We have to go back?
Em 2012, a série Don’t Trust The Bitch in Apartment 23 lançou-se como uma comédia amoral daquelas que conquistam já no primeiro episódio. Ainda que tenha sido injustamente cancelada pela ABC, o estilo agressivo do humor proposto pelo show era um respiro de originalidade fora da fortaleza de “roteiros familiares” sempre tão ambicionados pelas redes (ansiosas por repetirem Friends). A comédia da vadia do 23 tinha, também, um aspecto peculiar dentro de sua narrativa e ele flertava com um subgênero cômico que ainda que remeta aos primórdios do teatro grego, não é muito valorizado na TV: a paródia.
James Van Der Beek interpretava uma versão exagerada dele mesmo, o astro esquecido de uma série teen dos anos 90. A paródia era em pequenas porções, como costuma ser quando o subgênero surge na telinha. Programas de humor, sem costura narrativa definida, selecionam um show para parodiar numa esquete e até séries – animações, em especial – dedicam um episódio inteiro ao mesmo intento. Mas, encontrar uma série inteira que se construa imitando outra já é muito mais complicado.
O canal TBS lançou Wrecked essa semana, que foi criada em torno de uma premissa que vocês conhecem muito bem: um grupo de pessoas estranhas, de várias nacionalidades, sofrem um acidente de avião e caem numa ilha deserta. Para ser chamada de “paródia”, a premissa tem que ser claramente direcionada ao reconhecimento do público e é exatamente isso que Wrecked faz, assumindo desde o primeiro instante que a intenção é tirar sarro com a ideia de Lost e aproveitar o fenômeno provocado por ela para fazer piadas contemporâneas.
Criada por dois irmãos com menos de 30 anos, Wrecked é como o sonho que aconteceu indo contra toda a correnteza. Os Shipley saíram do completo anonimato, sem nenhuma experiência e pouquíssimas conexões, direto para uma série com um orçamento que é, no mínimo, generoso demais para uma produção que não se apoia em nenhum nome de peso. Até isso se relaciona bem com o subgênero das paródias. A grande aposta dos irmãos, contudo, depende de uma série de riscos que precisam se alinhar com muita clareza para tornar esse um programa capaz de resistir ao tempo.
Os dois primeiros episódios foram disponibilizados juntos e determinam muito bem os contornos dessa paródia. Os personagens não necessariamente reproduzem os personagens de Lost, mas apresentam elementos que remetem a eles. As paródias exigem uma versão “piorada” daquilo que espelham e os criadores são atentos a isso, fazendo com que os sobreviventes no centro da ação não sejam modelos de beleza, charme ou força, como acontecia no show de Damon Lindelof. Para se ter uma ideia, o piloto original de Lost previa a morte do médico-herói ao final do episódio, numa tentativa de surpreender a audiência. JJ Abrams mudou de ideia no processo e Jack sobreviveu. Em Wrecked, os irmãos Shipley honram esse primeiro rascunho e matam o “bonitão”, deixando o controle da situação na mão de completos idiotas.
Aparentemente os protagonistas são o comissário Owen e o abobalhado Danny, que aproveita o acidente para viver a vida que quiser (a que ele quer, no caso, é a vida de um policial). Essas escolhas, no entanto, são minhas, já que o roteiro é um pouco vago na hora de estabelecer quem está no centro da ação. A questão não é necessariamente ruim, porque sem dúvida, o grande perigo que ronda o show é justamente sua identidade. Quando se afasta das correlações com Lost, Wrecked acaba sendo só mais uma comédia com sequências idiotas e piadas de vômito, muitas piadas de vômito. Quando Apartment 23 percebeu que parodiar Dawson’s Creek eternamente não seria possível, determinou a virada dessa página e tentou incluir James Van Der Beek na mitologia que foi estabelecida como particular, como “original”.
Os produtores insistem que a série é perfeitamente capaz de se sustentar mesmo com espectadores que não tenham visto Lost. Eu já acho que o que impede Wrecked de ser só mais uma comédia tosca é justamente o charme de ser uma paródia. Porém, dizer se uma paródia sobrevive a tantas horas no ar é praticamente impossível. Se apoiar-se demais em Lost, restringe seu público, se afastar-se demais de Lost, perde a base de apoio por onde foi construída. É realmente uma questão delicada e relevante, porque definitivamente, todo meu tempo assistindo ao show foi dedicado a esperar ansioso pela próxima tirada que invocaria Lost, o que é um sinal notório de que sem isso, não há força suficiente nos pilares restantes.
São apenas 10 episódios nessa temporada e até que eles sejam exibidos, os irmãos Shipley, tão recém-chegados ao mundo do showbizz, precisarão provar que são capazes de fazer o púbico querer voltar a ilha no melhor estilo “não vivo sem”, que Lost consagrou e honrou enquanto foi exibida. E não porque ela precise ser como Lost, mas porque sem Lost ela nem teria existido.
Lost Memories: A sequência inicial, com o acidente, é bem produzida até. O destaque fica para o ator que faz o personagem equivalente ao Jack, que mesmo no meio do caos, arranca suspiros. Até o arranhão na bochecha dele é igual ao de Matthew Fox no piloto.
Lost Memories 2: Não há menções aos aspectos sobrenaturais de Lost nesse começo, mas acredito que a série não enveredará mesmo por esse caminho, o que é uma pena.
Lost Memories 3: Brian Sacca, eu já te acho um dos ursos mais lindos da TV (lembrando que tem o Luschek de OITNB, o Tank de SaB, o Rizzo de Mad Men…tem até o Robert Kirkman). Lost não tinha homens ursos no elenco. Ponto pra você, Wrecked (embora muito provavelmente homens gordinhos e de barba remetam mais a losers do que a sobreviventes… Hollywood e seus padrões). #TeamWoof















