“Se você olhar para a escuridão/ A escuridão retribuirá o olhar/
para dentro de sua alma”
– Bangers+Mash, Radiohead
O mal sempre foi algo intrínseco ao homem. Seja nos arroubos imaginativos das caracterizações demoníacas ou na face comum de um serial killer, a capacidade de ultrapassar as barreiras do considerado “bem” sempre serviram de fascínio e de repudio para a condição humana. Em Outcast as coisas se mesclam numa eterna batalha não pelo destino da humanidade, mas pela sanidade dela frente a escuridão.
Em Rome, West Virginia as coisas não são como parecem. Por baixo daquela enervante camada de banalidade jaz algo maléfico. Kyle Barnes (Patrick Fugit) conhece esse mal desde criança, na figura da mãe. Os episódios de aparente loucura, marcaram a vida do garoto ao ponto de que a questão ficasse nebulosa acerca do que realmente ocorreu. Foi uma possessão demoníaca ou um acesso de loucura? Barnes vai lidar novamente com isso quando um caso parecido começa a ocorrer com um garoto da cidade. Fantasmas do passado e demônios do presente virão à tona, dando início a algo que é somente a ponta do que se esconde no véu de aparente normalidade.
O clima criado nesse piloto, que cobre o primeiro e homônimo volume da obra de Robert Kirkman e Paul Azaceta, é de uma tensão que é construída em duas frentes: no passado problemático do protagonista e no presente atormentado da cidade. Desde a primeira cena ao frame final é possível pressentir que algo irá acontecer, como uma chaleira que está em ebulição e o apito que virá acordará algo de ruim e maléfico. Barnes aparenta ter algo relativo ao que ocorre, visto que o papel de “Exilado” tem algo de recorrente aos casos de possessão. Sua mãe, sua ex-mulher e a criança foram tentativas de algo maior? Se sim, qual seria a relação dele com tudo? E qual a explicação para que seu sangue e lágrimas sejam as únicas coisas possíveis de expulsar os demônios? São perguntas que ficam em aberto e aguçam o espectador a querer ver mais da série. A ironia de tudo é que a condição de exilado de Barnes o coloca num papel central. Tratado como um pária pela sociedade, que não compreende o que se passou no ocorrido com a ex e a filha, o personagem é levado a lidar com toda essa hostilidade ao mesmo tempo em que tem de lidar com a própria pressão imposta pela cobrança de se normalizar perante ela.
Outro ponto interessante é a direção de Adam Windgard, figura constante no cinema de horror. A transposição da HQ para a TV perdeu um pouco do seu clima sombrio, mas muito do núcleo da obra de origem ainda permanece presente em todos os frames, com frases e situações iguais. A trilha sonora composta por Atticus Ross também ajuda nesse clima opressor e sombrio, contrapondo com perfeição as imagens.
Outcast surge como um possível mergulho no estudo da psique e do mal. Um mal tão enraizado num local (como mostra inteligentemente a abertura) é capaz de ser mais danoso do que um trauma igualmente colocado na cabeça de alguém? A escuridão alheia e igual àquela que reside dentro de cada um? Com um piloto interessante e com a promessa de uma jornada perante aquilo que não pode ser visto, a série é uma boa pedida para quem gosta do gênero e procura algo que promete ser uma novidade prazerosa de acompanhar.
Nota do exílio 1: Assumirei as reviews da série, então nos vemos nos próximos 9 episódios!
Nota do exílio 2: A série só estreia em 3 de junho, mas a Fox já disponibilizou a première no FoxPlay (dublada) e no Facebook (legendada);
Nota do exílio 3: Já virei fã na cena da barata;
Nota do exílio 4: Por ser de Robert Kirkman já me vem o asco por “The Walking Dead”, espero que Outcast não entre na mesma “punhetagem criativa” de sua irmã famosa;
Nota do exílio 5: Quem não reconheceu, Patrick Fugit é o garoto de “Quase Famosos”.
















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