Uma série sobre famílias (disfuncionais e problemáticas).

Já que Ray Donovan é uma série sobre famílias – as mais disfuncionais e problemáticas, portanto, as mais esfaceladas, é normal que os seus melhores momentos girem em torno de articulações familiares e em gestos que são movimentos dirigidos ao centro desse núcleo magnético. Interessante que no episódio anterior a esse, a ida de Abby até o seu passado a fez encarar de frente todas as decepções, fracassos e desgostos que deixou ao se casar com Ray, colocando-a exatamente no epicentro de uma questão inescapável: existe família feliz?

Na argumentação lógica dessa questão Ray Donovan logo trata de colocar as coisas bem claras: O ensolarado dia de verão onde as crianças se divertem na piscina e o pai assa as carnes na churrasqueira só pertence ao mundo dos sonhos. Uma imagem ilusória e um devaneio momentâneo de quem faz justamente o contrário– na medida que tenta unir a família com seus interesses mesquinhos o resultado só a afasta cada vez mais. Mick já devia ter aprendido a ser mais cauteloso em envolver os parentes nos seus negócios ilegais, mas sua ganância é inversamente proporcional ao respeito que cultiva com Ray e Terry. Entre aqueles que ainda se sentem atraídos por sua vocação paterna falida não resta outra coisa senão fazer o que o pai pede. Uma necessidade sem muito raciocínio (Daryll), sem nenhuma mediada das consequências (Bunch) e por que não ingênua (Conor)?

Já Ray, na ausência de Abby, tenta se aproximar dos filhos e ocupar novamente seu lugar na grande casa vazia. Parece que além da partida da mulher, o que motiva suas intenções vai além de cuidar e proteger, mas simplesmente ser o exato oposto de outro modelo familiar que agora ele passa a ter contato. A família de Finney com todos os seus negócios mesquinhos, ambições ilimitadas e motivações baseadas em lucros, parece ter despertado algum efeito em Ray. Nessa complicada (e atraente) relação de Paige e seu pai atravessada por ciúmes e jogos de interesses faz de Ray uma mera peça no meio da disputa. É isso que se espera de qualquer um não fosse a revolta que ele opera nesse processo. A saber:

Primeiro, a ideia de lealdade que ele parece jogar tão bem entre os dois. De um lado uma assinatura de contrato que acorrenta os seus pulsos. De outro uma tensão sexual que parece ser volátil e perigosa a cada troca de olhar. O que resta para Ray é não ceder a nenhuma (até quando?).

Segundo, reflete uma maneira muito mais sutil e zelosa. Ray lida com Bridge com toda a falta de jeito que ele possui para se relacionar com sua família ao leva-la na entrevista no colégio. Por estar tanto tempo longe, seu comportamento evidencia uma tentativa de aproximação respeitosa e por isso mesmo tão diferente da família de Paige.

O fato é que continua impressionante a articulação de tom que predomina entre as cenas de Mickey, o espalhafatoso e o absurdo, com as cenas de Ray, mais sóbrias e controladas e como ora ou outra um tom “contamina” o outro e torna as coisas muito mais interessantes. Esse movimento não garante apenas uma trama dinâmica, mas também atraente (a maneira como Ray consegue o celular com a ajuda de Lena foi das melhores coisas do episódio, assim como a “festa” que Mickey promoveu na empresa do aplicativo). Além disso, as próprias cenas desconcertantes de Bunchy e Luchadora e o frio azulado das de Abby, conseguem se encaixar facilmente nesse jogo.

Assim como a última cena nos revela, o retorno de Abby e de Ray acaba sendo uma volta n­os trilhos em Ray Donovan, a ideia de que as coisas estão aparentemente se acalmando e voltando para um arranjo novo, mas não tão distante do que costumava ser. Talvez, a questão mesmo de uma família seja menos a felicidade e mais uma conjugação que equilibre todas as partes para que continue definindo-a como tal. E é justamente essa tentativa de equilíbrio e erro que faz essa série tão boa.

PS.: Estou achando a trama do Padre ainda meio deslocada no contexto de Bunchy, mas parece que as coisas vão esquentar mesmo nos próximos episódios.

PS.2: Nem precisa falar o quanto quero que Lena e Avi voltem definitivamente.

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