Todos nós temos nossos demônios.

De vez em quando, a televisão dos Estados Unidos é tomada por um gênero. Normalmente, é decorrente do sucesso de um programa em específico, e a concorrência tenta entrar na festa e ainda roubar o bolo, mas o sucesso não é garantido. Poderíamos dizer que a nova onda do Imperador terror psicológico surgiu na AMC com The Walking Dead, mas tomou sua real forma com American Horror Story, do FX. Agora, a Netflix tem Hemlock Grove, a NBC tem Hannibal, o A&E tem Bates Motel, a WGN America mal nasceu e já lançou Salem. O curioso é que essas seis séries citadas conseguiram vingar (no caso de Salem, tudo indica que vai conseguir) e caminhar com suas próprias pernas, diferenciando-se entre si. E todas são de qualidade (não vou entrar no mérito das falhas de The Walking Dead, do fato de eu considerar AHS: Asylum a melhor temporada de série que já vi ou como Hannibal driblou o caos da NBC e está superando muita série de TV fechada por aí), então há certa pressão quando uma nova série do gênero desponta no horizonte.

Embalados pelo sucesso estrondoso de Skyfall, o diretor Sam Mendes e o roteirista John Logan emplacaram Penny Dreadful na Showtime no começo do ano passado. Penny dreadful era um popular tipo de ficção na Inglaterra vitoriana, na qual histórias sanguinolentas e sensacionalistas eram publicadas em série. Como cada capítulo ou edição custava apenas um penny (um centavo), essas histórias eram apreciadas pela classe trabalhadora. Entre os personagens célebres surgidos nas penny dreadfuls, destaca se o barbeiro (demoníaco da rua Fleet) Sweeney Todd. Anos depois o grande Sondheim fez o musical, e depois Tim Burton enfiou Johnny Depp e Helena Bonham Carter em sua adaptação para o cinema – e, aliás, os dois estavam excelentes.

Enfim, o canal foi com fé no projeto ao pular o pedido de piloto e encomendar uma temporada inteira de uma vez só. Essa atitude não seria tomada se os nomes por trás da série-to-be fossem dois who sem borogodó o suficiente, então, antes de falar sobre o episódio, é importante botar em evidência o trabalho da dupla criadora.

O primeiro filme de Sam Mendes foi American Beauty, que tornou-se um dos maiores clássicos da história do cinema recente, além de ser filme-símbolo da imperfeição da sociedade americana. Seus filmes seguintes não chegaram a causar tanto impacto, mas isso acabou no momento em que Skyfall estreou. Atualmente a nona bilheteria da história, Skyfall foi um sucesso de todas as maneiras possíveis. As incríveis atuações de Javier Bardem e Judi Dench, a fotografia espetacular de Roger Deakins, a excelente música-tema interpretada por Adele: esses e outros inúmeros fatores levaram vários críticos a dizerem sem pudor que foi o melhor filme da franquia James Bond.

O brilhante John Logan é dono de um dos currículos mais versáteis do cinema, sendo indicado três vezes ao Oscar, pelos roteiros do épico Gladiator, de Ridley Scott, e do drama The Aviator e da aventura “familiar” “juvenil” Hugo, ambos de Martin Scorsese. Também fez o roteiro do suspense musical Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (pois é!), da sci-fi Star Trek: Nemesis e da genial animação Rango. Além disso, ganhou o Tony pela peça Red, sobre o pintor abstrato Mark Rothko.

Mendes e Logan por trás de uma série de terror psicossexual. Tinha como melhorar? Ora, sempre tem, pois um tempo depois anunciaram a participação do espanhol Juan Antonio Bayona como diretor dos dois primeiro episódios. Bayona dirigiu El Orfanato, que acredito ser um dos filmes de terror mais inovadores  da última década (aliás, prestem atenção na produção de terror espanhola atual: é muito melhor, mais original e inventiva que a estadunidense). Depois, fez o interessante The Impossible, filme que recebeu pouco destaque como um todo, mas deu uma indicação um pouco exagerada ao Oscar para Naomi Watts. Apesar de todos os clichês e as trapalhadas sempre comuns que diretores latinos fazem ao entrar para a indústria hollywoodiana, esse último filme ajudou a destacar um dos maiores méritos de Bayona: a capacidade de criar tensão constante.

Bom, com Mendes, Logan e Bayona, é óbvio que as expectativas estavam altíssimas. Claro que havia o receio de ser um flop, afinal, sempre há, ainda mais quando tudo parece bom demais para ser verdade. Mas os 50 minutos do episódio, chamado Night Work, espantaram a pau, pedra, monstro e fim do caminho quaisquer preocupações de desapontamento. A qualidade técnica e artística esperada estava toda ali, envolta em medo e tensões, principalmente a sexual. E, entre os diferenciais de Penny Dreadful que foram perceptíveis neste primeiro episódio, está a capacidade de subir o nível do estilo tosco das penny dreadfuls para o dos primores literários que compõem a trama, como O Retrato de Dorian Gray, Frankenstein e Drácula.

