De quem é a culpa?
Há muito tempo atrás, quando eu era adolescente, me lembro que tive uma discussão muito feia com um amigo meu a respeito do quanto o ser humano era ou não fruto do meio. A gente nem sabia, mas estávamos discutindo a validez de conceitos filosóficos que rendem teses até hoje. Jovens e tolos, deixávamos que nossas culpas pessoais interferissem na nossa argumentação. Ele tinha um caráter duvidoso e queria culpar a sociedade por isso, eu era um homossexual que achava que não podia ser resultado de nenhum tipo de influência.
Seguíamos com nossas formas pouco apuradas de discutir o impacto da engrenagem social na nossa formação, mas numa série como Shameless esse tipo de questão ganha uma proporção bem interessante. É como se meu amigo tivesse conseguido uma defesa em forma de série, já que os Gallaghers reforçam a ideia de que um ambiente deturpado cria uma série de comportamentos recorrentes. Um dia ainda vamos entender os mistérios que fazem com que uma pessoa viva num determinado meio até a fase adulta e acabe adquirindo hábitos ou tenha uma expressão pessoal completamente diferente de onde esteve inserida. O fato é que em Shameless vale a forma como a rotina esmaga qualquer chance de mudança.
E estou dizendo isso porque é claro que aquele clima de calmaria toda não vai durar muito, todos sabemos. Mas, como esse episódio não foi um episódio de acontecimentos e sim de estabelecimentos, acho que vale falar um pouco, em tópicos, sobre como estão os personagens nesse momento:
Fiona: Está extremamente leve e disposta a seguir as regras. Isso é absolutamente coeso, sobretudo depois do que aconteceu com Liam e da prisão. Na temporada passada, Fiona esteve diante de uma visão muito clara do que aconteceria se ela continuasse honrando os genes e o legado de Frank. Gosto muito de vê-la sorrindo e seguindo com a vida do jeito mais centrado. Mas, em se tratando dela, sempre acho que a bomba vai ser atômica. Seria muito bom que um romance com um homem mais velho ajudasse no processo de amadurecimento, mas John já demonstrou não lidar muito bem com ciúmes.
Lip: É a grande representação dessa discussão sobre o meio em que se está inserido. Dadas as devidas proporções, a vida dos Gallaghers está estável e ele não tem motivo nenhum pra sabotar os sucessos que conquistou. Nesse momento, os roteiristas precisam tomar uma decisão: Lip vai ceder ao fardo familiar ou converter a compreensão do que viveu em evolução real?
Ian e Mickey: A bomba-relógio mais óbvia da premiere foi a situação de Ian, que está deixando o bipolarismo herdado da mãe tomar conta de tudo. A doença está chegando gradativamente e ele está em completa negação a respeito. Mickey, envolvido com seus negócios escusos (mas pelo menos agora bem vestido), está ignorando alguns sinais que ele, honestamente falando, nem tem condições de entender.
V e Kevin: Esses dois sempre tem um plot à parte e já sabíamos que eles iam viver intensamente toda a coisa com os bebês. Não foi surpresa ver V sofrendo as consequências diretas da maternidade e Kevin todo babão, nos divertindo com suas teorias e lições.
Sheila: Ela sempre foi uma das minhas personagens preferidas e já adoro seu novo interlocutor, o pequeno Chucky. Sheila tem uma necessidade vital de exercer seus cuidados maternos, ainda que eles não tenham sido suficientes para segurar os impulsos da própria filha. Acho extremamente charmoso que ela entre numa disputa com Sammy pela atenção de Frank, mas ao mesmo tempo seja terna com o filho de sua rival. As cenas entre os dois foram uma delícia.
Frank: De fígado novo, Frank também tinha uma escolha: gastá-lo ou preservá-lo. Na cabeça deturpada dele, o consumo de drogas e álcool era uma questão de quantidade e não de qualidade. Então, ele resolve que se só pode tomar uma cerveja por dia, que essa seja a melhor e mais forte cerveja do mundo. E está feito… Com até mesmo uma chupeta como ingrediente, a cerveja com a marca de Frank ficou pronta e já resultou – em apenas uma dose – no porre épico que o fez acordar pelado no meio da rua.
O episódio foi um resgate de como estavam os personagens e os roteiristas preferiram manter as coisas assim. Mas, de forma alguma isso é uma crítica. Com seu texto ácido e suas piadas politicamente incorretas, qualquer episódio da série é uma delícia de assistir. Toda a latência que existe naquela vida de privações já é suficiente para tornar tenso qualquer momento, mesmo o mais inofensivo. A partir do momento em que absolutamente todos os personagens tem morais relativas, qualquer pequeno ato de “imoralidade” pode resultar, logo depois, em outro desastre familiar ou social.
Depois de cinco temporadas, estamos diante daquele momento em que os filhos de Frank já sabem direitinho tudo que precisam fazer para repetir seus erros. Eles só precisam decidir se farão isso ou não. A série sempre teve uma ambiguidade genial nesse quesito, porque Frank é apontado como um demônio por uma prole que encontra certo prazer em reafirmar ilegalidades e amoralismos. Até que ponto a culpa é dele? Até que ponto é o meio? Até que ponto somos compelidos a sermos afetados por ele?
É isso, senhores… Shameless está de volta na sua maravilha politicamente incorreta. E mal posso esperar para ver quem está certo nessa discussão entre livre arbítrio e inevitabilidade.
Só mais uma dose: Liam fazendo aquecimento com Fiona no fundo da cena dela com V: So Cute.
Só mais uma dose 2: Sammy não foi criada com Frank, mas não nega a raça. O sexo no sofá de Sheila teve direito a blowjob na frente da criança e brinquedos emprestados da anfitriã.
Só mais uma dose 3: Depois que o ator que faz o Jimmy ganhou sua série, o que será do futuro desse personagem?














