Supergirl e Flash salvam o dia no crossover mais lindo, emocionante e clichê já visto em uma série de super-heróis.

Quando Greg Berlanti, Melissa Benoist e Grant Gustin participaram de um ensaio para a revista Variety em 2015, muito se comentou a respeito do tão sonhado crossover entre Supergirl e The Flash. Era então apenas uma questão de tempo até que a garota de aço e o corredor escarlate finalmente se encontrassem em alguma aventura eletrizante. Através de um episódio leve, divertido, cheio de momentos fofos e clichês (alguns até cafona), a equipe da série entregou o melhor crossover que já existiu em uma produção do gênero desde que a transposição de páginas para o live action começou na TV. Uma verdadeira homenagem ao material clássico, retratando um período em que a alegria era a principal arma de um escritor da nona arte, mas não o seu único recurso. E mesmo com alguns pequenos tropeços o resultado final deixou uma vontade gigantesca de quero mais, além de também desafiar a nova massa de telespectadores que atualmente acompanha alguma revista obscura e depressiva, a respeitar também o que veio antes.

Porém esses mesmos leitores se esquecem de que existe um mundo fora da abordagem sombria de um Dark Knight da vida. Inicialmente as histórias em quadrinhos adotavam um tom bem mais ameno, divertido, simples e com apenas uma missão: divertir. Demorou um bom tempo para que outras abordagens surgissem e começasse a imersão em cima da proposta sisuda e carrancuda que muitos hoje idolatram. O problema é que para desenvolver uma história sombria e cheia de introspecção é preciso, muitas vezes, mudar a própria identidade do personagem que nasceu durante a época do desenho em papel, da Era de ouro, do diálogo “cafona” e dos grandes discursos de heroísmo, bondade e coragem. Obviamente sempre existirão as mais diversas releituras, tudo depende do período em que o público está e o que a equipe produtora decide como viável. Mas o coração, o núcleo de uma história em quadrinhos, ou mesmo de um filme, é o despertar um sentimento de vitória, de alegria, mesmo que o trajeto seja basicamente de lágrimas. Mesmo não adotando o calvário como processo de criação, Flash e Supergirl fizeram questão de deixar bem claro que a meta é a satisfação do telespectador.

A trama do episódio foi a mais simples possível. Existiu pouca preocupação em situar o novo telespectador ao universo do Flash e é exatamente o tipo de tratamento que a série deveria ter feito e realmente fez. A produção aqui é da Supergirl, todo o foco deverá sempre permanecer na dona do nome que acompanha toda cena de abertura. Barry surgiu apenas como um complemento para a história, um desvio necessário para atingir o objetivo de criar quarenta minutos divertidos e descompromissados. Contudo ao não negar a progressão narrativa de sua personagem principal o roteiro de Berlanti e Caitlin Parrish trabalhou perfeitamente a inclusão de um personagem com presença marcante em um mundo que não parou para saudá-lo, mas continuou organicamente desenvolvendo as consequências de sua história. Não existiu aquele clichê de que todo herói que encontra o outro pela primeira vez precisa de algum tipo de confronto físico ou de ideais. Não aqui. Estes protagonistas já amadureceram o suficiente.

Todas as interações entre Kara e Barry foram centralizadas em desenvolver dois heróis que confiam na bondade do ser humano. Nada de dramas. A química perfeita entre Benoist e Gustin conferiu um ótimo e agradável tom para a série. E foi gostoso de ver. Da alegria da Kara ao receber um sorvete, para as interações entre Barry e Cat, tudo progrediu com uma naturalidade assustadora. Era como se eu estivesse acompanhando uma produção estrelada por aquela dupla desde sempre e não apenas um encontro feito para um episódio. É fenomenal como atriz e ator conseguem semanalmente transferir as emoções necessárias para a criação de seus personagens. Também vou expandir esse elogio para Winn, Jeremy Jordan. Deram uma situação bem complicada para o Schott Jr. ao colocá-lo para viver um romance com a futura vilã da série, mas ao mesmo tempo não o estragaram e lidaram muito bem com as consequências de sua confissão feita lá no começo da temporada. É muito bom ver o texto valorizando suas crias e optando por construir histórias que ajudam no segmento da trama e na compreensão daqueles personagens como pessoas facilmente relacionáveis.

Já do lado que não desceu muito bem ficaram as duas vilãs, Banshee Prateada e Curto-Circuito – além da desculpa horrenda para a maquiagem da “Shivon”. Claro que a própria proposta do episódio não era a de dar algum tipo de crescimento para as duas, mas sim utilizá-las como pano de fundo para a presença do Flash em National City. Então o básico, após compreender que tudo girou ao redor da imagem heroica da Supergirl, é entender que a abordagem funcionou sem muito floreio, mas sim com o objetivo principal de entreter. E divertiu muito. Para complementar tal “queda” também tivemos James. Eu nunca tive um problema com o ator ou o personagem, na verdade a história dele não me irrita, ou agrada, simplesmente existe. Ter um beijo entre ele e Kara foi uma boa maneira de impulsionar a complexidade pessoal daquele “casal” e também começar a trabalhar o final da temporada, mas entendo que desviar o foco para o ciúmes, ou criar esse tipo de tensão tão perto do último episódio é um pouco irritante. Valeu por ver o personagem sofrendo um pouco e só.

