A lei maior de Charles Manson é “faça por mim”.

No tempo em que esteve na cadeia, Charlie ficou conhecido como o cara estranho que gostava de música e sabia contar histórias. Ele sabia trechos inteiros da bíblia e tinha estudado cientologia o suficiente para conseguir manipular preceitos de acordo com suas intenções. Ele também fez um curso extensivo sobre psicologia e convencimento e uniu a técnica à suas habilidades naturais de oratória. Tudo isso, absolutamente tudo, levava-o a chegar a uma única e motivadora conclusão: eu posso convencer os outros a acreditarem no que eu quiser e com isso, eles farão por mim o que eu precisar que façam.

Pode parecer simplório se colocado assim, mas quando a fórmula é descoberta e corretamente aplicada, pode surpreender com os efeitos. A juventude dos anos 60 estava tomada de anseios espiritualistas que contrastassem com a realidade bélica do militarismo. Todos procuravam um Messias pelas ruas de Los Angeles e São Francisco, alguém que lhes dissesse coisas elucidantes sobre a vida, alguém que os guiasse num caminho especial, que lhes mostrasse como eram únicos… Bem, se era um Messias que queriam, Charles Manson ia lhes dar um.

Aquarius, criação de John McNamara, começou no ano de 1967 e adiantou um pouco a ida de Manson para a cidade dos anjos. Quando a jovem Emma se junta ao “profeta”, ele já tem algumas seguidoras fieis. Vou precisar fazer muita força e contar com a ajuda de vocês nos comentários para me distanciarem da consciência do contexto e tentar ver a série como um produto de ficção isolado. Digo isso porque  comecei o piloto achando que a decisão de já mostrar Charlie com um pequeno séquito, prejudicou a aproximação do público com as motivações dele. De fato, Manson foi o personagem mais complicado de administrar nessa estreia, que exibiu o piloto e mais o episódio dois, chamado The Hunter Gets Capture By The Game.

O roteiro acertou em começar pela perspectiva de uma nova integrante “da família”. Emma poderia fazer as vezes da seguidora Ruth Ann, que na história real também tinha 16 anos e chegou até Manson por causa do próprio pai (embora em circunstâncias diferentes). Aqui, no entanto, os pais de Emma são mais importantes socialmente e com isso a busca pela menina é justificada. Isso precisava acontecer para que a inserção do personagem de Duchovny fizesse sentido.

Realmente foi muito difícil julgar Aquarius… Existe algo de interessante correndo por fora, no que diz respeito aos trejeitos manipuladores do antagonista. Porém, quando a série joga seu foco no núcleo policial, algo parece estar forçando relevância dramatúrgica. No episódio dois, principalmente, duas séries diferentes pareciam estar correndo paralelas. Pela perspectiva do piloto, o detetive Sam é outra versão debochada do trabalho sempre blasé de Duchovny. Acredito que o crescente envolvimento do personagem na trama pode esquentar isso, mas não tive uma boa primeira impressão. Brian ganhou mais profundidade no segundo episódio, quando vimos que a causa racial tem um peso pra ele. Porém, há sublinhações demais nesse personagem e isso sempre prejudica a correlação. Assim, sobrou pra todo mundo se relacionar mais com a oficial Charmain. Ali pode haver potencial.

Olhando panoramicamente, pareceu-me um piloto frio e um episódio dois esquisito. Não há grandes investimentos de profundidade em nenhum núcleo e Manson ficou perdido numa tentativa de estabelecer mistério. Quando ele ataca o pai de Emma no estacionamento, é como se fosse outro personagem. Então, acendeu a luz amarela pra mim. A vida do psicopata é norteada pelo poder da palavra e seu forte está em questões de âmbito interpessoal. Aquarius parece querer funcionar numa narrativa policial prática, o que pode ser, a longo prazo, muito ruim para tornar crível os feitos de Charlie. Ele sempre conseguiu tudo com discursos e delegações, ele não partia pra violência sozinho… Ele ameaçava, mas gostava muito mais de gerir o medo que empunhar a faca. Nunca se duvidou de atos violentos que ele mesmo tenha cometido, mas a série parece fugir da notória “fragilidade” do Charlie original.

Mesmo assim, podemos dizer que a história desse primeiro episódio se amarrou direitinho… Emma some, Charlie recruta, mãe pede ajuda ao detetive, detetive descobre ligação entre Charlie e o pai de Emma e enfim, Charlie confirma que nenhum de seus atos é aleatório. Estava tudo certinho… Mas, faltou um texto um pouco mais dedicado a reforçar os talentos do sujeito. Estou perfeitamente ciente de que para uma série da NBC, as mudanças de contexto histórico e aparência dos personagens seriam naturais. Porém, não há sentido em fazer um show sobre Manson se não for pra retratar a esfera verbal e sociológica da personalidade dele. Aquarius vai errar se quiser ser só um jogo de gato e rato… Isso poderia gerar uma série em qualquer contexto, não precisaria da história apoiando-a. O segundo episódio quase em formato de caso da semana me transtornou, de fato.

Em essência, estava tudo ali. A forma como ele se esgueirava pelos problemas parentais e fazia parecer que compreendia mais que qualquer um (quando na verdade há quase um padrão na forma como se sentem as vítimas dos mesmos dramas), a forma como ele fazia as mulheres proverem a família com comida e sexo, a forma como ele se tornava o propulsor de uma baixa autoestima e a forma como ele envolvia com uma membrana de sobrenaturalidade, parte de seus ditos. Até mesmo a canção de própria autoria que canta no episódio demonstra como ele sabia o que dizer e pra quem dizer:

Existe uma hora para viver

O tempo continua voando

Pense que você está amando, garota

Mas você está só chorando”

Infelizmente foi um piloto inconclusivo e um segundo episódio turvo. Dependeremos de mais semanas para saber o que Aquarius tem pra nos dar e se tem para nos dar. A sensação que tenho é que na busca por ser tantas coisas, a série pode acabar não conquistando nada.

Report: Há detalhes interessantes que conseguiram fazer algum diferencial nessa estreia. A boa trilha, o fundo social voltado para a guerra e também para os problemas raciais e a palavra pela qual parte da comunidade hippie se referia ao status burguês americano: PIG.

Report Plus: Há alguns registros de práticas homossexuais de Manson, mas duvido que ele tenha ficado feliz com essa atenção inesperada ao detalhe.

Report Extra Plus: A canção tocada por Charlie na série é mesmo composta pelo verdadeiro criminoso. O único álbum que Charlie conseguiu produzir foi feito enquanto ele estava na cadeia (uma demo gravada tempos antes foi usada) e virou uma raridade. O nome desse álbum é LIE.

Report Extra Large Plus: Katie e Sadie já foram citadas na série. Elas são duas das grandes assassinas do Helter Skelter. Porém, desconfio que serão reduzidas a coadjuvantes menores.

EM TEMPO: Os episódios restantes estarão disponíveis online. As reviews aparecerão semanalmente, seguindo a exibição da TV. Peço apenas que vocês evitem spoilers nos comentários, para bem geral da nossa pequena nação.

Artigo anteriorGame of Thrones | Informações vazadas indicam 12 novos personagens para a 6ª temporada
Próximo artigoAudiência USA – TV a Cabo: 15/05 a 28/05/2015