É hora de admitir que nem o humor salva e que Frank Gallagher é uma das pessoas mais monstruosas da história das séries de TV.
A temporada que começou tímida, um pouco perdida, que parecia desnorteada depois das saídas de nomes tão importantes, reencontrou a excelência nessa hora final que me deixou em frente a TV com um sentimento conflitante de prazer e ódio, diante de uma convergência de dramas que sempre foi o forte desse show. Esse drama tragicômico que por incrível que pareça remete ao mais puro enredo grego clássico, em que não importa o quanto você corra do destino, porque ele sempre te pega.
Me arrisco a dizer que esse foi um dos episódios mais bem planejados da série. Quando vimos o momento do episódio passado em que Frank “encomenda” a morte de Sean, já sabíamos que esse seria um caminho por onde o roteiro dificilmente enveredaria. Como estamos lidando com uma comédia aqui, há certas fronteiras que não podem ser atravessadas. No entanto, John Wells estava decidido a esclarecer para nós e para os personagens, que Frank Gallagher é um homem muito mais monstruoso do que o senso de humor involuntário nos permitia ver. Então, Frank matou alguém, mas matou metaforicamente, o que acaba sendo uma morte muito pior, porque o “morto” precisa viver para lidar com tamanha aniquilação.
Foi muito difícil assistir Fiona preparando aquele casamento do jeito certo dessa vez, sabendo que alguma coisa aconteceria para acabar com a festa. Cheguei a pensar que talvez Frank se arrependesse e não desse tempo para evitar o crime ou que Sean acabasse morrendo de causas naturais por pura ironia. O que aconteceu, por incrível que pareça, acabou sendo muito pior do que todas essas opções. Frank esmagou Sean da pior maneira possível e humilhou – literalmente humilhou – cada um dos próprios filhos. Uma coisa simplesmente inacreditável.
A perspectiva oferecida pelo episódio foi muito bem orquestrada. Os Gallaghers estavam diante de situações onde dependia deles tomar a decisão certa. A decisão que os impediria de terminarem como o próprio pai, sentados naquele banco de bar, como ilustrou Kevin brilhantemente. Isso que é o mais sensacional… Por definição, a tragédia é uma ação do destino que independe das decisões do herói. Esse não era o caso de Lip, Ian e Debbie. Eles podiam escolher tomar a decisão certa, e tomaram.
Ian e Lip tiveram finais perfeitos. O que fizeram com Ian foi respeitável, porque realmente esqueci que Mickey andava fazendo falta. Foi uma escolha muito acertada a de inseri-lo numa jornada de superação, de reencontro com algum tipo de paixão. Torci de verdade para que ele não desistisse da carreira como paramédico e fiquei imensamente feliz quando ele foi contra a correnteza e não desistiu. O mesmo para Lip… Ele tem um lado Frank que via refletido no professor que admirava e repelia na mesma medida. John Wells fez um golaço quando correlacionou o pai que humilhava os filhos com o “pai” não tão perfeito, mas que fazia pelo “filho” o que devia ser feito: protegê-lo, apoiá-lo. Foi muito comovente a cena em que Lip reconheceu e abraçou a reabilitação como um caminho para longe daquela herança paterna execrável.
Já Debbie só precisou admitir que precisava de ajuda e que Fiona merecia um carinho naquele momento. As coisas não estão fáceis para ela e é assim que tem que ser. Diferente de todos os momentos em que Fiona acreditou numa relação, dessa vez ela tentou não sexualizar tudo, não superficializar. A busca pelo “casamento segundo a vida das pessoais normais” não deixava de ser uma busca por essa mesma fuga do destino que seus irmãos também buscavam. O problema é que se eles podiam tomar uma decisão para mudar tudo, ela não.
Essa “tragédia grega” veio acabar com Fiona sem dó nem piedade. Ela fez tudo que os irmãos fizeram, tomou as decisões certas, evitou tudo que a aproximasse de seus maus hábitos. Porém, de todos os personagens, ela foi a escolhida para ser a vítima definitiva desse destino do qual fugia tanto. No último minuto, Frank apareceu e aniquilou com todas as chances daquele casamento prosseguir.
Eu fiquei estupefato. Frank não poupou ninguém, humilhou cada um deles e ainda envergonhou Sean na frente do próprio filho. Falou sobre ser pai acima de tudo, sobre amar, mas destruiu Fiona por si mesmo, pelo próprio orgulho, por simples vingança. E ela estava lá, linda, vestida de modo puro, terno, como nunca apareceu em cena antes, numa decisão proposital da direção para nos dizer que enquanto Frank Gallagher existir, alguém ligado a ele sempre vai sofrer as consequências diretas desse laço. Foi triste, muito triste…
Ao mesmo tempo, que delícia de episódio. Bem escrito, bem dirigido, com aquele elenco sensacional encaixadinho nas emoções propostas pela trama. E me arrisco a dizer que estamos vendo um momento de imprevisibilidade dentro do show. Ano que vem Fiona estará novamente sozinha, Frank terá esgotado qualquer piedade possível por parte dos filhos e isso pode mudar as coisas. É bom, porque Shameless andava temerosa de abrir vantagens dramáticas e esse flerte com as desgraças da vida sob uma perspectiva nada cômica, sempre foi o que nos proporcionou toda essa plenitude.
Franny’s Notes: Kevin, Veronica e Svetlana brincando com fogo. Mas, espero que demore um bocado para o fogo surgir. Os três juntos são maravilhosos e só a cena de Kevin pelado com dor no pinto já valeu o dia.
Franny’s Notes 2: Carl e sua relação com o pai de Dominique também deu super certo. Torcendo para que continuem com isso. E olha aí o pai substituto novamente.
Franny’s Notes 3: Torço para que Sean retorne, mas não acho que vá acontecer.






