Quem conseguiu um pequeno espaço para mostrar uma coloração diferente foi Lucy Lane. Eu havia comentado que uma das melhores coisas que a série fez para a personagem foi retirá-la do núcleo CatCo e inseri-la dentro do DEO. Através de apenas uma pequena fala a nova diretora resgatou exatamente o clima de empoderamento feminino que estava faltando em seu desenvolvimento dentro dos primeiros episódios. Lucy assumiu sua impulsividade, finalizou o relacionamento com James de maneira limpa, sem a necessidade de mais drama, e também riscou da cartilha de Supergirl a necessidade de ter duas mulheres brigando por causa de um homem. Se continuarem a pintar a mais nova do clã Lane através dessa ótica, eu não vejo motivos para querer a volta de Hank e Alex para o departamento de operações extraterrestres tão cedo.

O que o episódio fez de melhor vai além de apenas um encontro com outro herói querido e que lidera um seriado com clima parecido. Worlds Finest continua o trabalho desenvolvido desde o episódio piloto da série da Supergirl: o de construir a personagem central e delimitar quem ela vai se tornar no futuro. Mesmo que algumas passagens tenham forçado um pouco o lado emocional, como por exemplo o momento em que a população decide se colocar na frente da sua protetora, ainda vejo a composição geral deste episódio como um ponto favorável para o novo amanhecer das séries de super-heróis da DC Comics. Vamos deixar o ar noturno e carrancudo para o cinema. Já vimos que não é o que eles querem – não encaixa mais nem naquela que começou a onda do “sou sério e com cara de bravo” a.k.a. Arrow. Vamos aproveitar a presença de heróis com um humor leve, com elenco simpático e realmente desenvolver uma pegada mais heroica e divertida. O mercado permite essa divisão. No fim eu só tenho apenas uma requisição: próxima vez faça um episódio duplo, por favor, CBS, nunca te pedi nada. Mas primeiro a renovação, tá?

Easter eggs e outras informações

– “Vocês parecem um cast racialmente diverso e não ameaçador de uma série da CW”. Nem mesmo a quarta parede está a salvo de Cat Grant.

– “The Flash parece com alguém cujo superpoder é saltar de um beco escuro usando apenas um casaco”.

– Kara ganhando sorvete. Tem coisa mais fofa? Na verdade, tem coisa mais fofa do que Kara e Barry juntos? Pode ter crossover anual de Flash e Supergirl igual tem com Arrow? Podemos cancelar Arrow e levar Supergirl para a CW? Sim? Sim? Sim?

– “Vamos nos afastar da senhora legal e acertar esse assunto como mulheres”. Eu ri tanto que precisei pausar o episódio.

– O título do episódio, Worlds Finest, é também o nome de uma revista estrelada pela Supergirl da Terra-2, a Poderosa, e Helena Wayne, a Caçadora. Claro que o nome recebeu uma pequena mudança para englobar a presença de mais de um mundo e passou de World’s para Worlds.

– World’s Finest Comics foi o nome de uma revista estrelada pelo Batman e pelo Superman.

– Quem assistiu Smallville lembra de um Dr. Emil Hamilton, não é? Em Supergirl nós conhecemos a Doutora Hamilton.

– Existem duas versões da Banshee Prateada nos quadrinhos. A primeira foi a que surgiu em 1987, na revista Action Comics #595, e atende pelo nome de Siobhan McDougal. Em sua primeira abordagem a Banshee apresenta a mesma feição da utilizada na série e também é má. Já na criação para os Novos 52, Supergirl 6 (2012), Siobhan Smythe age como uma amiga para a Kara e tem a capacidade de compreender qualquer língua falada, até mesmo o kryptoniano.

– Este foi o primeiro episódio em que o nome “meta-humano” foi usado. O termo faz parte de Arrow e Flash e é utilizado para representar seres humanos com poderes “estranhos”. Em Supergirl, até então, só havíamos conhecido Curto-Circuito como uma humana que recebeu poderes através de um fenômeno diferente. Siobhan é a primeira que retira de sua conexão genética a habilidade supersônica.

– Barry foi uma metralhadora de referências e fez questão de nomear todos os heróis existentes no seu universo, como: Arqueiro Verde, Átomo, Canário Negro, Nuclear, além de uma perguntinha a respeito do Zoom.

– Também existiram algumas brincadeiras com os nomes do Flash. A Supergirl o chama de Corredor Escarlate e a Cat faz questão de tentar vender a marca “the blur”. O borrão é uma referência a Smallville, em que durante muitos anos o personagem principal foi chamado como “the blur”. Flash também foi chamado de Speedy, que é a alcunha da irmã do Arqueiro Verde em Arrow.

– O conceito do Multiverso também foi explicado da mesma maneira que em The Flash, com o desenho de vários círculos.

– Você sabia que no evento ‘Crise nas Infinitas Terras” tanto o Flash quanto a Supergirl morreram?

– Também existe um laboratório S.T.A.R. sem Cisco, Caitlin ou Harrison Wells, ele pode ser visto em Batman V Superman: Origem da Justiça.

– Todo o episódio foi uma homenagem ao Superman #199. Lá também existe uma corrida entre Superman e o Flash. Adivinha para quem o Batman estava torcendo?

– Agora só falta a CBS atender aos pedidos do Stephen Amell e introduzir a presença do Arqueiro Verde em Supergirl. #AjudaLuciano

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