BOOOOOOOOOOOOMMMM!
Lá, nos idos de 1993, estreou, como quem não quer nada, uma pequena série de TV de ficção científica, que veio a ganhar o mundo e revolucionar a forma de fazer e enxergar o conteúdo televisivo. Sim, estou falando de Arquivo X (X-Files para os íntimos). Essa maravilha televisiva confrontou os executivos da FOX, recusou-se a ser unicamente um procedural e apresentou uma mitologia narrativa que gerou um dos maiores, mais intensos e mais cultuados fanatismos da história da televisão. Ficção científica se tornou um assunto sério, respeitado e premiado. A mitologia e os cliffhangers atraíram, ao invés de afastar o público. E adivinha da mente de quem veio esse deslumbre de série? De nosso velho amigo Chris Carter, que, depois de um (dolorido) hiato do mundo televisivo, está de volta com The After, para nossa alegria.
The After foi lançado através da Amazon Studios, que, depois do sucesso de público e crítica alcançado pela Netflix em 2013, também quer sua fatia do bolo dos serviços de streaming e apostou no projeto de Carter para alcançar seu objetivo. Como já feito anteriormente, o estúdio disponibilizou o piloto da série online para sentir a recepção do público, que, ao lado da crítica, será o termômetro para a Amazon avaliar se deve ou não se comprometer com uma temporada completa.
Como estamos falando de uma produção de Chris Carter, The After traz uma abordagem indireta, centrada no mistério e suas ramificações insinuantes. E o desenvolvimento do projeto foi banhado em uma atmosfera semelhante, com o estúdio liberando informações limitadas, revelando o mínimo possível sobre o universo proposto. Diante disso, parti para o episódio tendo em mente que se tratava de uma ficção científica que exploraria um mundo pós-apocalíptico onde oito estranhos deveriam se unir contra as adversidades e a violência da situação em que se encontravam. E isso foi exatamente o que foi apresentado nesse piloto. Vimos e ouvimos explosões e o caos, no entanto o foco ficou mantido nos oito indivíduos, com personalidades e visões de mundo diversas, que buscam sobreviver e fugir daquele cenário caótico.
Se houve um protagonista nesse episódio, ele saiu pelo nome de Gigi Generau e sua intérprete, Louise Monot, foi hábil em transitar entre as facetas requeridas pelo texto. A pedra angular da atriz é sua família e, dessa forma, em prol da busca por algum contato com a mesma, Generau larga a suavidade e a leveza exaladas em sua audição e assume a coragem e o desespero ameaçador para conseguir o último resquício que guardava do marido e da filha: seu celular. Aldis Hodge recebeu um presente na forma de D. Love, que, apesar de uma forma gráfica de lidar com os indivíduos ao seu redor, depois de 13 anos de prisão, mantém um traço humano pulsante. Jamie Kennedy compõe o palhaço David de forma curiosa: começa com expressões faciais e vocais melancólicas e gradualmente, à medida que retira a fantasia, vai tornando-as mais leves e cômicas. E quem se destaca, também, por enquanto, no elenco principal é Andre Howard, que promove a erupção do vulcão grosseiro, beberrão e verborrágico McCormick.
E, se é projeto de Chris Carter, tem mitologia e os minutos finais desse piloto foram magistrais. Eu esperava um cliffhanger digno e interessante depois de todo o foco mantido nas figuras humanas da história. No entanto, eu não esperava o banho de direção de Carter, que, em segundos, transformou a cena em que Generau está parada na floresta em um puro desespero aterrorizante. Os sussurros, os movimentos de câmera, o uso das sombras e até mesmo a trilha sonora gritavam Arquivo X em seus melhores momentos, conclamavam a maestria da condução de Chris Carter e o principal: arrepiou ferozmente minha espinha. Mas nada superou a empolgação em ver o Sombra Negra se fingindo de morto, exibindo suas tatuagens e, aí sim, jogando na cara do público o primeiro bloco pesado de mitologia.
As tatuagens divididas entre os corpos dos oito indivíduos e o corpo do Sombra Negra, o círculo na mão de McCormick e o círculo quebrado formado pelos oito no momento final do episódio estavam ali para nos mostrar que a união desses oito “estranhos”, nascidos no dia sete de março, não é mero acaso e sim obra maior de um destino que ainda descobriremos. Afora os mistérios e as conspirações levantadas pelo roteiro, vimos também o caso clássico das consequências do isolamento humano e como oito pessoas distintas reagem ao serem expostas por uma nova realidade. Há também a esperança de vermos, muito, a expansão desse caos e dessa violência fora do círculo em si.
Mas é esse mesmo o modus operandi de Chris Carter, ficção científica interpessoal em busca da verdade. Seja da verdade que “está lá fora” ou da verdade exposta a nós através da história. O sentimento que vem junto a esse episódio piloto é que dessa vez Carter vem para brincar mais forte com a bíblia, coisa que ele se aventurou também, de maneira mais contida, em Arquivo X.
Claro que houve deslizes. Apesar de ter conseguido prender a atenção em seus 52 minutos de duração, o episódio poderia ter tido 10 minutos a menos, sem prejuízo ao objetivo pretendido. Prova disso é a sequência anterior à saída de Generau para o palco de caos, que se alastrou além do ideal, minando parcialmente a tensão da situação em que os personagens se encontravam. Também vimos a série se render a clichês clássicos e a “forçações de barra”, como a forma que o apocalipse bíblico é apresentado, personagens que caem durante perseguições ou os closes gritantes em elementos que claramente seriam retomados posteriormente. No entanto, não foram tropeços que tenham atrapalhado a experiência do episódio como um todo e não são nada que uma mente como a de Chris Carter não possa facilmente consertar.
Apesar disso, The After conseguiu cumprir o que se espera de um piloto: prender a atenção e atiçar a curiosidade e a vontade de ver os próximos capítulos da história. Uma história tipicamente Carter com incrível potencial e a capacidade de efetivamente explodir nossas mentes e ainda com referências a Stephen King e, porque não, The Walking Dead (em seu pico de potencial artístico).
Acho que o que me resta a dizer é: seja muito bem-vindo de volta a televisão, Chris Carter. Estávamos com muitas saudades!














