Um poderoso season finale, que joga as expectativas para a segunda temporada em outro universo.

The Flash chegou ao final de sua primeira temporada e depois de uma estrada abarrotada de vilões e participações especiais, o último episódio do primeiro ano valorizou os residentes da casa, em uma sucessão de momentos dramáticos e de despedida. Foi um pouco excessivo em alguns momentos, preciso confessar as vezes pensei estar encarando o final de mais uma novela das sete, mas por sorte ninguém engravidou e ainda teve casamento. E para quem esperava um grande embate entre Reverso e Flash, lembrem-se do que Eobard disse e conformem-se: “Nenhum de nós nunca será forte o suficiente para derrotar o outro”. E com isso, abro minhas considerações a respeito do último episódio da primeira temporada do Corredor Escarlate.

Mexer com outros universos, realidades alternativas, linhas temporais, é sempre algo complexo. E se você não tem uma equipe de roteiristas como a de Fringe, por exemplo, fica extramente complicado lidar com tais aspectos sem levantar inúmeras perguntas. Brincar com o multiverso em um “universo” compartilhado é sim muito interessante. É a possibilidade de vermos, por exemplo, aqueles detalhes que o Barry conseguiu visualizar durante sua corrida pela ‘Força da Velocidade’, como a Caitlin em sua versão Nevasca, Barry e não o seu pai, preso, o museu do Flash, tudo em uma montagem que se diverte, mostrando passado, futuro e a possível linha alternativa do herói. Também poderia ser a maneira de juntarem Supergirl ao mundo de Arrow, Flash e Lendas do Amanhã, sem que houvesse a obrigação de explicar Clark Kent, alienígenas e outros pontos que fazem toda a diferença e que a série não abordou, ainda. Kara é de outro universo, por isso nunca ouvimos falar do Superman. Que tal? E é possível, o capacete com as asas na lateral é a prova de que é.

Contudo, é perigoso e quando levamos em consideração os deslizes cometidos em ambas as séries, que deixaram a própria cronologia dos eventos de Central City e Starling um pouco caóticos, tente imaginar quando tentarem lidar com um mergulho dentro de linhas paralelas? Tudo bem, parte da culpa é da CW/Warner, que demonstrou um controle bem solto de suas obras, é só ver Supergirl que competirá com Gotham, duas séries da “casa” que estão em casas diferentes. Da mesma forma funcionou a exibição dos episódios, que poderia ter respondido muitas dúvidas se a CW tivesse pensado um pouco mais antes de escolher as pausas das séries. Para mim, foi sacrificada a coesão de Arrow para que o season finale de Flash não precisasse impor o peso de seus acontecimentos à cidade de Starling. Algo que já evidencia uma preocupação para quando as três séries estiverem sendo exibidas ao mesmo tempo. Quem pagará o pato?

Então, existem características dos quadrinhos que funcionam perfeitamente em uma HQ, com suas vinte páginas e que pode, por exemplo, se dar ao luxo de explicar o fato de ninguém reconhecer o Superman/Clark Kent, porque seu óculos feito com kryptonita “altera” a maneira como as pessoas o veem. Em The Flash, os detalhes que deveriam passar despercebido acabam se tornando deslizes. Coisas menores, com pouca (ou nenhuma) importância para o desenvolvimento da trama, mas que sempre aparecem nos comentários e fóruns de discussão: “Quem financia o laboratório S.T.A.R.?”, “Como os meta vão ao banheiro, ou tomam banho?”, “Como se alimentam?”. Detalhes que para alguns fazem toda a diferença, e talvez seja por isso que a CW liberou um vídeo com Caitlin e Cisco carregando pacotes e mais pacotes de comida, mas que de verdade, não pesam nem um pouco quando pensamos que a série não tem tempo, ou a obrigação de mostrar tais minúcias.

Fast Enough foi extremamente competente em se favorecer da maior força da série, que é lidar muito bem com a transposição de uma história em quadrinhos para a televisão. A força, contudo, também é parte da fraqueza, já que em determinados momentos, algo que funcionaria muito bem nas páginas, não retém o mesmo interesse na telinha. The Flash se beneficiou do que eu gosto de chamar de: Clímax não aproveitado. Foi assim durante toda a primeira temporada, cenas que poderiam chegar a excelência se contentaram com o quase. Como season finale, as conclusões existiram, mas terminar com um parêntese gigantesco flutuando e sugando Central City foi um pouco de covardia para com nós, telespectadores. Passamos vinte e três episódios esperando por um momento que só terá sua conclusão final em setembro/outubro. É justo? Não. Porém, faz exatamente aquilo que a série quer, nos capturar para mais um ano e lançar a trama de sua mais nova derivada.

Porém, acho injusto da parte dos redatores nos conduzirem por trinta minutos em que o drama e as despedidas são o ponto central do episódio. Barry e Joe, Barry e a equipe, Barry e Iris, Barry e seu pai, Barry e sua mãe. Não é um problema, longe disso, mas se queriam fazer algo épico, porque não limitaram um pouco as despedidas que não serviram para muita coisa? Por que não aproveitar o gancho do episódio passado e incluir todos os diálogos sem repetir aquilo que já estamos cansados de saber? The Flash é uma série de “minutos finais”. Contudo, de todas as formas possíveis de dizer adeus, a de Barry e sua mãe foi a que mais demonstrou o quão avançado o Flash está no seu caminho de herói. Ter o poder e não utilizá-lo sempre, é o que faz do vigilante uma lenda.

