A década de 70 foi crucial para o Rock mundial. Após a explosão do estilo nos anos 60, gravadoras de todo o planeta procuravam novas estrelas que moveriam o mercado fonográfico. Diversas bandas hoje tidas como maiores da história surgiram nesse período: Aerosmith, Kiss, Alice Cooper nos Estados Unidos, Queen na Inglaterra, AC/DC na Austrália, e inclusive no Brasil o rock começava a ganhar força com bandas como Secos e Molhados e Bacamarte. No início da década de 70, também perdemos grandes ícones do gênero, como Jim morrison, Janis Joplin e o grande Jimmy Hendrix. Ou seja, o Rock estava em evidência de tal forma que não havia mais como ser ignorado pelo mercado.
Vinyl conta a sua história nos bastidores desse cenário (em 1973 pra ser mais exato), tendo como foco o empresário e produtor Richie Finestra (Bobby Cannavale), fundador e Presidente do selo American Century Records. A empresa já viu dias de glória, porém encontra-se afundada em dívidas, principalmente pela dificuldade em encontrar novos talentos que elevem o nome do selo. Richie então se vê numa jornada para salvar a empresa, ao mesmo tempo que em que vê a sua vida pessoal também degringolar.
O maior motivo de minha alta expectativa perante Vinyl, era exatamente poder explorar mais de perto esse período tão importante para a música, acompanhado é claro, por toda a controversa e conhecida relação do rock com o sexo, drogas e violência. Os nomes por trás da produção também pareceram certeiros. Essa temática casa perfeitamente com o estilo de Scorcese e Winter, que já trabalharam juntos no piloto de Boardwalk Empire, também exibida pela HBO, além é claro, do lendário Mick Jagger, que agrega muito na parte criativa e principalmente na área musical do drama.
Logo nos primeiros segundos de Vinyl somos apresentados ao protagonista. Um Richie Finestra angustiado, se drogando e visivelmente perturbado. O motivo de tal colapso é explicado mais para frente. Finestra segue uma galera até uma casa de shows onde a ainda não tão famosa New York Dolls (banda influente da década de 70, considerada uma das precursoras do punk rock) se apresenta numa sequência de encher os olhos. A partir daí, o roteiro opta em mostrar ao longo do episódio, todos os acontecimentos que levam Finestra até aquele emblemático concerto.
Ao longo das quase duas horas do piloto, Vinyl nos apresenta a diversos personagens. Alguns não tão interessantes, como é o caso dos sócios de Richie, que funcionam mais como alívio cômico e que prometem mais aprofundamento nos próximos episódios. Porém encontra seus momentos mais interessantes quando foca em coadjuvantes como a carismática Jamie (Juno Temple), que se mostra a única funcionária com reais motivações em ajudar a levantar a empresa, Devon (Olivia Wilde), esposa de Richie que tenta salvar um casamento diretamente afetado pelo trabalho do marido, assim como pelos abusos de álcool e drogas cometidos pelo mesmo e Lester Grimes (Ato Essandoh), promissor cantor de blues que desperta interesse em Finestra, tornando-se seu primeiro cliente ainda na década de 60, e que se vê no dilema de ter que abandonar seu estilo para tentar ser relevante no mercado. E por fim e, principalmente, temos o protagonista. Richie é um empresário canastrão, viciado por música e drogas, mas apaixonado pelo o quê construiu. É interessante notar que apesar de rude com seus funcionários, demonstra se importar com os mesmos.
A parte musical, apesar de ser ofuscada por todo drama vivido pelo protagonista, segue como um dos maiores destaques do piloto. A série mistura artistas fictícios, como a banda Nasty Bits, liderada por Kip Stevens (James Jagger) e que surge como uma cartada para a recuperação da American Century, com artistas reais, como a já citada New York Dolls e o Led Zeppelin, que consegue uma relevante participação no piloto, dentre outras. As referências ao cenário musical da época aparecem em grande número, e não somente o rock tem espaço em Vinyl. O drama abrange algumas vertentes da música negra americana, grande influenciadora no rock’n’roll, onde se destaca principalmente o blues. Todas as cenas envolvendo apresentações musicais foram muito bem executadas e de muito bom gosto, com destaque para a excepcional sequência no fim do episódio, onde acontece a conclusão do concerto do New York Dolls.
As atuações também são um ponto alto da produção. Nesse primeiro episódio, Bobby Cannavale foi o mais exigido, e entregou um trabalho mais do que satisfatório, transitando muito bem entre os momentos de canastrice de Finestra, e a insegurança ao tentar não decepcionar a família. Olivia Wilde também está muito bem como a esposa de Richie, num papel em que precisa demonstrar a paixão que sente pelo marido, ao mesmo tempo em que precisa ter o pulso firme em relação aos abusos dele. O restante do elenco não foi tão exigido no piloto, mas fica nítida a química e capacidade de cada um, e espero ver um aprofundamento maior nos próximos episódios.
A única coisa que me incomodou um pouco foi a sequência na mansão do magnata da rádio Buck (Andrew Dice Clay). Não a sequência em si, que foi divertida e muito bem executada, mas o que resultou dali, e que provavelmente vai influenciar ao longo da temporada. Ainda quero saber qual a real necessidade de inserir um plot como esse na série, pois Empire fez algo similar em sua primeira temporada e achei que desviou um pouco o foco da proposta musical da série. Espero que Vinyl dê um rumo mais interessante para esse importante acontecimento do episódio.
Vinyl apresentou um piloto bom e consistente. Ainda que não tenha sido tão ágil, as quase duas horas passaram depressa, e é um deleite para fãs de música no geral, e principalmente do rock, como eu, mergulhar nesse mar de referências. Ainda que o foco no protagonista tenha sido enorme, o episódio conseguiu apresentar seus principais personagens de maneira satisfatória, assim como seus objetivos. As boas atuações também chamaram a atenção e, principalmente, as partes musicais, que foram um deleite à parte. Gostaria inclusive de ver um enfoque maior nisso nos próximos episódios. O piloto também apresentou algumas cenas memoráveis, onde destaco a sequência final. Estou realmente muito animado para ver os desdobramentos da série. Não tenho medo em dizer que a HBO acertou a mão mais uma vez, mas torcendo para que a coisa não desande mais pra frente. Mas convenhamos, que com um time desses e com o Rock’n’Roll como pano de fundo, não consigo imaginar como possa dar errado.
Track 1: A ideia original de Vinyl surgiu a dez anos atrás. Idealizada por Mick Jagger e Martin Scorcese, a princípio tentaram vender como filme, mas com a crise econômica que atingiu os principais mercados financeiros em meados de 2008, não conseguiram financiamento. A HBO adiquiriu os direitos em 2010, optando por realizar uma série ao invés do filme.
Track 2: O Mercer Arts Center, local onde acontece o concerto que abre e fecha o episódio, realmente existiu, e também desabou em 1973. Mas O New York Dolls não estava presente na ocasião.
Track 3: Led Zeppelin, New York Dolls… Ansioso pra ver outras icônicas bandas de rock darem as caras na série.
Track 4: Talvez essa nem seja necessária, mas James Jagger é filho de Mick Jagger com a atriz Jerry Hall. Quem prestou atenção no sobrenome e nos traços idênticos aos do pai, certamente já sabia dessa.














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