Na última quarta-feira 2, chegou ao fim a temporada de estreia da série Mr. Robot, nova série do canal USA, que teve uma recepção extremamente positiva e foi renovada para uma 2ª temporada antes mesmo de sua estreia oficial, em razão da excelente repercussão do episódio piloto, que foi previamente disponibilizado em plataformas online.
Com uma abordagem inovadora, críticas à sociedade moderna e inúmeras referências a filmes, a série ambientada no universo hacker e estrelada por Rami Malek e Christian Slater, tornou-se a queridinha dos série maníacos nesta summer season. Mais do que isso, tornou-se também a primeira e única série a obter uma ‘temporada perfeita’ no site Rotten Tomatoes.
Esta semana, o episódio final da 1ª temporada terminou com a conclusão do ataque cibernético planejado por Elliot e sua fsociety, uma cena pós-créditos bastante reveladora e inúmeras perguntas a serem respondidas na próxima temporada. Sam Esmail, criador e produtor executivo da série (e também o noivo da atriz Emmy Rossum de Shameless), conversou com diversos sites sobre a concepção de Mr. Robot, suas reviravoltas, as influências do filme Clube da Luta, as perguntas que o season finale deixou em aberto e o que esperar da próxima temporada.
Ele comenta que inicialmente o drama foi concebido como um filme e, se na série a grande reviravolta sobre a identidade de Mr. Robot foi a grande revelação para o encerramento da 1ª temporada, no filme isso seria a estrutura básica da história. “Eu comparo a Matrix. Se você lembrar, o marketing do filme era ‘O que é Matrix?’ e quando você assistia o filme, você era informado sobre o que era Matrix nos primeiros 30 minutos e então o filme tratava-se disso. Era ‘Ok, agora que você sabe isso, vamos entrar nele. Vamos contar essa história.’ E Mr Robot sempre foi sobre isso. A primeira temporada foi uma grande construção sobre o que a verdadeira história irá abordar daqui para frente.”
Esmail queria contar a história de um rapaz que ao mesmo tempo em que descobria ser portador de um transtorno dissociativo de personalidade, estabelecia um plano completamente louco. Para o criador da série, a 1ª temporada encerra apenas o primeiro arco da sua história.
Sobre a grande revelação envolvendo a identidade/realidade de Mr. Robot e a pergunta que Elliot fez ao público no penúltimo episódio, ‘Você sabia o tempo todo, não sabia?’, Esmail confirma que eles não apenas previram que o público iria captar a dinâmica Elliot/Mr. Robot, como basicamente eles estiverem, por toda a temporada, deixando isso bem claro ainda que discretamente. “Para mim, tratou-se da empatia do público com Elliot estando dentro da mentalidade dele. Este foi um dos meus maiores objetivos para a 1ª temporada, você estar dentro de seu cérebro de forma que quando a revelação aconteceu, não tinha nada a ver com você estar em choque. Tinha a ver com você estar no lugar de Elliot quando ele finalmente percebe o que está acontecendo e como a emoção que ele sente naquele momento ressoa em você.”
Esmail fala que muitas pessoas queriam uma revelação chocante na série e que talvez a descoberta sobre Darlene ser a irmã de Elliot os tenha satisfeito nessa questão, mas enfatiza que para ele, a revelação sobre Mr. Robot era estritamente sobre o alinhamento de Elliot com o público e que agora sim poderemos lidar com as consequências disto.
Em relação ao season finale, Esmail comenta que esse foi o primeiro episódio em que tanto o público quanto Elliot estavam cientes que Mr. Robot é o alter ego do hacker, ‘uma espécie de demônio que vive em Elliot e a causa de Elliot ser incapaz de explicar todas suas ações.’
Segundo ele, este é apenas o início do que está por vir na próxima temporada. “Não vamos esquecer que no episódio 9, Darlene menciona que foi ele quem criou a fsociety com ela. Algo que nem nós nem Elliot estávamos cientes até então. Há isso para explorar. Agora estão ficaram faltando três dias. O que aconteceu nesses três dias? Onde está Tyrell? Qual foi o acordo entre Elliot e Tyrell que permitiu que o hackeamento prosseguisse? Todas essas perguntas são muito interessantes para a 2ª temporada. Uma das coisas que amo sobre esse finale é que ele essencialmente aponta para onde iremos e, em cima disso, muda a direção da nossa história. Agora não é mais sobre esse mistério interno que Elliot estava tentando resolver. Ele está ciente do que está acontecendo dentro dele e isso está escapando. Como ele vai lidar com isso?”
Esmail garante que o personagem de Christian Slater estará ainda mais presente na 2ª temporada e que toda a luta de Elliot contra seu transtorno de personalidade e ‘seus demônios’ é algo que eles explorarão por toda a série, não apenas na próxima temporada. Ele também comenta sobre a cena na qual vimos Elliot confrontando o Mr. Robot, quando na verdade ele estava enforcando a si mesmo contra a parede de um restaurante. “Quero começar a despir um pouco a subjetividade do mundo de Elliot, dando-nos vislumbres de como seria uma visão objetiva dessa história, ainda que sejam fatias dessa realidade. Mas não se esqueça, isto ainda é contado pelo olhar de Elliot, então começamos a descobrir essas realidades objetivas junto com ele. Quando Mr Robot fala ‘Isso é um pouco estranho’, é Elliot meio que compreendendo que está fazendo aquilo contra si mesmo.”
