Misture The Mentalist mais Elementary, ambos da CBS e pronto: temos a série Forever, do canal concorrente ABC. Sem qualquer pudor de ser uma homenagem a Sherlock Holmes, Forever é série para aqueles que querem sentar em frente à TV sem pensar em absolutamente nada. Nem antes, durante e depois.

A série escrita por Matthew Miller (Chuck) conta a história do médico e legista Henry Morgan (Ioan Gruffudd), um homem que vive a angústia de não morrer – ou melhor – de morrer várias vezes e retornar à vida sem que haja uma explicação. Entre os vivos há 200 anos, Morgan além da “maldição” da eternidade, carrega no peito a dor de ter perdido o amor da sua vida, Abigail (Mackenzie Mauzy), onde a premissa será explorar a tese do amor perfeito da literatura da idade média: aquele que jamais se concretiza.

O piloto explica-se e até é simpático, trazendo (quase sempre) a moldura de Manhattan para explicar como vive o legista mais “observador” de Nova Iorque e aí temos o primeiro problema. É descarada a referência artística a sir Arthur Conan Doyle em “O Estudo Em Vermelho” em uma das suas páginas mais famosas, logo no início do clássico, quando o dr. Watson se apresenta ao detetive particular da Baker Street. Holmes descreve a última passagem de Watson como médico do exército apenas observando a coloração da sua pele. Curioso? Busque pelo livro e você verá que Dr. House (vivido magnificamente por Hugh Laurie) teve momentos chupados do detetive (o próprio nome é uma homenagem) inglês. Assunto para outro post.

A crise não está em referenciar um grande heroi ‘normal’ que ainda se destaca em um mundo de arte onde a Marvel e a DC Comics invadiram os cinemas para impor sua filosofia de cultura pop, a questão é fazer isso durante quase 30 minutos como se necessariamente para provar a esperteza e a sapiência de um personagem eu precise que ele seja um mestre no apuro da observação. A culpa não é de (Ioan) Gruffudd, bom ator e de sotaque britânico indefectível, a responsabilidade é que o roteirista não pode esvaziar as possibilidades do personagem logo no episódio em que ele é apresentado. Quais as cartas novas que ele pode apresentar no segundo? Aguardemos.

Incomoda também o fato de as séries americanas insistirem em glamourizar o IML como se o local fosse o mais divertido, local de piadas e gênios escondidos atrás dos óculos. O Instituto Médico Legal de qualquer lugar do mundo (incluindo Nova Iorque) é um lugar fétido, sujo e propenso ao vômito; nem sempre um escritório para bate-papo detetivescos para descobrir interesses criminosos ou motivações por trás de baços, fígados, corações e pulmões perfurados. Temos ultimamente o estereótipo dos clichês.

… E como em todo episódio piloto precisamos de uma plot de impacto: o acidente de trem, com uma trama bem mais ou menos, serviu de tensão pelo menos durante o primeiro tempo do jogo. Lá pelo segundo, já sabíamos quem era o responsável, seus motivos e onde o assassino morava. Rápido, sem dor e sem vacilo. Para os rapidinhos de plantão. A produção e as cenas de Forever seguem um padrão bastante razoável para TV aberta americana. Locações conhecidas (como o Grand Central), fotografia solar e uma delicada edição, com diálogos curtos e sem filosofia de botequim. A narração garante leveza e simpatia para um personagem a qual estamos sendo apresentados. Dá para curtir sem exigências maiores.

A detetive Martinez (Alana De La Garza) não convenceu com seu draminha “meu-marido-morreu-agora-estou-só-neste-mundo”, até porque, para quem parece ainda sofrer com a morte do esposo (ela ainda tem a foto dele no Iphone), ter como primeira cena de aparição sair da casa de um John Doe após uma transadinha não é bem a medida que se espera do sofrimento. Sem aferir juízo de valor, mas se os diálogos entre Morgan e ela incluiriam também o marido, que fosse então menos denso do que quis parecer.

Óbvio também que todo Sherlock tem seu Watson e o legista tem em Abe (o experiente ator Judd Hirsh) aquele que o ajuda em seus dilemas. Abe foi resgatado por Abigail após um incêndio e depois de 65 anos é o “avô adotivo” que Morgan parece ter respeito e carinho.

A ABC pode ter dado um tiro no pé com a iniciativa de colocar no ar uma série que não apresenta nenhuma novidade e uma premissa que não desperta no público algo que não tenha sido explorado na TV. Nem o “sujeito oculto” que fala com Morgan ao telefone, dizendo-se um highlander como o médico, é capaz de dar aquela coceirinha que todos ganham quando se veem interessados por uma atração.

Particularmente se você já assiste Sherlock (o da BBC) ou as séries citadas no primeiro parágrafo, pode deixar Forever de lado. Caso queira colecionar mais um médico-detetive sabichão, pode ser que este também sirva.

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