O fim de um dos melhores roteiros da história da televisão.
Anthony Newley e Leslie Bricusse diziam, em sua canção “Feeling Good” (gravada por uma infinidade de artistas), “It’s a new dawn, it’s a new day, it’s new life for me, and I’m feeling good”. A referida música trata de renascimento, da possibilidade de se sentir bem após um longo inverno. Acima de tudo, afirma, nas entrelinhas, que recomeçar não significa necessariamente recolher cacos e viver uma vida remendada, mas a possibilidade de encontrar a felicidade nunca alcançada. Essa visão reflete com perfeição o que Person to Person prepara para Don Draper, em um episódio que encerra de forma brilhante a jornada de uma das mais inspiradas criações da televisão.
Mas como encerrar uma obra que se caracterizou por seus diálogos orgânicos, sua maneira cadenciada de conduzir uma história – injustamente classificada como lenta por alguns – e seu enorme cuidado por seus personagens? Seria simples para Matthew Weiner apelar para algumas tragédias pessoais, matar Don com uma overdose, procurar chocar seus espectador de todas as maneiras possíveis. Mad Men não é assim. Ser explosiva nesse momento seria ir contra todos os conceitos que criou ao longo dos anos. Afinal, embora sejam do mesmo canal e contemporâneas, Mad Men e Breaking Bad possuem características narrativas completamente distintas. Seria uma afronta se terminassem da mesma forma.
Não. Mad Men precisa demais de seus personagens. De todos eles. É por isso que nunca os abandona para focar-se exclusivamente em Don. A começar por Joan, que não vimos em The Milk and Honey Rout. Ela, sempre decidida a fazer o que quer, e praticamente expulsa da McCann Ericsson, tem um final um pouco diferente do que a série ameaçou em Lost Horizon. É gratificante vê-la ignorando uma vida fácil e cheia de mimos e abandonando um homem aparentemente bom para voltar aos negócios e prosseguir com seu único objetivo de vida: ser independente. Note que isso não significa ser rica, mas simplesmente ganhar o mundo com seus próprios talentos. Por isso, seu diálogo com Richard, logo antes de atender ao telefonema que decreta o fim de seu relacionamento, é excepcional, traduzindo exatamente o que Weiner pretende para Joan.
Curiosamente, esse destino final atravessa o caminho de Peggy. Aliás, Person to Person a trata de maneira extremamente cuidadosa. É verdade que Joan e ela tiveram suas diferenças, mas Mad Men utiliza a ruiva para escancarar o enorme talento de Peggy, como se nos informasse de que ela poderia escolher seu destino. Um em que seria sócia de sua própria empresa, independente de qualquer chefe ou homem que pudesse mandar nela. A alternativa, desconhecida inicialmente por ela, seria permanecer onde está e buscar sua verdadeira felicidade. Seu mentor, Don Draper, certamente escolheria a primeira em seus tempos áureos. Por esse motivo a escolha de Peggy é a oposta, encontrando o amor em seu melhor amigo, depois de lutar por anos contra uma ausência completa do sentimento.
Sentimento que está mais do que presente entre Sally e Betty. Comentei da aproximação entre as duas após as péssimas notícias em Lost Horizon, mas em Person to Person esse conceito se intensifica. Sempre a vimos como uma versão infantil de Don, e sua teimosia e obstinação continuam comprovando essa tese, mas sua atitude ao retornar ao lar para os últimos momentos de sua mãe, além do fato de tomar conta do irmão, transformam enfim a garota no produto de dois seres humanos que se completam, para o bem e para o mal. A icônica cena que encerra a participação dela, em que Sally, vestida tal como Betty, lava louças enquanto a mãe, sentada, fuma mais um dos produtos que destruíram sua vida, é o mais claro exemplo disso.
Dessa forma, Mad Men encerra as histórias de três mulheres presentes na vida de Don. Em Severance, Ted Chaough (que pena não podermos ver seu final) afirma a ele que “Existem três mulheres na vida de um homem”. Partindo dessa premissa, Person to Person começa a encerrar a história de seu protagonista, através de telefonemas cruciais. O primeiro é para Sally, quando a alegria de andar a mais de 1000 km/h sucumbe diante do fato de sua primeira mulher estar às portas da morte. Ali, note como a libertação que vimos nos instantes finais de Lost Horizon e em The Milk and Honey Route parece perder toda a sua base.
