Domo Arigato Mr. Roboto.
É muito gratificante você sentar para assistir a um episódio sem nenhuma expectativa e ser agraciado com uma das melhores horas televisivas do ano. Pode soar como exagero, mas Mr. Robot entrega um piloto diferenciado, ágil, inteligente e extremamente intrigante.
A história é focada no jovem Elliot (Rami Malek), um habilidoso hacker, que de dia trabalha como especialista em uma empresa de segurança online e a noite atua como uma espécie de Robin Hood virtual, livrando o mundo de ameaças grandes desde pessoas que proliferam pornografia infantil na internet, como o antagonista do próximo episódio de Catfish, tudo isso sem pedir nada em troca.
A personalidade de Elliot é muito bem construída nesse episódio piloto. Ele é um pessimista/antissocial/paranoico, que beira a soberba por ter certeza absoluta que a sua visão da sociedade é sóbria, ao contrário da grande parcela da população, submersa em futilidades como Facebook e Jogos Vorazes para se anestesiarem da realidade suja e decadente que vivemos. Os diálogos feitos em voice over com seu amigo imaginário, funcionam muito bem e algumas cenas lembram Dexter, onde ele pensa algo e diz o contrário, para poder esconder seu Dark Passenger.
É interessante notar que mesmo muito convicto e às vezes parecendo altruísta demais por não buscar recompensas financeiras pelos seus atos justiceiros, Elliot é um protagonista hipócrita, que julga as pessoas por consumirem “drogas” como Facebook e Jogos Vorazes, mas ele mesmo não suporta a triste realidade que vive e também tenta escapar, só que consumindo drogas de verdade. Toda essa angústia é muito bem retratada pelo ator Rami Malek, uma escolha certeira para o papel principal. Ele consegue transmitir tristeza e loucura com seu olhar esbugalhado, além replicar muito bem a aversão ao toque físico. Malek é facilmente o pilar mais sólido desse piloto.

Outro ponto muito forte é a maneira como a tecnologia é tratada de maneira crua e realista. Prepara-se para ouvir jargões técnicos que não serão explicados e não espere encontrar a glamourização hollywoodiana do mundo hacker, pelo contrário, Elliot em certo momento não consegue obter sucesso imediato ao tentar coletar informações simples sobre o namorado da sua psicóloga e o texto do episódio não trata o telespectador como um imbecil completo, dando tudo mastigado.
A série não tem medo de apontar seu dedo acusador para alguns dos chamados “heróis contemporâneos” como Steve Jobs, Lance Armstrong, Tom Brady e dizer: sabia que ele lucrou bilhões de dólares com trabalho infantil asiático? Sabia que ele é o melhor no seu esporte porque trapaceou? O personagem interpretado por Christian Slater, um Tyler Durden do mundo hacker chamado Mr. Robot, é o típico transgressor admirável, que enfeitiça Elliot e muito provavelmente será a bússola do protagonista.
A dinâmica de Elliot com os personagens secundários é outro ponto positivo, desde suas seções com a psicóloga, que na verdade serve mais para ele analisa-la do que ao contrário e seu confuso relacionamento com Angela, a colega de trabalho que ele conhece há anos e que está obviamente apaixonado, mas encontra dificuldades em se declarar devido a sua fobia social. Porém, o mais intrigante são as interações com o Mr. Robot e aqui começa aquela coceira no fundo da minha cabeça… E se na verdade todos os hackers da “fsociety” e o próprio Mr. Robot não passarem de uma alucinação de Elliot, uma forma de manifestação de múltiplas personalidades? E se todos os atos que envolveram o ataque ao maior conglomerado do mundo, foram na verdade realizados unicamente por Elliot?
O discurso anarquista do Mr. Robot se mistura com frases dignas de Morpheus tentando recrutar Neo e existe realmente um ar messiânico na série, seja pelo 1% do 1% querendo bancar Deus, ou por Elliot querendo bancar Deus protegendo as pessoas e mantendo o otimismo intacto. Confesso que terminei o episódio muito curioso com os homens de preto, com a possível quebra do maior conglomerado do mundo e todo o conceito de uma distribuição de renda pelas dívidas zeradas da sociedade moderna. Elliot é o centro do possível incidente mais importante da história da humanidade, mas tudo que ele queria era ser normal e fazer parte da bolha ignorante e ingênua. Levar uma vida de likes, shares e RTs.

Mr. Robot me parece ser aquela série procedural que vai levar a clássica fórmula dos casos semanais, com Elliot bancando o vigilante, ao mesmo tempo em que trabalha no caso da Evil Corp., o grande plot da temporada. Normalmente esse tipo de estrutura narrativa não me atrai, mas o potencial mostrado nessa estreia é enorme e não pretendo deletar da minha grade de programação tão cedo.
A série estreia oficialmente apenas no dia 24 de junho nos Estados Unidos, mas você pode assistir ao primeiro episódio na íntegra agora mesmo, logo abaixo.
Pensamentos finais:
– O namorado babaca de Angela que veio de The Good Wife (oi Cary 2) foi esculachado por curtir George Bush, Transformers e Josh Groban. Justo.
– Achei genial que a E Corp. passou a ser referida como Evil Corp. por todos os personagens e até mesmo pelo jornal depois de Elliot dizer que só consegue pensar neles dessa forma.
– Elliot tem bom gosto para filmes. De Volta para o Futuro II é realmente o melhor.
– Flipper é um nome genial para cachorro.
– A trilha sonora eletrônica é ótima e empolgante.
– Christian Slater é um pé frio dos diabos. Vamos ver se ele quebra a maldição dessa vez.
– Alô Mr. Robot ataca o Itaú aí, por favor. Minha conta do cartão de crédito está teeeeensa!






















