Excêntrica demais para ser levada a sério.

Devemos acompanhar a (supostamente miserável) vida de um ditador e das pessoas que o rodeiam? A resposta mais simples é não. Tyrant é uma série injusta, porque é impossível assisti-la sem levar em consideração todos os problemas que acorrem no oriente médio, e ela simplesmente cita tais acontecimentos com certa falta de interesse. Parece que pouco se importa com o que acontece com a população desses países tão cheios de conflito, e logo no piloto dá ênfase em um drama familiar que simplesmente não funciona. Bom, é claro que a série não sairia falando sobre os problemas de seu país imaginário, mas dedicaria o tempo do piloto para estabelecer as dinâmicas entre seus (quase sempre péssimos) personagens. Mas mesmo assim, sua voz diz que as coisas provavelmente não ficarão muito mais políticas ou sociais.

Berry tem a pior família do mundo, e isso só pode ser mérito dos criadores da série, que são os mesmo de Homeland. Coincidência? Se os Brody geravam ódio no espectador (principalmente Dana), agora é a vez de Molly. Ela é o pior elemento do piloto, pois em toda a urgência do episódio que é recheado de ameaças de bomba, tiros, brigas e estupros, a esposa do protagonista passa o tempo inteiro questionando o comportamento do marido, o porquê de estar tão quieto, o porquê de não estar feliz por retornar ao seu lar, etc. Os filhos de Berry também não se mostram muito interessantes, com Emma sendo a menina que está sempre entediada e Sammy o jovem enérgico e iludido que fica completamente deslumbrado pelo antigo estilo de vida do pai. Sammy ainda no piloto mostra a intenção de um caso homossexual e mostrar como essas relações acontecem em um país tão severamente conservador e censurador poderia ser uma grande ideia, se Sammy não fosse um personagem tão raso e desinteressante.

Para um piloto de 55 minutos, muita coisa aconteceu. Mas o que realmente impacta é a brutalidade de Jamal. É estranho ver como a série lida com a etnia e nacionalidade de seus atores: Adam Rayner (Berry) é um homem branco que nasceu na Inglaterra, nada mais justo que ser o lado bom da história, né? Ashraf Barhom (Jamal) por outro lado é um árabe israelense, atuando pelo lado mau da história. É óbvio que as coisas não seriam diferentes, se o público americano hoje já aceita a ideia de que cada vez mais latinos estão morando em seu país, com o povo do mundo árabe as coisas são completamente diferentes. Não dá para se dizer que a série é preconceituosa, mas sem dúvidas sabe que seu consumidor é, e com medo de arriscar, opta pela opção mais segura.

A série se passa em um país fictício situado no oriente médio, mas todos os personagens falam inglês. A única maneira de se diferenciar um americano de um estrangeiro é pelo sotaque. Bom, não se pode esperar que uma série que vai acontecer inteiramente no exterior seja em árabe o tempo todo. O FX tem The Americans, onde os personagens falam russo em todo episódio, ou The Bridge que o espanhol é bastante presente, mas nenhuma delas dedica um episódio inteiro em outro idioma. Se Tyrant vai lidar com personagens estrangeiros o tempo todo, nada mais justo que conceder-se liberdade poética e fazer com que todos falem inglês de uma vez. Quem sabe o ditador dava cursos gratuitos para a população? Brincadeira a parte, o mundo árabe (e o planeta todo) falam inglês, mas pelo menos nas interações entre personagens de Abbudin, o idioma local deveria ser usado, isso acabaria tornando a série mais verossímil.

Tyrant realmente não é a melhor série dos últimos tempos, mas tirando a família de Berry, o comportamento exagerado e inexplicável de Jamal, e o preconceito disfarçado que o piloto apresenta, existem alguns pontos que tem potencial de serem interessantes: É cada vez mais comum no oriente médio revoluções contra ditadores. O próprio ditador de Abbudin, em uma conversa com o filho que não via há 20 anos fala que Saddam e Gaddafi morreram, Mubarak está preso. Uma revolta contra o governo seria uma ideia interessante de a série colocar seus personagens em perigo real, fugindo da novela familiar que o piloto mostra. O marido que não conversa com a esposa por causa de traumas passados, filhos mal-educados, um irmão difícil de controlar: Berry tem muito com que se preocupar agora. Será que nós precisamos nos preocupar de assistir ao próximo episódio?

Outras observações:

Quantas vezes o roteiro precisa dizer que o protagonista passou 20 anos fora da terra natal?

Bater de carro e ter seu pênis (provavelmente) arrancado devido a um sexo oral repleto de raiva? Jamal merece, ao menos pela imagem que o piloto tentou passar do personagem mais imprevisível e descontrolado da série.

A série tenta mostrar a maneira com que as mulheres são tratadas nos países árabes através de estupros constantes. Três apenas no piloto e acaba pesando a mão. Existem outras maneiras de mostrar a opressão da mulher: a desigualdade social, política, financeira, religiosa, etc.

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