Quando eu fui uma jurada.

Quero tentar explicar tudo que assisti sem spoilers, mas acredito ser inevitável. Dito isso, peço desculpas, não leia caso você ainda queira assistir a esse documentário. Se já assistiu, se junte a mim, nesse pequeno tribunal, para tentar entender toda a dinâmica que aconteceu nesses anos.

Antes de iniciar uma linha sobre o documentário original da Netflix, quero contar algo que um promotor disse pra mim quando era uma mera estagiária. Ele disse que a pena de prisão perpétua e pena de morte no Brasil nunca iriam dar certo. Por quê? Por conta do sistema judiciário brasileiro, a sua falta de materiais e recursos e, principalmente, por erros que acontecem. Inocentes poderiam ser condenados por crimes que nunca cometeram. Ao acompanhar Making a Murderer, essa lembrança veio à tona. Sei que são dois sistemas e leis, americano e brasileiro, mas essa produção caiu como uma luva para quem acredita que os Estados Unidos possui o melhor judiciário do mundo, o mais confiável.

Escrevo esse off-topic assim que terminei os 10 episódios e fiquei uns dois minutos refletindo sobre o que assisti, mas, principalmente, sobre o que senti. O sentimento mais presente foi a revolta. Essa inquietação vai durar por um tempo e, talvez, eu passe boa parte da minha vida tentando descobrir o que aconteceu com Steven Avery e Brendan Dassey.

Não sei exatamente o motivo de a Netflix fazer parte dessa produção. A minha torcida é que essa divulgação ajude Steven e Brendan a conseguirem justiça. Sim, eu, como telespectadora, acredito que ambos são inocentes da morte de Teresa Halbach. Tudo aponta para um conchavo da polícia do condado de Manitowoc em culpar os dois, que são parentes, e em nenhum momento procurar por outros suspeitos.

Esse caso, Avery vs. Manitowoc, teve início em 1985. Steven foi acusado aos 32 anos de idade por abuso sexual. A grande questão é: ele era inocente, mas ninguém investigou corretamente. A vítima foi induzida a acreditar que Avery era o culpado. Nem xerife e, muito menos o promotor do caso, queriam encontrar a pessoa certa. Daquele momento em diante, Steven foi pego para cristo e condenado por um crime que não cometeu. Ficou preso por 18 anos quando, enfim, um exame de DNA o inocentou de todas as acusações. A partir daí, começa a luta para provar que a polícia sabia de sua inocência, mas o quis como culpado de qualquer forma.

Quem dera se o documentário fosse apenas sobre esse crime e o seu desenrolar. A sorte nunca foi amiga de Steven Avery e ele, mais uma vez, foi acusado de outro crime: homicídio, esquartejamento e estupro. Crime que o considero inocente depois da minha maratona incessante. Teresa Halbach foi morta e sofreu horrores, um crime violento, isso é fato, mas todas as evidências apresentadas eram falhas, existiam buracos na história e sem falar da pergunta que a promotoria nunca conseguiu responder: onde estão as evidências de que Teresa foi morta na garagem e estuprada na residência de Avery?

Me senti uma jurada de um caso estranho, na falta de outra palavra. Enquanto a promotoria mostrava a autoria de Steven Avery, a defesa conseguia desconstruir qualquer depoimento. É claro, não sou advogada, nem estudante, muito menos profunda conhecedora do Direito – sou formada na escola Law & Order e The Good Wife da vida – mas ficava claro o quanto o julgamento não tinha, ao meu ver, base legal.

Depoimentos contraditórios, provas contaminadas, provas encontradas depois de longo período de tempo, autoridades do primeiro caso – de 1985 -, a frente ou envolvidas com o segundo caso, conflitos de interesse – a polícia de Manitowoc estava sendo processada por Steven quando começou a investigar seu envolvimento no homicídio de Teresa – foram fatos que, claramente, mostram o quanto Steven era alvo, sempre foi, como da última vez. Novamente, nenhuma outra pessoa foi levantada como suspeito do crime.

Mas o que me chocou de verdade foi o tratamento com Brendan Dassey. Um adolescente, de 16 anos a época, que claramente não era muito esperto, acusado de ser cúmplice do crime. Todas as gravações mostradas ao longo do documentário deixam bem claro o quanto Dassey foi coagido a fazer uma confissão. E, é inacreditável, que ninguém – juiz e jurados – conseguiram perceber que nada de seu depoimento é verdadeiro.

Chega a ser injusto que os dois ainda estejam presos e sem chance nenhuma de conseguirem um outro julgamento. Na verdade, talvez esse documentário os ajude para enfim, conseguirem sua liberdade. Acredito que depois dessa publicidade os olhos da justiça americana voltem a enxergar e, perceber, que a vida de dois inocentes foram destruídas por policiais sedentos por vingança e em mostrar serviço.

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