Não há realidade na televisão”
Se a primeira impressão é a que fica, consigo entender porque ‘The Comeback’ é tão desprezada pelos fãs de seriados no Brasil. Para princípio de conversa, o piloto foi um verdadeiro banho de água fria em quem esperava ver Lisa Kudrow em uma comédia que lembrasse o grande sucesso que sua Phoebe fez em ‘Friends’. Aliás, basta comparar os trabalhos televisivos que se seguiram depois do show, principalmente os de Courteney Cox e Matthew Perry, para perceber que Lisa foi a que mais tentou se desvencilhar do gênero que a consagrou.
Pelo menos à sua maneira tradicional. Não estou dizendo que ‘The Comeback’ não seja engraçada. É. Porém trata-se de um tipo de humor que brinca mais com a sutileza, a psiquê das personagens e sim, exige um pouco mais de atenção do seu público para que algumas piadas tenham efeito. Esqueça as risadas de fundo, esqueça as câmeras apoiadas em um tripé, esqueça Phoebe Buffay. Valerie Cherish, a protagonista, é uma criação nova. Pode até ser que em alguns momentos os fãs se lembrem da Friend, mas essa não é a proposta. Basta deixar a má vontade de lado e olhar com atenção para perceber que Valerie tem pouco de Phoebe e é exatamente isso que a torna tão especial.
Para o caso de haver algum leitor que nunca assistiu a série e clicou nesta review apenas por curiosidade, vou explicar do que se trata. Valerie Cherish é uma atriz que fez muito sucesso em uma sitcom chamada “I’m It”, mas que anos após o cancelamento da série, acabou caindo no ostracismo. Sua chance de virar o jogo começa quando é convidada a participar de um reality show também chamado ‘The Comeback’. Este programa, acompanha a trajetória da atriz durante as gravações de ‘Room and Bored’, uma série dentro da série. Assim, podemos acompanhar como funciona o esquema de produção de uma série nos Estados Unidos em todas as suas etapas, desde a gravação do piloto, a encomenda de episódios adicionais, a estreia e até mesmo o cancelamento. No set de filmagem, Valerie se envolve em diversas situações e, enquanto é amada pelos jovens e sarados atores e atrizes do elenco, é odiada por Paulie G, um dos roteiristas, que convive com a atriz na série a seu contragosto.
O que vemos em ‘The Comeback’ é exatamente a fase de gravações do reality show estrelado por Valerie. Eis aí o grande diferencial da série. O trabalho de Lisa Kudrow, que é construído sobre três vertentes:
1- A Valerie que está falando com as câmeras. Esse é o momento em que a personagem tenta moldar diretamente a opinião do público e faz isso criando um outro personagem. É a projeção do que ela quer que as pessoas pensem que ela é. Note as mudanças na postura e no tom de voz. Ela aparece tanto quando está posicionada em fundo azul, gravando aqueles depoimentos que aparecem nos realities, como quando passa por uma situação de confronto, em que é desmerecida ou confrontada;
2- A Valerie que fala com outras pessoas. No trato à terceiros, ela está sempre preocupada em dizer as coisas certas porque sabe que as câmeras estão bem ali, registrando todas as suas ações.
3- A Valerie que realmente é. Essa a gente vê, basicamente, quando ela interage com pessoas do seu convívio, como o marido Mark e o fiel escudeiro Mickey. Isso acontece simplesmente porque eles são pessoas que estão sempre lhe dizendo coisas positivas.
Lisa Kudrow transita entre essas três personalidades o tempo todo e é assim que surgem certas sutilezas. Sua composição consegue transmitir de forma clara, através de uma brincadeira constante de olhares e expressões, em que é possível entender tudo o que se passa na cabeça da personagem. É necessário perceber esse trabalho autoral para “sacar” o lance. Precisamos ressaltar ainda a sorte que Valerie Cherish tem de ser interpretada por uma atriz amada como Lisa Kudrow. Isso porque a personagem foi construída com inúmeras características que podem causar um efeito de repulsa na audiência, claudicando o tempo todo entre os ataques de estrelismo e as tentativas frustradas de recuperar o lugar ao sol perdido. Valerie é por vezes arrogante, vive em momentos de inconsciência da realidade de sua carreira e se apega em momentos de glória do passado para mostrar que ainda tem relevância. Se não fosse o carisma de Lisa, seria impossível se penalizar com todas as dificuldades e humilhações que Valerie enfrenta em seu caminho de retorno ao estrelato. O público poderia até acabar sentindo o efeito inverso e torcer para a protagonista se dar mal. Porém, as tentativas frustradas da protagonista de ser notada como se ainda estivesse em seu auge, fazem com que a gente torça para o momento em que ela vire o jogo – o que acontece a partir do S01E08, depois que Valerie recebe conselhos em uma viagem a Palm Springs.
