Quem precisa ressuscitar é a criatividade americana.

Há algum tempo atrás eu fiz um texto aqui analisando toda a primeira temporada de Les Revenants. A produção francesa, muito bem cuidada dramatúrgica e esteticamente, mostrava vários mortos que – após um apagão de energia – retornavam do jeito que estavam quando morreram, numa mesma cidade, ainda que em épocas diferentes. Eles não se lembravam nem que tinham morrido e seus retornos provocam uma série de conflitos psicológicos entre seus entes queridos e aqueles que os circundavam. Estou relembrando vocês dessa sinopse, porque se for fazer uma que ilustre Resurrection, ela vai sair EXATAMENTE assim.

Não, não estamos falando de uma versão americana da série francesa. Resurrection não é um remake. Ela é explicada como uma adaptação do livro “The Returned”, enquanto a série francesa é baseada num longa-metragem.  Como se não tivéssemos uma infinidade de material digno pra explorar, somos “presenteados” com duas produções que se aproveitam do mesmo enredo e geram – inevitavelmente – comparações e turbulências que poderiam ser evitadas.

Se você que está lendo isso aqui não viu Les Revenants, não se preocupe. Esse paralelo precisava ser feito, mas não é o principal aspecto negativo da criação de Aaron Zelman (que também já esteve no time de The Killing). Ainda que a ABC tenha produzido um piloto elegante e com segurança, a tentativa de não assustar o público com sobrenaturalismos demais resultou numa narrativa lenta, um pouco insípida, que não conseguiu despertar meu interesse. Claro que já ter visto o drama do “morto reencontrado” antes ajudou a me envolver menos com os conflitos, mas a essência da série foi uma mistura estranha de busca por identificação com resultados de distanciamento.

Começamos com o menino Jacob, que acorda na China como se nem um dia tivesse se passado desde seu afogamento, 32 anos atrás. É por causa dele que conhecemos o protagonista Bellamy, um agente de imigração que dá de cara com o menino e promete levá-lo para Arcadia, onde ele mora. Toda a escolha de nomes para os personagens parece seguir um certo tipo de referenciação que só entenderemos a seguir. Além do nome da própria cidade, que nos remete à metafórica e utópica região poetizada pelos gregos, Resurrection quer riqueza de detalhes, mas isso se complica quando sua dramaturgia já começa desgastada.

Ao levar o menino de volta, Bellamy precisa enfrentar a verdade de que o garoto que está com ele é o mesmo que morrera 32 anos atrás. Os pais do menino já estão velhos, se contorcem entre a felicidade de ver o filho vivo, mas conscientes de que isso não é natural. Os outros personagens, de várias formas, também estão ligados ao menino, que apesar disso, não é o centro motor da trama. Óbvio que tudo passa a ser encontrar os motivos que levaram ao fenômeno, traço primordial dessa adaptação, que infelizmente, relaxa um pouco na atenção ao que os personagens tem a oferecer.

Ainda assim, tudo é muito calculado para dar ao show uma cobertura de polidez, de calculismo imagético, com escolhas estéticas bem marcadas e um cuidado em não pesar no texto e acabar caindo no erro de sublinhar o fantástico de situações que já são fantásticas sozinhas. Por isso, Resurrection se torna uma boa opção para quem quer tentar se envolver com ela. Pra mim não funcionou, mas por enquanto, ela não tem nenhum desvio imperdoável que impeça uma tentativa. Ao final do piloto, temos mais uma pista de que talvez as ressuscitações estejam interligadas e esse é o cliffhanger que tem pra hoje. Coerente com o propósito, claro, mas não o suficiente para me fazer continuar.

A lição que fica é de que os pilotos que passam pelas mãos dos estúdios estão tão desesperados por aprovação, que reciclam outras ideias em vigência, bem-sucedidas, que deveriam inspirar coisas maiores que simples e deprimentes cópias.

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