Ninguém nessa história é Capitão.

Não é de se estranhar que o último plano dessa season finale seja bem parecido com o último da primeira temporada. Mas estou falando menos de forma, menos de aparência mesmo, e mais de um significado que ela possui. Mais de uma construção da cena que logo remete para Ray exausto na praia, somente ele. Sozinho (como sempre). Mas logo acompanhado pela chegada da sua família. Só que nessa segunda temporada, o plano foi reconstruído pelas vias contrárias: Não há lugar para luz, somente sombras. Não precisa mostrar sangue nenhum na camisa, a hemorragia é interna. A câmera não está distante, mas bem próxima. A tensão que se dissipa, agora se contrai. É pela construção oposta que ela se aproxima da última temporada. O binômio, porém, é o mesmo: Ray-Família. A intercessão dos dois. Tudo afinal, não se resume a isso?

Bem, nada mais natural do que terminar de forma parecida, já que essa segunda temporada foi basicamente um ato reflexo da primeira.  É seguindo a lógica do encadeamento, ou seja, natural das coisas, mas pendendo essencialmente para o lado ruim delas, que Ray Donovan se desenvolveu.

Afinal, se tem uma coisa que a série faz bem é desenvolver suas tramas de forma concatenada. É aí que talvez Ray Donovan encontra sua singularidade. Porque Ray Donovan NÃO É Breaking Bad.  A gente não viu aqui uma finale explosiva e na verdade nem sei muito bem se isso caberia. É pela dosagem que Ray Donovan dá seu tom. Kate morre bem no começo. Ray mata Cookie Brown sem muito alarde – é na tensão concentrada, em momentos realmente chaves, se trata de investir naquilo que importa. De forma bruta. Seca. Direta. (Rápida?)

Engraçado então como Mick se encaixa tão bem nisso tudo. Dos caras mais salafrários da história, Mick é quase uma caricatura. É só perceber como o ritmo da série muda quando corta para suas cenas. Ele é o Capitão no final das contas? Mick passou maus bocados nessa temporada, coisas que nem o golfinho previa (adeus Claudette, até nunca mais? E como que fica Daryll, o personagem mais sem autoestima da série que só sabe ficar na sombra do pai?). No final, ele ganha uma bolada. Sorte. Pura sorte. Ou então uma última chance do destino.  E foi bacana ele dar dinheiro para o Terry. Mas foi menos um gesto paterno e mais uma ação de dignidade mesmo. Uma justeza do mau caráter.

Assim como Ray Donovan puxa o tapete de seus personagens, algumas vezes os deixa viverem tempo suficiente com seus sonhos e esperanças (para logo depois puxar de novo, afinal ninguém vive feliz para sempre. Não há final esperançoso aqui – Cochran que o diga.)

Falando em puxar o tapete, Bunchy não merecia ser rejeitado mais uma vez. Tenta superar o trauma que viveu, mas sempre encontra obstáculos. É dos personagens com mais sequelas de Ray Donovan. A série é cruel demais para ele. Sua consciência não suporta muito. As cenas mais fortes dessa temporada provavelmente foram de Bunchy. Talvez porque ele não entra no jogo da série. Talvez porque ele seja muito melhor do que ela.

Não podemos falar o mesmo de Abby. Teve algum personagem que se revelou mais mesquinho e cheio de más intenções do que ela? Abby se apaixonou por uma versão oposta de Ray. Mas quanto mais princípios Jim mostrava ter, maior era a discrepância que víamos entre ele e Abby. Ela nunca mudaria para a casa de Jim. Aquele lugar simplesmente não é para ela. Há leis demais. Honestidade demais. Uma possibilidade de um futuro que nada mais é, do que a simples resposta de uma paixão temporária. Quando vê que Cookie Brown morreu ela sabe quem foi o autor. Ela sabe quem é a única pessoa que vai até o fim quando se trata de proteger sua família. Ela merece Ray. Ray a merece.

Falando nele, Ray foi a peça chave para entender essa segunda temporada. O cara perdeu o controle, desandou, viu tudo dar errado. Por um tempo perdeu a família e dançou (literalmente). Depois, as peças do jogo foram se invertendo. Principalmente depois da morte de Marvin. Nesse episódio, Ray logo trata de cortar as pontas soltas. Uma visão meio morosa de finitude que nós pelo menos não podemos confiar. Mas na lista de Ray pelo menos o check tá dado: Ashley e Steve: OK. Cochran: OK. Cookie Brown: OK. Ezra: OK. O que vier é consequência, não mais objetivo.

E no final, é claro que Ray ia voltar para casa. Para sua família. Ray perdeu sua paixão. Perdeu Ezra. Perdeu Avi. Ray resolveu tudo. E agora o que resta? Ray, que é um personagem essencialmente da ação. Que existe justamente por causa dela, por um objetivo a ser cumprido, encara no final, um vazio. O que fazer quando tudo está resolvido? Quando os laços estão atados novamente? Quando só sobra a dor? Para onde olhar, senão para quem – os únicos – que realmente o entendem? Para aqueles que acompanharam sua trajetória? Que sentem o mesmo gosto amargo na boca de que nada, nada MESMO, está bem? Ray olha para nós. Nós olhamos para Ray.

Desculpa Ray, não temos resposta para te dar. Não temos conforto para você dessa vez.

Obrigado a todos, até a próxima!

PS.: vale lembrar que a Ann Biderman, criadora de Ray Donavan, foi demitida como showrunner da série. O cargo agora é do David Hollander, que já participava da produção nessa segunda temporada. Tomara que a qualidade da série não desande.

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