Começa a viagem no tempo.
Não acreditamos que exista um fã sequer de fantasia que nunca se imaginou deixando sua realidade através de um portal mágico e indo parar em um tempo diferente do seu. Nós sempre nos imaginávamos caindo em algum buraco e indo parar na Idade Média em meio aos bretões, vikings ou até mesmo no Japão feudal. Pensar em como nos comportaríamos em um mundo onde o conforto de costume não existe, como poderíamos utilizar o conhecimento de séculos adiante em um tempo com tecnologia ultrapassada e principalmente pensar sobre os perigos que encontraríamos – isso era um passatempo que tomava horas, dias e impulsionava o medo, a tensão, a paixão e a empolgação que as aventuras literárias e cinematográficas nos proporcionavam.
Para aqueles que já tiveram tais devaneios, é certo que encontrarão parte das incógnitas respondidas em Outlander. Acompanhar Claire Randall – uma enfermeira inglesa que, ao término da Segunda Guerra Mundial, em uma segunda lua de mel com seu marido Frank Randall, e, após presenciar um ritual pagão, é transportada a mais de duzentos anos no passado – é uma aventura a se considerar. Como a maioria já deve ter lido aqui mesmo no Série Maníacos, Outlander é uma adaptação do sucesso literário da senhora Diana Gabaldon que leva o mesmo no exterior e é chamado de “A Viajante do tempo” aqui em terras tupiniquins. O responsável em transformar as letras em imagens é Ronald D. Moore, uns dos que gravaram o nome nos pedestais no mundo das séries com o clássico recente Battlestar Galactica.
É necessário, primeiramente, confessar que lemos os livros e gostamos do mesmo. Para quem sentiu o sensor de spoilers disparar ao ler a última sentença, vale informar que nos limitaremos a dizer que o episódio piloto foi uma (muito) fiel adaptação do início da obra literária e fica a expectativa sincera de que continue assim pelo resto da temporada. Não que sejamos fãs radicais, mas acreditamos que a obra original é tão direta em suas descrições que, ao transpô-las para a telinha, é impossível não deixar algumas coisas de lado, então essa fidelidade será impraticável a longo prazo. Por enquanto podemos comemorar por perceber que todos os detalhes, incógnitas e particularidades da personalidade de cada um estavam lá. Até mesmo a escolha do elenco se assemelhou bastante a ideia que é transmitida da aparência dos personagens pela autora, além de que as locações em Glasgow (Pollock Park) na Escócia são um deleite.
Os primeiros minutos de Sassenachs transportam o público de forma clara para a atmosfera pretendida pelo piloto: as linhas de diálogo faladas pausada e sentimentalmente por Claire Randall, a contemplação das paisagens escocesas, a fotografia fria e pendente ao monocromático, a trilha sonora inspirada nas tradições escocesas e o belo uso da câmera lenta criam um contraste grotesco com o sangue, a confusão e a sujeira da guerra. Apesar desse contraste, Claire é empenhada como a constante nesses universos. São apenas três minutos e quarenta segundos, mas de uma elegância narrativa e estilística ímpar, afinal também absorvemos a personalidade imponente da protagonista. Suas palavras que questionavam desaparecimentos, a sua vida e a importância das pequenas coisas, como um vaso, expunham uma mulher firme, sem medo de fazer autorreflexões e, dentro do campo de guerra, uma enfermeira centrada.
Apesar de a ação ter deixado a desejar um pouco, foi louvável terem deixado o ponto de vista de Claire em todas as cenas. Já que faltou sangue, fomos compensados com diversas camadas psicológicas e sexuais da senhora Randall. Percebemos que ela é uma mulher a frente de seu tempo: cheia de iniciativa, altiva e sem pudores sexuais, em parte, resultado de educação não tradicional para a época (particularmente, destacamos a cena em que ela ainda garotinha acende um cigarro para seu tio). E, mais que tudo, acompanhamos ao longo, principalmente, da primeira parte do episódio que Claire sofreu mudanças com a guerra. A fotografia mostra o choque entre a energia, a expressividade da protagonista e a áurea obsoleta, quase onírica do mundo em seu redor, como se ela fosse um elemento fora de contexto e, mesmo conseguindo se reencontrar com o marido na cama, a relação entre ambos mostrava um desencontro contido, mas notável.
Dessa forma, quando ela é transposta para o passado, com as imagens dessaturadas, com as cores ressaltadas e a sujeira, a agressividade e a intensidade em primeiro plano, mesmo que tensos pela personagem, enxergamos um cenário em que ela poderia pertencer. E os exemplos mais claros disso são os momentos em que ela afronta os homens que a cercam e a violência machista adjacente e, desbocada, brava e incisiva cuida dos ferimentos de Jaime. E agora fica a curiosidade para conhecer mais da Escócia do século XVIII e a forma que a senhora Randall vai lidar com o novo lar temporal e a relação com Jaime Fraser, que, nesse universo novo, é o elo mais forte que tem até o momento.
Diante disso só basta dizer Outlander começou com o pé direito. O enredo principal foi apresentado. As perguntas foram deixadas no ar. Os personagens principais foram introduzidos. Ainda há muito o que apresentar e podemos presumir que o choque cultural da nossa personagem não será pequeno. Já sabemos que a primeira temporada terá 16 episódios e teremos hiatos após os 8 primeiros. Apesar de termos acabado de cruzar a fronteira do tempo espero ansiosamente para que a viagem continue agradável com a brisa das Highlands escocesas.
P.S.: Outlander será resultado da parceira entre eu e Cléverton Bezerra, colega de Série Maníacos. Então, ficamos à espera de vocês para nosso encontro semanal lá nas terras da gaita de fole.






