Lembro que no começo da série eu elogiava e muito todas as decisões de acelerar a origem do Barry, para nos entregar um Flash completo. 23 episódios depois, estamos vivenciando a conclusão de uma temporada de origem para a segunda melhor série baseada em uma história em quadrinhos do ano, a primeira é Demolidor (sorry, I’m not sorry). Mas só a coloco neste patamar por não considerar Agents of S.H.I.E.L.D. como uma série baseada, mas sim ambientada, existe uma diferença que importa aí. Flash possuiu um saldo para lá de positivo, onde os pontos mais fortes sobrepõem com facilidade os problemas, e sim, estou falando da Iris.

Eddie precisar morrer para que existisse uma “libertação” da personagem, a mais complexa (pelos motivos errados) da série, não foi inteligente. Criou mais um ponto para discussão, envolvendo a criação de mais uma linha temporal, ou apenas um novo erro de continuidade. Mas ainda quero esperar pela segunda temporada antes de voltar nesta discussão, principalmente quando o ator que interpreta o Wells já está confirmado para o próximo ano. O que importa (ou não deveria importar) é o fato de a série sentir a necessidade de riscar um personagem para desenvolver a importância de outra. E não venham me dizer que apagar o Reverso era necessário, nem sempre o vilão precisa morrer para desaparecer da vida do herói e abrir as portas para novos antagonistas. Reverso é tão necessário para o futuro do Flash quanto seu próprio pai. Contudo, ao se banhar na mitologia do personagem e utilizar os pontos mais marcantes dos quadrinhos, existem chances de ter o retorno do vilão e quem sabe, Flashpoint Paradox (que se você não assistiu ainda, precisa correr rápido o suficiente para ver o que The Flash ainda poderá se tornar).

Ainda é cedo para pedir por uma linha paralela, visita ao futuro, ou multiverso, que nada mais é do que o mesmo mundo em que vivemos, mas com suas diferenças causadas por diversas singularidades e coincidências misteriosas, que nenhum cientista explica, mas que poderiam ser facilmente explicadas pelo efeito borboleta. Ouviu Dr. Stein? Com a chegada de Lendas do Amanhã também foi possível ver praticamente todos os personagens do spin-off, e imagino que o tal buraco que tudo suga será o responsável por trazer o vilão que a equipe deverá impedir. Foi mais um dos pontos que fez com que o season finale fosse tão boa, a preocupação com os detalhes, sem a necessidade de explorar tudo com tão pouco tempo nas mãos. Seria legal ver o desenrolar da última ameaça até o final? Sim, sem sombra de dúvidas. Contudo, os redatores decidiram abrir as portas para os próximos personagens no decorrer do episódio e não no seu final, como já estamos acostumados. Então, fechar com uma surpresa é válido, também. Cisco é um meta-humano, Caitin está casada, Eddie morreu e Iris agora poderá chorar suas pitangas sem medo de ser injustificada. O futuro de The Flash se abriu e as possibilidades são imensas. Fica tudo melhor com a confirmação de que teremos apenas um grande evento crossover anual, motivo para comemorar. Doa a quem doer, The Flash fez uma ótima primeira temporada.

Easter Eggs e outras informações

– A palavra dita por Martin Stein “Excelsior” é a favorita e praticamente patenteada por Stan Lee, da Marvel.

– Muitas referências a respeito de filmes, na sua maioria, cortesia de Cisco Ramon: De volta para o futuro (da trilogia de Marty McFly), Até mais, e obrigado pelos peixes (Guia do Mochileiro das Galáxias), Run Barry Run (Forest Gump),

– O relógio conta regressivamente 1 minuto e 52 segundos, como sempre o 52 representando os ‘Novos 52’, da DC Comics.

– Finalmente a possível transformação do Cisco em Vibro teve um inicio. Nos quadrinhos Cisco tem o poder de controlar vibrações, o da série pode vê-las.

– A Speed Force é nos quadrinhos a força que alimenta a energia do Barry e ao mesmo tempo lhe permite viajar por entre universos e o próprio tempo.

– Esfera do Tempo que o Eobard diz ser capaz de criar inveja no Rip Hunter é uma criação do cientista nos quadrinhos. Rip também estará em Lendas do Amanhã.

– O capacete que aparece sendo regurgitado pelo buraco de minhoca pertence a Jay Garrick, um dos Flash  existentes e que já teve o nome exibido nos primeiros episódios da série.

– Em Crise das Terras infinitas o Flash tem um final bem parecido ao do Eobard.

– Já em Zero Hour: A Crisis in Time, a terra está sendo consumida por uma singularidade, resultado das distorções da linha do tempo.

– Toda a trama do último episódio é, de uma maneira solta, baseada em Flashpoint Paradox.

– A Hawkgirl fez uma pontinha no episódio.

– Estamos acompanhando uma realidade paralela, o que se tornou uma maneira da série dizer: Podemos fazer algumas coisas iguais aos quadrinhos e outras completamente diferentes, o choro é livre.

– Até mais, e obrigado por todos os peixes!

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