E falando em Frankenstein e Drácula, a caracterização dos monstros é excelente, extremamente bem-feita e com um toque de sensacionalismo, combinando com o que as penny dreadfuls idealizavam. E dissecar um vampiro e encontrar por debaixo da pele hieróglifos do Livro Egípcio dos Mortos? Ainda não encontrei a relação literária/histórica, mas já estou me sentindo uma múmia esperando a continuação dessa trama. E ao som de Margareth Menezes cantando Faraó, Divindade do Egito.

A trilha sonora de Abel Korzeniowski é magistral, alternando-se entre o discreto e o retumbante, e fazendo uma contribuição inovadora às trilhas de terror, algo que não via desde o trabalho de Wojciech Kilar na adaptação de Drácula dirigida por Francis Ford Coppola. O compositor já tinha feito obras de arte à parte em dois filmes de diretores com pouca experiência cinematográfica, mas com caminho consolidado em outras áreas: A Single Man, do estilista Tom Ford, e W. E., da Madonna.

E, para não deixar as inevitáveis associações de lado (Penny Dreadful é a novata do pedaço, tem que aguentar tudo e pagar um dólar pro Jerome), a série se aproxima de American Horror Story, Hannibal e Bates Motel pela qualidade do elenco. Afinal, se algo se aprendeu com a onda de séries de terror, é que de nada adianta a técnica rebuscada sem atuações que consiga transmitir o medo que se espera (quer aprender a dar gritos de pavor impecáveis? Aprendam com a Sarah Paulson aqui).

O personagem de Josh Hartnett é construído em torno da ideia do típico estadunidense longe de seu país, no qual o ar cool (ou o que o valha quando falamos de uma série de época) e a lata de aventureiro são propositalmente ressaltados para impressionar os estrangeiros – ainda mais os ingleses, tão polidos e cheios de mimimis. Valendo-se do fato de ser visto como um indivíduo exótico, Ethan aproveita para ganhar dinheiro impressionando tolos sirs ao fazer seu show de tiro ao alvo, e também transar com as young ladies que caem em sua lábia cheia de promessas e sua imagem de indomado.

Timothy Dalton está muito bem como Mr. Malcolm, um gentleman que explorou a África e agora está em sua busca mais importante, pela filha desaparecida. O ex-James Bond (olha só!) tem uma química ótima com todos os atores com os quais contracenou, e adequou-se perfeitamente a todos os momentos de medo que protagonizou, fortalecido pela direção competente de Bayona.

Harry Treadaway, irmão gêmeo de Luke, construiu de forma certeira a obsessão de seu personagem pela linha tênue entre a vida e a morte. Aliás, a cena final entre ele e sua criatura (sim, só ficamos sabendo no final que o rapaz é o Dr. Victor Frankenstein) sintetiza toda a proposta da série. O terror, o macabro, a tensão sexual… Tudo está ali, e de forma espetacular. E enquanto Treadaway não deixa nada a desejar, o momento acaba sendo dominado pela atuação de Rory Kinnear como o monstro. Fazendo algo a la Jane Fonda em The Newsroom, o ator usa seus pouquíssimos minutos em cena para fazer nada menos do que impressionar. E o fez sem falas, apenas com a expressão bizarra de um morto que volta à vida.

Contudo, não há páreo para Eva Green. Mestre em interpretar personagens altivos, a bond girl de Casino Royale (sério?) imprime à sua Vanessa Ives uma aura impassível e gelada, mas sem exageros para esfregar isso na cara do público. E é essa aura que tornou as cenas de desequilíbrio de Vanessa mais impactantes, porque a queda de um ser humano exige muito de uma atriz. E Eva, ah, Eva… essa atriz é capaz de tudo.

É importante ressaltar que as publicações que dão nome à série moldam grande parte dos diálogos, situações e personagens. Há sensacionalismo? Um monte. Inverossimilhança? Eu diria que sim, mas a construção da história e de seu universo não permite. Entender o conceito de uma penny dreadful é interessante para aproveitar melhor o que a série oferece, assim como ter conhecimento das outras obras literárias abordadas, mas estamos diante de uma criação artística que parte dessas bases para andar com suas próprias pernas. E, se continuar nesse ritmo, perpetuar-se no tempo.

Por isso eu te digo, Penny Dreadful: seja bem-vinda à televisão. Tu não tens ideia de como és necessária.

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