Um season finale que foi grande homenagem e celebração à série e aos seus fãs.
Parks and Recreation seguiu um momento de escalada de qualidade absurda de seu início até a quarta temporada. A série começou presa demais à fórmula de The Office e se esqueceu de estabelecer seu próprio universo. No entanto, na metade de seu segundo ano, Parks deu uma virada em seu texto e passou a criar e desenvolver a sua identidade, a sua mitologia e a história particular de cada um de seus personagens, culminando na incrível e basicamente perfeita terceira temporada, que foi seguida por um quarto ano ótimo. O ciclo seguinte foi decepcionante, deixando um gosto amargo na boca dos fãs da série e colocando na sexta temporada a responsabilidade de recuperar sua qualidade, encantar novamente o público e garantir sua existência por mais algum tempo. 22 episódios depois, posso dizer que, para mim, Parks se ergueu, tropeçou, reergueu ainda mais forte e entregou um final genial, que, de tão emocionante e empolgante, mais parecia um series finale.
Depois de passar o último arco narrativo, preparando o terreno para a virada na vida de seus personagens, o season finale duplo Movin Up Parts 1 e 2 representou o ápice de todas as tramas, não se restringindo a fechar arestas recentes de roteiro, como também fazendo rimas com plots lá do início da temporada. Diante de tanta coisa acontecendo, vale um elogio generoso ao roteiro, à direção, à montagem e às atuações dos episódios, que, ao invés de tonar o misto de tramas concorrentes em algo confuso, transformou os dois capítulos finais em uma grande concentração de amor e paixão pela série. E, assim, o primeiro personagem a encerrar seu ciclo foi Tom.
Apesar de consciente do risco de seu novo empreendimento, da sensibilidade dele a quaisquer problemas de operação em seu primeiro contato com os clientes e da falta de preparo técnica para atender ao público, Haverford optou por adiantar a noite de abertura do estabelecimento para aproveitar o Festival da Unidade. Tudo resultou em um grande desastre, coroado pela desistência de seu sócio em continuar investindo no empreendimento, deixando o personagem (e eu) angustiado pela possibilidade de ele retomar sua rotina de fracassos profissionais. Ledo engano. Após o Festival, mesmo com o urubu na forma de Dr. Saperstein zanzando pelo ambiente, tudo acabou dando certo, com o bistrô se tornando o point dos famosos presentes no evento e, claro, contando com as celebridades de Pawnee. Daqui para frente, fica a expectativa de vermos Tom administrando seu bistrô e, mais (e MELHOR), que este se torne um local para reunir o elenco. Sim, eu ficaria muito feliz em ver Tom’s Bi(strô) se tornar o Central Perk de Parks.
Quem também confirmou seu crescimento na temporada foi Ron Swanson. E, aqui, me deixem desabafar algo pelo qual torci por semanas: DUKE SILVER SAIU DO ARMÁRIO, MEU POVO!!! O personagem pode ter apoiado Leslie na hora de tomar, confortou um Tom derrotado, cuidou de sua família, mas, para mim, nada corou tanto sua humanização quanto ele sair, pisar, derrubar, tacar fogo, desintegrar o armário, chutar o balde e subir ao palco do Festival para fazer um solo de saxofone. Escrevo isso, porque o que motivou a exposição de seu ego músico foi o desejo de fazer suas filhas mais felizes e também ajudar Andy, provando e explicitando definitivamente que ele se importa com os amigos, mesmo que mantenha sua expressão e sua personalidade fechadas. O que nos resta agora é torcer para que Duke Silver entregue seu talento ao mundo e se torne o novo Kenny G.
Por outro lado, Ben usou a viagem à Chicago para pleitear wi-fi grátis para Pawnee, uma vez que a empresa Gryzzl estava com o projeto de implementar isso em várias cidades dos Estados Unidos. E, mais que uma oportunidade profissional, esse esforço de Ben também foi representação do seu crescimento ao longo da série. Saindo de um indivíduo cético e crítico à Pawnee, ao longo dos anos, vimos o personagem se apaixonar aos poucos por aquele universo louco e único. Dessa forma, conseguir a cobertura grátis da internet seria um gesto de carinho à cidade. Mas o mais empolgante desse plot foi o retorno de Cones of Dunshire (até hoje eu não entendi esse jogo, tenho que admitir que ele é nerd demais até para mim), que rendeu uma partida tensa e surreal que mostrou um lado confiante e um pouco arrogante de Ben. E, com isso, para a cultura geek e nerd, Pawnee se tornou a casa do Arquiteto.
April, Jerry e Donna também estavam lá marcando presença. Se houve algo interessante e coerente nessa sexta temporada para nossa psicopata creepy, foi a suavização de sua personalidade. Vimos ela dizer “Eu te amo” para Ann (apesar de que acredito que esse amor, na verdade, era um feitiço demoníaco contra a ex-grávida), se preocupar com Tom e até confortá-lo, sem contar sua parceria incondicional com o marido. Jerry/Larry continuou seu Modus Operandi de trapalhadas e humilhação e quebrou todas as taças do restaurante de Tom e, o melhor, ganhando seu novo nome: TERRY!!. Nossa, mas como eu ri em perceber que o futuro melhor amigo de Ben continuará o mesmo <3 E Donna continuou sua jornada rumo a profeta do novo século e, mesmo aparecendo pouco nos episódios, tacou o terror na cara de seu primo músico, ameaçando expor sua antiga paixão por um patinho de borracha para o mundo.
