Uma boa estrutura e um final de deixar qualquer um assombrado.
Ascension, a nova minissérie do canal SyFy, baseada no conceito de ficção científica da Nave Geração leva em si não apenas as esperanças da humanidade, mas também o retorno da minha fé com o canal que um dia nos deu uma série de ficção tão bem feita e amarrada, que até hoje figura no meu Top 10. A proposta da produção intitulada como ‘Evento de 3 noites’ é levantar questões sociais e ideológicas em algo que se provou uma agradável e equilibrada surpresa. Ascension não é apenas uma tentativa de fisgar o telespectador em um conjunto de intrigas e esquemas políticos, ela é um aprofundamento dos maiores e mais primordiais medos e anseios do ser humano, o desconhecido e a fé.
Nave Geração foi um projeto que nunca saiu do papel, mas que teve seu próprio nascimento através da mente de criadores de ficção cientifica. De Orphans of the Sky, de Robert A. Heilein, a The Songs of a Distant Earth de Arthur C. Clarke, o leque de possibilidades para a gênese do programa espacial que mesmo hoje, se mostra uma possibilidade distante, é imensamente interessante. Uma das coisas mais envolventes é ver que mesmo sendo um conceito amplamente utilizado em séries, filmes e livros, Nave Geração parte de um dos planos mais cobiçados pelo homem, alcançar outras fronteiras. Lembro muito bem de Star Trek e de seu lema, “… indo audaciosamente onde nenhum homem jamais foi”. É bem fácil compreender como pessoas se voluntariaram para um projeto arriscado e cheio de promessas, faz parte de nossa natureza, a curiosidade que nos faz aprender a andar. Mas é a ousadia que nos faz querer correr, e Ascension é ousada.
Socialmente ela é algo fascinante, pois assim como os próprios “observadores” pontuaram na figura da investigadora, não existiu a explosão da revolução sexual, a mentalidade de classes e raças ainda é arcaica e todos os avanços da modernidade foram negados a essas pessoas. Apesar do ar desenvolvido explodir em nossos olhos a cada cena, ao ver por exemplo, um elevador simples de biblioteca, quando o inserimos em um ambiente futurista ele se transforma em uma invenção deslumbrante. Existem muitos empecilhos em um projeto desta magnitude, mas o que delimitará os dramas da série e o seu maior trunfo é o social. Com a estrutura exemplificada nas “atendentes” treinadas a conseguir informações, ao chip que encontra parceiros adequados sexualmente para procriação, tudo grita pela nossa atenção, existe certa urgência nas relações interpessoais e o ponto positivo e de destaque é exatamente o que o “estudo” social pretende compreender: Se os humanos estão prontos.
Existe no conceito uma crueldade muito grande, que a série deverá explorar nos próximos episódios, mas que já teve o desenvolvimento iniciado. Tudo foi muito bem pensado, a presença de avaliações psicológicas com a função de evitar que a claustrofobia se instale é apenas um dos paliativos que a viagem exige. Claro, para a primeira geração o sentido de cárcere perdurou, com certeza, de maneira mais absoluta. A memória de quem nasceu dentro da nave é inexistente, apenas fotos, filmes e livros entregam um passado já desconhecido para eles. Porém, se o desejo aparece com mais força agora, em uma distância maior a ser percorrida veríamos uma evolução gigantesca dos fantasmas e anseios do que se acreditaria ser a última esperança da humanidade.
Como a viagem da Ascension é de “apenas” cem anos, muitas das questões levantadas por sociólogos não poderiam ser aplicadas, mas um dos maiores problemas para viagens mais longas, que ultrapassassem seis gerações é o risco de que quanto mais distante da origem, mais próximos estariam os descendentes de se esquecerem do plano original. Em Star Trek existe o episódio ‘For the World is Hollow and I Have Touched the Sky’, onde a tripulação da Enterprise se depara com uma nave geração em que a tripulação desconhece a existência de sua catividade, acreditando piamente estarem em um mundo real limitado a nave. A nave é o planeta, simples e amedrontador. E é um dos motivos pelo qual me apaixonei tanto pela premissa de Ascension, ao entender que as possibilidades para que ela se tornasse uma série interessante eram gigantescas. Por isso, o final acabou me chocando em duas vertentes, a que realmente não esperava que tudo se transformasse em um experimento (atroz, diga-se de passagem) e a outra que queria sim uma expansão do que estava sendo apresentado.