Ainda sobre a próxima temporada, Esmail acredita que eles irão abordar toda a história da fsociety e o que aconteceu nos fatídicos três dias que Elliot não se recorda. “Nós ainda nem rachamos a superfície do seu passado. E as sessões de terapia indicadas pelo tribunal? Qual a história familiar para tudo isso? Porque Darlene ajudou Elliot a criar a fsociety? Há toda uma história de fundo. Indo ainda mais atrás, temos sua infância e o relacionamento com seu pai. Sem falar de sua mãe.”.
Na season finale tivemos, através de Angela, a perspectiva do que acontecia dentro da Evil Corp e isso também é algo que aparecerá ainda mais na 2ª temporada. Esmail comenta sobre o interessante paralelo que existe entre a personagem de Portia Doubleday e o Elliot de Rami Malek. Enquanto Angela está abraçando o caminho mais tradicional do sonho americano, trabalhando duro para conseguir bons empregos e promoções e convicta de que as mudanças devem ser feitas com princípios, éticas e no ‘interior do sistema’, Elliot quer promover mudanças estando ‘fora do sistema’.
Sobre a sequência pós-créditos que encerrou o season finale, Esmail comenta que sempre a imaginou como a última cena da temporada, mas achava difícil conceber isso pois a história era sobre Elliot. “Entramos nesse mundo com ele e eu queria terminar com ele. É através dos olhos deles que vemos tudo. Eu não poderia justificar que a cena do último episódio fosse entre esses dois personagens que não conhecemos muito bem, ainda mais porque eles não eram o Elliot. Conciliando tudo isso, pensei em colocar a cena após os créditos. Na verdade, foi a solução perfeita, porque foi como um epílogo. Ele está lá para preparar a 2ª temporada.”
Esmail conta que quando falou dessa sua ideia ao USA, eles inicialmente também pensaram ‘Você não pode terminar a temporada com White Rose. Você tem que terminar no Elliot’. Mas quando compreenderam que a cena viria após os créditos, ficaram tão empolgados quanto ele. “Eu disse: ‘Nem sei se isso é possível’, e o USA, que tem sido tão favorável todo esse tempo, falou que iriam resolver isso e o fizeram”.
E tal como colocado no diálogo entre White Rose e Philip Price na cena final, Esmail define o caos que a fsociety instaurou como ‘Estamos prestes a ver Roma queimar’ e é nesse mundo que Elliot estará na 2ª temporada. Aliás, Esmail é só elogios ao ator BD Wong, o intérprete de White Rose.
“BD Wong é um dos meus atores preferidos e sempre sonhei em trabalhar com ele. Felizmente ele adora a série. Se tenho algo a dizer é que definitivamente veremos mais dele, com certeza.”
A cena em que ele e Elliot negociam no 8º episódio é um das preferidas de Esmail. “Tudo o que BD e Rami fizeram naquela cena a elevaram e a tornaram dez vezes melhor do que qualquer coisa que eu tenha imaginado em minha cabeça.” Outra cena que ele cita entre suas favoritas é a do cemitério, em que Elliot percebe que Mr. Robot está realmente morto.
Sobre o desaparecimento de Tyrell, Esmail preferiu não tecer comentários para evitar spoilers. Da mesma forma, não respondeu quem foi afinal que bateu na porta do apartamento de Elliot na última cena antes dos créditos. “Introduzimos várias possibilidades no episódio que podem responder essa pergunta. O fato do público poder teorizar e colocar quem quiser atrás daquela porta é a parte divertida para mim.”
Esmail também comenta sobre as inspirações que usou para compor a série, especialmente o filme Clube da Luta. “Eu ‘roubo’ de cada filme e programa de TV que já vi em minha vida. Sou um nerd de filmes. É o que fazia enquanto crescia. Além de estar no computador, eu estava assistindo TV e filmes. Não tenho qualquer reserva. Clube da Luta foi uma das minhas maiores inspirações para a série. Acho que o reconhecimento com ‘Where is My Mind’ no final do episódio 9, foi em parte, sim, deixar o público saber que estamos muito conscientes que Clube da Luta foi uma inspiração, mas ao mesmo tempo, não pedimos desculpas por isso.”
Esmail admite que essa escolha corajosa abriu um precedente para a série ser criticada por ser uma derivação, mas este foi um desafio que ele aceitou. “Acredito que somos incrivelmente originais, a despeito do fato de pegarmos tantas coisas emprestadas de Psicopata Americano, Taxi Driver e Laranja Mecânica. E a lista continua.”
Para ele os filmes e séries da televisão são construídos uns em cima dos outros, evoluindo como uma consequência de tudo que os precedeu. E não há porque evitar usar algo com a desculpa de que ‘isso já foi usado antes’.
Recordando-se do passado, antes da estreia da série, Esmail conta que tinha esperanças apenas de ‘sobreviver’ e que já ficaria feliz se a série ganhasse um status de cult. As maiores preocupações eram com um possível excesso de voiceover e de termos técnicos muito específicos. Atualmente ele tem consciência da enorme repercussão positiva que a série alcançou e de como as pessoas ficam ávidas para comentá-la. “É interessante ver as pessoas realmente engajadas e empolgadas para falarem sobre o show. Isso é o que amo na televisão ou nos filmes: após terminar de assistir você corre para conversar com seus amigos sobre todos os detalhes. O fato de termos alcançado esse nível de engajamento é muito animador.”
Em relação ao futuro de Mr. Robot, Esmail acredita que a série definitivamente não deve ultrapassar cinco temporadas. Ele já tem um final em mente e vem escrevendo a história em direção a esse fim, ressaltando que não deseja que a série siga em frente interminavelmente até que a audiência caia e o programa seja cancelado. Para ele, sua narrativa tem um propósito e eles estão caminhando em direção a um final claro.















