Não basta conhecer, é preciso intervir.

Asterion é um episódio importantíssimo e que pode perfeitamente ser considerado um divisor de águas nesta segunda temporada de Masters of Sex. Se por um lado, o sétimo episódio demarca o início da metade final, por outro a trama ingressa em um novo estágio: Masters e Johnson trabalhando em uma clínica independente.

Tal passagem teria tudo para ser executada de forma abrupta, mas a fluidez da série tem sido virtualmente impecável! Inclusive, pelo salutar uso de quebras de linearidade e passagem de tempo. Através delas, ficamos sabendo que Bill decidiu arriscar e se vestir de vez do espírito empreendedor (teoricamente tão avesso à sua personalidade sistemática e defensiva): foi ao banco pedir um empréstimo para montar sua clínica particular – e com as receitas da mesma, financiar o estudo.

Para o staff do estudo, tivemos o retorno do cinegrafista Lester (após tentar a sorte em Hollywood e levar um pé-na-bunda de Jane, retorna à inglória posição de filmar masturbadores e derivados), além de Betty (separada de Gene e na importante função de administradora das finanças). Chega de salas apertadas. Agora, “nosso” estudo ocupa uma galeria comercial, sublocando para alguns interessantes inquilinos: Flo Parker, a gorducha gerente de vendas do palpitante Cal-O-Maletric; uma agência de modelos e o escritório da Comissão da Igualdade Racial, movimento pelos direitos civis.

Se na temporada passada, Virginia foi certamente o grande destaque, surpreendendo-nos com toda sua força interior e exuberância, para mim, Bill tem sido o nome da temporada. Não que eu esteja hierarquizando performances. O que quero dizer é que o personagem de Michael Sheen é aquele que tem sido responsável pelos “pontos-G” da trama este ano, desnudando (com trocadilho!) todas as dobras do impassível Masters – o qual não só está com suas fragilidades mais expostas, como também se deixa afetar, vibra, pulsa, reage com mais vigor (e inclusive, permite-se a novos hábitos, como lançar mão dos serviços das profissas do sexo de St. Louis – sem grande sucesso!!!). Seguramente, é o personagem com maior desenvolvimento.

Em Asterion, Bill deixou explícito [até com doses de vilania, como naquele diálogo na festa em que profere as palavras de submissão que exigia ouvir de Virginia] o quanto foi afetado por ciúmes dos namoros de Virginia [sim, no plural, já que aqui soubemos que Shelley não passava de “mais um” dentre vários]. Belíssimos diálogos entre ambos. Belíssima a sensatez e franqueza de Virginia em entender perfeitamente os motivos de Bill e reivindicar um pouco de justiça na relação entre ambos, nessa que (como defini anteriormente) é um romance-carnal-platônico: Bill tem alguém para quem voltar, enquanto Virginia está desguarnecida neste sentido. Tão claro e cristalino, quanto só a paixão pode ser capaz de não enxergar!

Ponteiros acertados, afinal, e eles voltam a frequentar as dependências do suntuoso Park Plaza Hotel. Aliás, a imagem que deveria justamente ilustrar esta review era aquele primor de quadro com o corpo nu de Virginia ao lado do corpo impavidamente vestido de Bill [após um intercurso em que ele se propôs a disfarçar sua impotência e satisfazê-la apenas com língua e toque]. Mas este é um blog de (algum) respeito e minha cabeça estaria a prêmio se eu deixasse a nudez de Lizzy Caplan assim tão [NSFW #sqn] por aí…

Além disso, diante das lamúrias de Libby demandando mais filhos, Michael Sheen dosou magistralmente a sutileza e a tensão ao dar voz ao inconsciente de Masters: para Bill, satisfazer Libby nesta – e em tantas outras – matérias significa exatamente privar-se de satisfazer a si próprio e abrir mão de seus interesses. Não há verdade mais inequívoca que esta: os interesses de Libby e Bill são completamente opostos, pois o que um deseja vai contra a aspiração do outro, de forma radical.  

2×08: Mirror, Mirror

Barbara Sanders enfim disse a que veio. A opaca e desenxabida secremante [secretária feat. amante] de Doug Greathouse procura Virginia para abrir o coração e confessar que “sua pepeca é trancada”, impenetrável. Isto mesmo! Barbara sofre de vaginismo (disfunção sexual em que não ocorre nenhum processo de relaxamento e dilatação do canal vaginal que possibilite a penetração).

Esta é a senha para que Virginia volte os olhos para os casos de participantes descartados da amostra por apresentarem disfunções semelhantes: impotência, ejaculação precoce, dispaurenia [sensações extremas de dor durante o sexo]. Esta é uma inflexão importante em nossa trama, já que um dos grandes fatores do sucesso da dupla Masters & Johnson nos Estados Unidos se deveu pelos métodos de tratamento de disfunções sexuais.

Enquanto Virginia se interessa pelas histórias de vida dos pacientes e por entender as experiências de cunho mental que podem explicar suas dificuldades de sentir prazer como a maioria (conformando seu interesse que mais tarde a levará a enfim graduar-se – como psicóloga), Bill permanece funcionalista – preocupando-se tão somente com elaboração de métodos de tratamento.

Diferentemente da intensidade de Asterion, Mirror, Mirror possui outro tom, aprofundando-se no drama de Barbara (e na sua bizarra história de incesto), bem como introduzindo a dificuldade de Frank Mason/Holden de engravidar sua esposa. O companheiro/irmão de Masters chega, suscitando aquela sua reatividade habitual contra tudo que lhe remete ao passado sofrido.

Já Libby entra em contato novamente com a diversidade racial, que tanto lhe intriga. Torna a encontrar o irmão de Carol, com quem mantém conversações fortuitas, marcadas pelo sentimento de exotique que aqui demonstrou-se caminhar para uma atitude mais engajada com a problemática do racismo. Tenho para mim que isso vai é acabar com os dois na cama e tão merecido aguardado chifre de Masters virá por aí. Será?

Últimas palavras para registrar apenas que o Dr. Austin é um personagem sem expressão alguma e cuja história está completamente avulsa. À parte a metáfora da mentalidade masculina tipicamente womanizer dos anos 50/60, Austin não vai a lugar nenhum e sua experiência de estar perdido na solteirice é uma metáfora da condição do personagem na trama.

Artigo anterior[Flashback] The Wire 1×07: One Arrest
Próximo artigoAs novidades da NBC para a Fall-Season 2014