Por isso, vejo que a revelação de que tudo não passava de um estudo seria mais adequada ao finale derradeiro. A própria premissa já havia me conquistado após a leitura da sinopse, o gênero me fascina por completo. Queria ser sacaneado lá no final, com o melhor estilo Planeta dos Macacos, em que o planeta estranho se tornaria a própria Terra, cinquenta anos no “futuro” (ou pelo menos a sensação para a tripulação seria a de uma verdadeira viagem no tempo). Com a resolução entregue já no primeiro capítulo a impressão que fica é de um Show de Truman no “espaço”. Porém, não se enganem, nada do que declarei muda o brilho ou a inteligência por trás dos idealizadores dessa joia do Syfy, que andava precisando de uma produção que verdadeiramente nos demonstrasse a capacidade do canal que nos deu Battlestar Galactica. Chamem de iluminação divina ou de efeito Tricia Hefner, mas Ascension me fisgou com sua estreia, restando apenas o desejo de ser entretido por mais duas horas.
Muito de Battlestar Galactica pode ser visto na série, que de certa forma reprisa problemas já experimentados na veterana. Lá tínhamos o drama envolvendo as “castas” dos planetas em uma divisão bem próxima a de Ascension. E da mesma maneira que BSG, aqui tudo é bem menos complexo do que realmente as personagens passam em seus discursos. Mesmo a mãe e médica torcendo o nariz para a possibilidade da filha escolher alguém de uma posição inferior a desejada, a presença do namorado de Lorelai em sua cerimônia de sepultamento nos afasta do conceito separatista que deveríamos ter. Lembrem-se, BSG era bem mais permissiva, aqui, por estarmos em uma série presa nos anos 60, algumas características não deveriam ser tão evoluídas assim.
Outro ponto que me fez lembrar muito a icônica Battlestar foi a presença de uma possível aura sobrenatural. Mas não apenas da série dos cylons, a experiência para quem acompanhou Lost e a iniciativa Dharma deve se repetir em um nível menos avançado. Em ambos os casos, problemas entre as interações e a existência de uma força maior operando no éter (mitológico) trazem indagações que somente a conclusão poderá nos responder.

Entrando no assassinato, tudo é bem simples de prever. Lorelai sabia de algo que não deveria saber, provavelmente a verdade a respeito do projeto. E a função do evento é de trazer problemas não internamente, mas do lado de fora da nave e na gerência e manutenção das mentes por trás do experimento. A verdade é que pouco me importa saber quem matou a adolescente rebelde e desgostosa com a vida, que rouba a arte das amiguinhas. Eu quero mais de um drama espacial e é o que a minissérie tem de melhor a oferecer.
Dizer que Ascension é um bote da humanidade exemplifica sua utilidade e a necessidade de tanta crueldade. Aprisionar seres humanos e observá-los será justificado pela própria crescente de problemas naturais e sociais existentes no mundo externo. Aquela é uma maneira de prever e analisar o comportamento dos seres humanos em uma experiência similar a utilizada hoje com ratos em um labirinto.
Viondra e seus jogos políticos apenas enriquecem a série, além é claro de nos dar mais da estrutura de poder existente dentro da nave. É interessante ver homens tão “poderosos” e cheios de pompa se portarem como figuras absolutas e cheias de sede de poder, quando tudo não passa de uma farsa. O poder não existe, ele é um joguete nas mãos de quem realmente detém o controle da nave e da vida de todos os tripulantes, o Manipulador.
Assencion se provou uma produção monstruosamente rica. Mesmo que meu desejo, como fã de Star Trek, Andromeda e Farscape, fosse um drama espacial, centralizado na tentativa de encontrar um novo planeta, não consigo reclamar do direcionamento que a minissérie tomou. Antes girava ao redor da esperança, da proposta de um mundo melhor, agora, na manipulação, na armadilha e crueldade de um estudo mesquinho e totalmente aterrador. Com a adição final de Samantha Krueger na pele da investigadora gay Lauren Lee Smith, tudo ficou bem mais interessante. Darwin ficaria impressionado com Ascension, ou muito assustado. Eu por outro lado fiquei extremamente satisfeito.















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