E, antes de chegar a Leslie e Andy, eu tenho que ressaltar o Festival da Unidade. Meu coração de fã se esperneou, empolgou e emocionou com toda a reunião de tudo que amo na série em um único local. Só espero que tenha restado um pouco de dinheiro para o salário dos atores, porque todo o orçamento da série foi embora no festival. Tivemos a participação de bandas reais, como The Decemberists, Letters of Cleo e Yo La Tengo (fazendo cosplay de banda cristã), muitos figurantes e até efeitos especiais. Mas nada superou ou foi tão maravilhoso quanto Andy, Mouse Rat e todos os outros músicos, incluindo Duke Silver, cantando o tributo a Lil’ Sebastian. E você sabe o quanto você é apegado a uma série quando você fica com um aperto no coração e levanta os braços ao som do tributo ao maior e mais lendário animal que passou por esse mundo de Jah.
E, já que falei nele, todos glorificam a ascensão surreal de Andy na reta final da temporada. Desde que o personagem se encontrou profissionalmente como Johnny Karate, o roteiro e Chris Pratt transformaram até mesmo as menores das ações de Andy em uma belo trampolim para o humor. E, diante do apego que criei por ele nos últimos episódios, eu realmente entendi e senti o vazio do personagem em não seguir com sua banda, cantando para crianças (o que ele ama) e se distanciando do seu sonho de ser um astro do rock. Assim, um dos momentos mais “coração na mão” do episódio foi o olhar angustiado, triste e sedento de Andy segundos antes de subir ao palco para liderar o tributo ao Lil’ Sebastian. E, como Chris Pratt consegue ser tão cretino quanto os roteiristas, ficou fazendo malabarismos vocais exibicionistas durante a performance.
Por último, chegamos a nossa amada protagonista, que estava com o coração divido entre sua cidade natal e a maior oportunidade de sua carreira. Seu esforço desesperado em conseguir alguém para acompanhá-lo em sua ida para Chicago foi triste de ver e, por alguns momentos, eu realmente acreditei que ela fosse se mudar e deixar seu passado e seus amigos para trás. No entanto, Knope é destruidora e montou um plano para trazer seu trabalho de Chicago para Pawnee e eu aplaudo muito a inteligência da personagem, pois, de fato, logisticamente, era o cenário mais benéfico para solucionar todos os problemas de todas as vertentes envolvidas na questão. E aqui eu preciso destacar a melhor piada do finale, que me fez pausar o episódio, beber água e respirar um bocado de tão intensa que foi a crise de riso: Leslie encontrando Michelle Obama. Meu povo, QUE É QUE FOI AQUILO?? Knope teve um misto de orgasmo, susto, derrame e infarto.
Mas, antes de encerrar as trabalhos dessa temporada, eu preciso destacar outros dois pontos do finale. O primeiro foi outro rombo no orçamento da série ao trazer praticamente todos os seus personagens emblemáticos de volta. Eu tive um mini infarto a cada minuto de tela com Joan Callamezzo (drogada louca) fazendo a dança do acasalamento com Jean-Ralphio, com Monalisa invocando um sexo a quatro (com o irmão incluso) ao entrar na sala para discutir a estratégia de divulgação do Tom’s Bi(strô), Perd Hapley pedindo um copo vazio no restaurante, Tammy 2 fenômeno demoníaco da natureza erotizando o universo com seus dedos na boca, Conselheiro Jamm divulgando o Festival da Secessão, Dr. Sperstein urubuzando a vida de Tom, Barney tendo seu coração partido novamente por Ben recusando trabalhar em sua empresa de novo (MELDELS, QUE SUSTO E CRISE DE RISO EU TIVE QUANDO ELE APARECEU DO NADA) e John Hamm fazendo o empregado incompetente e lesado de Knope no futuro.
E o segundo ponto: aquele pulo de três anos no tempo. Mas que cena rápida, engraçada e assustadoramente empolgante, hein? Leslie toda profissional e durona gritando com todos, demitindo Ed, entregando o novo nome de Jerry/Larry/Terry, deixando seus filhos ( <3 ) com tio Andy e tia April e seguindo com Ben para algum evento, alguma coisa que representaria um desafio. Eu não sei se a próxima (e provável última) temporada da série será rodada em 2017, mas, se for, eu ficarei muito feliz, porque esse flashfoward-a-la-Lost evitaria que a série caísse em repetições de tramas, temas e pulasse para novos rumos agilmente e de forma coerente.
E é isso: Parks só daqui a alguns meses. Meu coração de fã terminou o episódio em posição fetal de tristeza em perceber que a série de fato está acabando. Esse season finale poderia ter sido um series finale, então não há prenúncio maior de que o fim está chegando. Mas, mais que tudo, eu fiquei feliz demais com esse final, que deixou a série em alta com o público e com a crítica e atiçou a curiosidade e a ansiedade de todos para os rumos a serem seguidos daqui para frente. Até a próxima!
P.S.: Para quem ainda não viu Ron Swanson cantando o tributo a Lil’ Sebastian.
P.S.: Bela sacada: resgataram brevemente a contrariedade de Ben (traíra) em embarcar na devoção à Lil’ Sebastian.
P.S.: Andy e April querendo se divorciar para poder se casar de novo e comemorando o divórcio, ó, só <33
















