Existe uma espécie de movimento cristão no Brasil bastante curioso e interessante. Primeiro pelo fato de que eles não possuem um nome ou denominação como todas as Igrejas da linha protestante costumam ter. Não existe um selo que os defina por completo e, principalmente, os identifique entre os demais. Quando perguntados sobre seu nome eles apenas respondem “perdão, não usamos um”. Outro detalhe: eles seguem a linha do cristianismo protestante, mas não se identificam como religião. Muito pelo contrário, sua crença é baseada em fugir de toda e qualquer doutrina que uma religião possui apesar de usarem a Bíblia como escritura. E por último: o raciocínio de todo o movimento nasceu graças à visão de 3 homens chineses, conhecidos como Witness Lee, Watchman Nee e Dong Yu Lan. Dentre eles somente o último permanece vivo e divulgando sua mensagem ao redor do mundo. Seus livros são publicados através da editora independente chamada Árvore da Vida, que por sua vez possui sede num lugar quase paradisíaco conhecido como Estância Árvore da Vida, perto da cidade de Sumaré, interior de São Paulo. Lá eles oferecem workshops, conferências e até mesmo abrigam pessoas que seguem os ensinamentos desses 3 chineses acerca de um cristianismo simples, sem rótulos, sem discriminação (em teoria) e com uma visão acerca dos Evangelhos bem menos doutrinada do que outras Igrejas. Diversas vezes ouvi pessoas se referindo à esse Movimento como “O Culto da Árvore da Vida”, mas a verdade é que ele não possui uma identidade nítida e com o tempo acabou crescendo e conquistando diversos fiéis. Inclusive meus pais.
Eu, por conta disso, cresci dentro desta comunidade, criei raízes no que hoje chamam de Estância Árvore da Vida e baseei toda a minha infância e adolescência dentro de um raciocínio – que observando com mais cautela – é tão forte quanto qualquer outra religião. O convívio diário entre os “irmãos”, cumprimentando o vizinho durante a manhã, levando o cão para passear e toda aquela utopia que a Estância me envolvia era de um conforto brando/cego e o choque de ter que ir até a escola e manter contato com os “mundanos” enalteceu toda a minha formação moral e repercute até hoje nas minhas ações e reações a determinados assuntos, apesar de constantemente questionar certos ensinamentos e conceitos. Existe dentro desta comunidade uma transparência unânime que cobre à todos numa esfera familiar e que bloqueia qualquer tipo de reflexão sobre como aquilo realmente funciona e impede qualquer um de apurar as nuances por trás de uma ideologia tão forte e sedutora. Diversas vezes quando aparecia um irmão questionando tal ensinamento os outros os reprimiam dizendo que ele estava transgredindo com sua alma, vivendo com base nela e fugindo do real propósito do Espírito Santo. Esse discurso, querendo ou não, gera dúvida. Eu, por exemplo, durante minha caminhada juvenil (até o batismo propriamente dito) colecionei dúvidas sobre a vida que estava prestes a escolher. Cheguei a me sufocar de tantos questionamentos acerca do quão difícil é perceber as falhas de um sistema em que estava inserido e se sentia fraco demais para questionar com os outros sobre a racionalidade do mesmo. Hoje (com mais distância em relação à isso) enxergo-o como um reflexo de como a fé e as crenças humanas nos envolvem chegando a penetrar em nossas veias com uma força avassaladora, observando tudo e todos na mais pura intimidade. É por isso que a experiência de assistir a mais nova série dramática long-hour do Hulu foi um soco no estômago pra mim, e por outro lado, um alívio.
The Path conta a história de um movimento religioso e fictício chamado Meyerismo. A narrativa segue Eddie (Aaron Paul) e Sarah (Michelle Monaghan) que enfrentam dificuldades no seu casamento e começam a questionar sua fé. Hugh Dancy retorna após um grandioso trabalho em Hannibal no papel de Cal, que trabalha como líder-substituto deste culto enquanto que o Meyerista e fundador Dr. Steven Meyers está – em teoria – no Peru “traduzindo” as runas dA Escada (The Taddler, capa do livro disponível abaixo), a escritura sagrada que serve para guiar os seguidores. Os meyeristas acreditam que se você “olhar para a Luz” e subir os degraus da metafórica Escada conseguirá então enfrentar o sofrimento e se preparar para o Fim que está por vir. De forma irônica esta seita possui como símbolo principal O Olho, que está presente em praticamente tudo que envolve a vida dos que seguem tais ensinamentos.