Se fosse um gráfico, a trajetória da primeira temporada de ‘The Comeback’ seria eficientemente representada por uma linha ascendente. Eis o problema da primeira impressão ser a que fica – para alguns. É comum ouvir pessoas que não passaram do piloto ou que foram desistindo ainda nos primeiros episódios. Quem insistiu, acabou presenciando a construção sólida de uma mensagem, a de que “não há realidade na TV”, mas lembre-se que estamos falando de 2005, época em que os reality shows ainda estavam em seu auge. Esse recado é dado no homérico season finale, quando somos apresentados à “4ª Valerie” – aquela construída sob o poder do deus dos programas de realidade: o editor.
Depois de passar 12 episódios torcendo para Valerie se dar bem, compadecidos com a busca incansável da personagem pela fama perdida, esquecemos o que é mais importante em um reality show, justamente a edição. E a Valerie que o diretor nos apresenta é completamente diferente daquela que imaginamos conhecer. O season finale brinca com a expectativa de saber se o programa da Red fará sucesso, faz uma ruptura com o aparecimento da “4ª Valerie”, e depois é compensada com o sucesso de Valerie Cherish na gravação de um novo “Clássico Leno” – no The Tonight Show with Jay Leno.
Eis então que a segunda temporada de “The Comeback”, a série, nada mais é do que uma questão de justiça. Não há sob a face da terra – generalismos são absurdos, mas as vezes são reais – alguém que não tenha odiado aquele cancelamento. Isso aconteceu porque a produção se despediu mostrando seu melhor, no auge tão buscado por Valerie Cherish. É por isso que, para quem passou do piloto e dos episódios iniciais, o fato de a primeira impressão ser a que fica, se torna algo certamente positivo. A trajetória é recompensada.
Por isso, as expectativas estão elevadas para esse segundo ano. Valerie está novamente buscando um comeback e agora por conta própria. Isso lhe confere a vantagem de ter poder sobre a edição e a personagem garante ter aprendido a lição. Enquanto na primeira temporada havia uma equipe profissional de TV a seguindo, agora temos um time de jovens alunos de cursos de cinema e um sobrinho de Mark que estuda Planejamento Urbano – afinal, hoje em dia todo mundo sabe manipular uma câmera. E a mudança nesse profissionalismo é facilmente percebida neste season premiere, através de cenas que ressaltam o amadorismo desse novo trabalho.
Entram então as participações especiais. Do produtor dos 400 “The Real Housewives”, Andy Cohen, para quem Valerie pretende vender o piloto depois de ter recebido um “Thank you, Val” no Twitter; de Ru Paul, que dispensa apresentações; e Lisa Vanderpump, uma das protagonistas de “The Real Housewives of Beverly Hills”.
Valerie descobre que Paulie G. criou uma nova série para a HBO, chamada “Seeing Red”, que é claramente inspirada nos bastidores de “Room and Bored”, tendo como protagonista Mallory Church. Quando encontra Andy Cohen e Ru Paul em um restaurante e conta que foi “socada” pelo recepcionista, Cohen a questiona sobre ter “feito uma cena”. Ela não fez, mas quer mostrar que aprendeu a lição. Por isso, vai até a sede da HBO, tentando armar um escândalo e impedir que a produção de ‘Seeing Red’ vá a frente. Ela chega bem no momento em que estão fazendo audições para o papel de Mallory, fica frente a frente com seu arquirrival Paulie G. e descobre que havia sido cogitada para protagonizar a nova série, uma dramédia (uma comédia sem as risadas). Valerie aceita fazer um teste para o papel e acaba sendo selecionada, mas isso também me faz questionar se ela de fato aprendeu a lição deixada pela temporada anterior.
Assim, as cartas foram apresentadas. Há que se destacar ainda o retorno de todos os atores que estiveram no primeiro ano da série. Esperanza, Mark, Mickey, Paulie G., Juna, Billy, Shanon… Sharon, enfim, só demonstra que o carinho sentido pelos fãs também é compartilhado pela equipe que participou do trabalho. Estou muito feliz por essa reparação da HBO. ‘The Comeback’ is finalmente back.