Logo depois, o vemos ligando para Betty. Novamente, a interação entre os dois se torna uma dos momentos mais belos da série. Tudo nessa cena é sublime, a começar pela forma como Weiner posiciona os dois na tela em lados opostos, sugerindo a cumplicidade e a completude que o casal representa. Além disso, o diálogo, seco e de poucas palavras, é extremamente capaz de transmitir a mensagem de enorme tristeza que ambos sentem. Vemos Don chamar Betty de Birdie de novo, e a vemos saber o que o ex-marido sente sem esse precisar proferir uma só palavra.
A liberdade de Don Draper acabou. Não por acaso, sucumbe novamente ao álcool. Mais do que isso, retorna a Los Angeles para de novo se reencontrar com Dick Whitman. Mas ele não tem mais Anna Draper para recebê-lo. Tem Stephanie. Ou será que não? A simpática garota faz o que pode, mas não pode dar ao amigo o que ele precisa. Ora, o que esse homem representa para ela? E Don, incapaz de lidar com pessoas de forma normal, obviamente recorre ao dinheiro para tentar conquistá-la. O resultado? Mais uma vez, Don/Dick está sozinho.
É nesse momento que ele procura a terceira mulher. Enquanto Sally é sua família e Betty é seu amor, Peggy Olson é o mais próximo de um porto seguro que Don jamais chegara (como não se lembrar de The Suitcase?). Sua ligação é recebida com enorme desespero por parte dela, e o que encontra é um Don completamente vazio de esperanças. Sua vida em New York é uma mentira, assim como tudo que construiu. Sua tentativa de reencontrar seu passado não fora nada além de um grande fracasso. Ele não tem onde morar, não tem sua família. Mas Peggy é a única que tenta trazê-lo para casa. Aliás, não é por acaso que ela chega a usar essa palavra por duas vezes. Mesmo assim, o diálogo não passa de uma estranha tentativa de adeus.
Até que um ser humano aleatório traduz todo o sentimento de Don. Pobre Leonard, ignorado por sua família e colegas. Mas ouvido por um homem que sempre olhara a todos de cima para baixo. Mas que nunca foi capaz de compreender sua própria história. A narrativa de seu sonho é semelhante à forma com a qual Don conta suas ideias para propagandas. Vemos isso em Lost Horizon, mas lá aquilo significa o fim da estrada. Aqui, pelo contrário, é a luz no fim do túnel. Nesse momento, vemos Don Draper pela primeira vez se entregar ao que sente, e dar início a seu recomeço, nos braços de uma pessoa completamente desconhecida.
Isso dá origem a um novo Don. Sentado, em cores claras, embaixo de luz solar. E descalço, o que sugere a pureza de seu espírito. Ali ele pode finalmente dedicar-se a si mesmo. Sem cigarros, sem whiskies, sem mulheres. Apenas a dedicação a um novo homem. Não é por acaso que ele, livre de tudo que o perturbada, sorri.
O que poderia facilmente ser o fim de Mad Men. Mas não é. Os segundos a mais que Weiner coloca em Person to Person transformam o que já era genial em algo inspirador. Ao invés de simplesmente encerrar sua criação com um momento catártico, ele abre os horizontes para o destino de Don, da mesma forma que o mesmo abrira sua mente no retiro que mudou sua vida. Retiro este que dá lugar a um dos mais famosos comerciais da Coca-Cola, “Buy the World a Coke”. A julgar pela natureza dos personagens envolvidos no comercial, é compreensível que Don, após sua redescoberta, retorna à McCann Ericsson para criar esses fantásticos segundos de propaganda. Aliás, não é por acaso que, ao tentar convencer seu ex-chefe a retornar, Peggy menciona a possibilidade de trabalho com a Coca-Cola. Isso também nos ajuda a compreender a abertura da série, que sempre mostrou a queda de um homem diante de seus trabalhos, em direção à morte. O final, no entanto, mostra repentinamente um homem sentado e relaxado, o que Don passa a ser após sua jornada de altos e baixos.
O que é fantástico nisso tudo é que Weiner não precisa mostrar isso acontecendo explicitamente. Tudo que ele precisa é deixar na imaginação do espectador a sensação de que esse é o destino de seu protagonista. Assim, ele não só evita um momento piegas de retorno ao seu emprego como cria um desfecho memorável que exercita a imaginação de seu público.
Diante da obra de arte que é esse series finale, não posso deixar de dizer: Adeus, Mad Men. Muito obrigado por tudo. Descanse em paz como a obra-prima da televisão que você é.






