O Olho é exatamente o primeiro detalhe notável dentro de um cenário catastrófico introduzido no piloto da série. Uma espécie de órbita tribal com um núcleo forte dentro de um círculo conciso e geométrico, que lembra muito a Roda Dharmica do Budismo. Ele está virtualmente presente em qualquer lugar: nas roupas, nos acessórios, nos livros e até mesmo em decorações mobiliárias. As pessoas costumam olhar para esse Olho com o fim de relembrar os ensinamentos dA Escada e agradecer por estarem “protegidas” do Fim tenebroso. Um paralelo crítico sobre como a simbologia religiosa é poderosa e incorpora o viver humano numa força visceral de conforto e medo. O Olho é na sua amplitude o Big Brother satírico e invisível que nos analisa toda vez que abrimos nossa mente para determinada crença e aceitamos em algum nível os símbolos que nela habitam. Entretanto, apesar de ser construída nesta premissa religiosa o Meyerismo nasceu quando a autora da série decidiu esvair de toda a sua religião. Irônico não? Jessica Goldberg contou que, apesar das similaridades com a Scientologia – principalmente a máquina que Eddie usa durante seus 14 dias de estímulo neurológico e cura pessoal – na Scientologia existe a chamada E-Meter para ajudar no crescimento espiritual. Todavia a lógica por trás dessa “nova religião” foi baseada na fé construída dentro do lado mais sombrio e (de certo modo) agnóstico da autora, é por isso que a premissa da série acabou sendo a construção de uma narrativa que dá mais enfase aos bastidores da ideologia e das pessoas que a seguem, do que o Meyerismo em si. Afinal, nada mais sarcástico e frio do que expor o questionamento dos protagonistas frente à um movimento denso e, por ora, crível. Não é mesmo? E por conta disso simpatizei com os personagens numa velocidade que me impressionou pelo fato de que em nenhum momento senti que estava assistindo um show sobre um culto sinistro e seguidores mais sinistros ainda, pelo contrário, The Path conseguiu criar uma atmosfera de empatia que me envolveu e fez entender naturalmente as motivações e as lutas pessoais dos protagonistas, sem discriminá-los num primeiro instante. O melhor caso é a visão imatura do jovem Hawk porém com certa racionalidade dentro do contexto familiar que o roteiro propõe.

Sobre os protagonistas: Eddie promete ser o pêndulo catártico da série. Após passar um período numa espécie de retiro espiritual no Peru e viver uma experiência de que “seus olhos finalmente foram abertos”, ele acabou tendo uma visão que pode alterar o rumo de toda a ideologia do grupo e influenciar diretamente na sua relação matrimonial com Sarah. Entretanto o rapaz ainda vive preso no medo de ter que se desvincilhar por completo de sua família, que está cada vez mais inserida nos ensinamentos dA Escada. O medo de Eddie é tão grande que ele prefere que Sarah acredite no seu falso affair do que revelar a sua dúvida. É cedo dizer, mas com apenas 2 episódios fiquei extasiado com a atuação de Paul, que procurou na cerne psíquica entre a ilusão e o realismo do seu personagem o tempero perfeito para explorar essa confusão que Eddie tortura a cada segundo. Não me surpreenderá se o “caminho” dele seguir direção oposta ao que pode acontecer com Cal (Hugh Dancy). O líder-substituto do Meyerismo converge para uma jornada de acensão, porém percorre um caminho bem mais tortuoso e conflitante do que os outros. Ele parece diversas vezes fugir da realidade que o Movimento tanto constrói e escolhe acreditar fielmente no bem que tal filosofia pode acarretar na humanidade. Pior do que um líder que não procura poder e dinheiro, somente um líder que procura dominar o mundo com sua utopia dilacerada e sedutora somada à olhos cegos pra qualquer outra distração. Sua intenção não é ser proselitista – aquele tipo de líder que recebeu uma diligência divina (ou não) e se aproveita desse ‘apostolado’ para influenciar os outros – mas sim um professor. O melhor exemplo disso é quando ele responde à definição de que o Meyerismo seria um culto. “Não é um culto, é um movimento” e com isso ele conquista o ouvinte numa velocidade bem mais convincente, ignorando o fato de que as regras que estão por vir são obras de estudos religiosos, apesar de soarem o tempo todo como terapia e pequenas aulas de Yoga.
Apesar do drama, The Path move-se em direção à um suspense policial, pois toda vez que a religião não abre mais espaço pra dúvidas, nasce a possibilidade de ferir conceitos éticos e morais. Mas a série faz isso com neutralidade e numa pressa parecida com The Leftovers (HBO) porém de forma mais branda. Apesar de tudo, os 2 primeiros episódios conseguiram cumprir a função superficial por trás do Meyerismo e introduziu com força os estímulos pessoais de elenco poderoso e que – se bem trabalhado – pode surpreender cada vez mais. O contraste de ver todos realizando tarefas maravilhosas como ajudar desabrigados de um tornado, jantar com a família completa na mesa e serem o tempo todo solidários com o próximo irá cruzar com o terror por trás de uma organização devota ao medo e isso vai ser (e está sendo) uma delícia de acompanhar.
1º Degrau: Todos os atores receberam uma espécie de glossário sobre o Meyerismo e passaram semanas estudando os conceitos por trás do Movimento, por ordem da autora e criadora Jessica Goldberg.
2º Degrau: Aliás, Jessica disse em entrevista que a ideia do Meyerismo ganhou força quando ela passou a sofrer uma crise espiritual que a fez “perder sua religião” e passou a enxergar o mundo com outros olhos.
3º Degrau: Assim como outras religiões o Meyerismo acredita em “vida após a morte”. Depois que o Fim acontecer, seus seguidores irão se reunir num Jardim (divino) que está sendo construído a medida que o movimento for ganhando força.
4º Degrau: Diversas vezes quando tentava explicar qual era a minha religião para os amigos eles quase sempre perguntavam se meus pais eram hippies ou algo do tipo e eu quase sempre respondia igual à Hawk: “Mais ou menos isso”.
5º Degrau: Frases importantes:
“Prove.” – colega de Hawk oferecendo um pedaço de carne pra ele
“Mas talvez com uma alma de cada vez, nós transformamos nosso mundo quebrado em algo que é completo novamente.” – Cal na entrevista para o talk-show
“Você consegue viver numa fé que sabe que é mentira?” – Alison tentando convencer Eddie à encarar a realidade do Meyerismo.






















