uma jornada de intelectualidade que poucas vezes se viu na TV. Sim, porque ao ser lembrada por provocar riso, emoção, indignação, catarse, ela o será porque foi inteligente. Inteligente como nenhuma antes dela e como nenhuma que virá depois.

Last Objections: Lucca se resumiu a um cupido nos últimos episódios e Eli foi assustadoramente figurativo nessa finale. Ao lado de Cary e Lee, eles fulguram como as negligências mais sentidas. 

Last Objections 2: Terminamos sem saber onde estava Robyn. 

Last Objections 3: No Kalinda na finale. 

Last Objections 4: A morte se torna um conceito cada vez mais frágil no mundo das séries… Mas, Will ao menos foi colocado de volta no contexto certinho. 

The Big Last Objection: Comecei a ser reviewer de The Good Wife muito tempo depois dela ter começado, mas sempre foi um prazer ver e escrever sobre ela. Quero deixar meus cumprimentos aos reviewers que vieram antes de mim e deixar também um beijo para todos vocês que estiveram aqui comigo nessas semanas. É mais uma que vai, mas que deixa um legado que sempre poderá ser mil vezes revisto. Até a próxima gente, e obrigado!

Artigo anterior3ª temporada de Penny Dreadful chega ao Brasil com exclusividade pela HBO
Próximo artigoAudiência USA – 06/05/16: Sexta