Será que estamos prontos para nos despedir de Looking?

Essa era a pergunta que martelava em minha mente ao longo de todo o incrível series finale da série (que, obviamente, não foi concebido como series finale, mas os deuses da dramaturgia LGBT assim decidiram). Era uma pergunta muito forte quando a renovação da série ainda era uma incógnita para nós, quando não sabíamos, de fato, se o que havíamos acabado de assistir era o fim ou apenas uma preparação para um novo começo. No fim das contas, acabou sendo um pouco das duas coisas.

Looking for Home começa com um Paddy levemente perdido em seu novo lar, o prédio gay-friendly escolhido por ele e Kevin. Assim que avistei a bicha má dançarina de Smash surgindo no horizonte para ajudar o protagonista a abrir a porta, soube instantaneamente que coisa boa não estava por vir. Pra mim, só a presença desse ator já instaurou todo o clima do episódio, clima que começa com o discreto desconforto de Patrick chegando até explodir completamente quando o protagonista percebe o tamanho do erro que cometeu.

É curioso como o próprio prédio parece estar contra Paddy. A sensação de clausura e de ausência de pertencimento está em todos os detalhes: na porta principal, no elevador, no convite para a festa, no fato de todos os integrantes dessa festa só estarem flertando com Kevin. Tudo indica a Paddy que ele, de fato, não deveria estar ali, que ele não pertence àquele lugar. Kevin, por outro lado, parece extremamente à vontade, quase como em um habitat natural. É ali que ele quer estar, não em um evento beneficente de um amigo latino do namorado.

Falando em latinidade, vou voltar a um tema polêmico, mas extremamente necessário: é curiosíssimo o modo como a série faz questão de estabelecer a sensação de “elite gay branca” naquele prédio e naquela festa. Paddy, sendo branco, não precisaria necessariamente estranhar a homogeneidade, mas ele pontua isso explicitamente, primeiro porque está acostumado a lidar com diversidade étnica em seu círculo (Richie, Agustín, Owen, Malik), segundo porque NÓS precisávamos saber disso. É interessante como Looking tenta se posicionar contra tudo o que é tradicional e dominante – porque, sim, mesmo dentro da comunidade LGBT, ainda há uma esfera dominante privilegiada. Discretamente, seja por meio da magnífica Dana Murray, seja numa festa que geneticamente Hitler teria amado – antes de perceber que ela só tinha membros daquela que era considerada a classe mais baixa de prisioneiros de campos de concentração nazistas -, Looking provoca o tradicionalismo. Natural, visto que esse é considerado pelo senso comum como o principal “inimigo” dos gays.

Eu só visualizei a cara de Richie caso soubesse onde Paddy havia se metido: em um grupo de gays brancos, ricos, parte deles aparentemente em relações estáveis que a sociedade poderia até considerar monogâmicas à primeira vista. Mas um grupo que no fundo curtia e buscava mesmo era uma boa sacanagem coletiva. É simplesmente maravilhosa a cena em que Paddy se aproxima dos rapazes que estão brincando de Grindr apenas para descobrir que seu namorado estava on-line no app. O volume da música subindo enquanto o olhar de Paddy nos indica que a ficha está caindo – afinal, o barulho eletrônico ensurdecedor é o equivalente perfeito a um silêncio devastador em ambientes como aquele – é tudo de que precisamos para compreender o que estava acontecendo antes mesmo de Kevin se aproximar.

E esse é o estopim de todo o enorme conflito do episódio, que gira em torno de uma gigantesca e séria discussão sobre monogamia. Looking já tangenciou esse tema inúmeras vezes (inclusive já conversamos sobre ele aqui), e foi no segundo episódio da primeira temporada, quando Agustín e Dom explicam a Paddy por que não acreditam em relações monogâmicas (segundo eles, homens acabam traindo de um jeito ou de outro, então por que não ser honesto sobre o assunto e abrir o relacionamento?), que Michael Lannan já deixou claro que esta seria uma questão importante na série. Tão importante que seu último episódio praticamente girou em torno disso, e em torno da briga entre duas partes de um casal que encaram esse aspecto da vida de maneiras completamente diferentes.

Agustín, inclusive, fez apenas uma pequena participação no episódio, justamente no momento em que fala ao telefone com o protagonista. É curioso como, agora, Agustín pode ser venenoso e fazer um gesto de suicídio para Eddie enquanto ouve Paddy desabafar. Nós já o amamos, e agora o personagem tem crédito suficiente para acharmos o ato divertido em vez de crueldade ou falsidade. O pouquíssimo air time de Agustín e Eddie foi uma decisão bastante acertada. A história deles já se encerrou lindamente nos dois episódios anteriores, e entregar algum tipo de conflito agora – com um provável cancelamento a caminho – seria mexer em time que está ganhando.

De volta a Paddy, consigo imaginar muita gente incomodada ao notar que o episódio quase inteiro concentrou-se no desentendimento que viria a seguir. Não é o meu caso. O fato de termos sido testemunhas tão íntimas dessa briga praticamente na íntegra e com início, meio e fim extremamente claros, é Looking em sua essência. Toda a sequência flui muito naturalmente em todos os aspectos possíveis, tanto do ponto de vista do roteiro como da “cinematografia”, à medida que acompanhamos os dois andando por diferentes áreas do apartamento e, então, do prédio. É Looking sendo Looking, esquecendo-se um pouco dos recursos dramatúrgicos artificializados para deixar a série mais comercial e abraçando o caráter orgânico que a consagrou.

A briga em si iniciou-se como muitas começam: com Paddy fazendo uma pergunta cuja resposta ele não queria ouvir, e fingindo que, independentemente dela, “estará tudo ok”, e que eles estão apenas “conversando como adultos”. Não existe armadilha pior do que essa, que ilude ambas as partes. A história do Grindr foi um exagero de Paddy, e uma briguinha que certamente seria solucionável se tivesse ficado só nisso. O problema é que os dois fizeram com que a escala do assunto fosse aumentando, aumentando, até que a coisa ficou mais séria e não mais facilmente remediável. É CLARO que Kevin traiu Jon inúmeras vezes, e é claro que, para ele, essas traições eram apenas “pequenas coisas”. É muita ingenuidade de Paddy pensar que a resposta poderia ser qualquer coisa diferente.

Essa, porém, foi a primeira vez em que de fato simpatizei com Kevin em algum nível. Sejamos honestos: Paddy é, sim, um hipócrita, como o namorado apontou muito bem. Ele topou ser passivo, sem camisinha, enquanto ainda estava com Richie. Por que, de repente, a monogamia havia se tornado a coisa mais importante do mundo?

Acontece que, no fundo, Paddy também não acredita tanto em monogamia quanto pensa. O que ele rejeita profundamente é a ideia de uma “poligamia planejada”. Se a carne for fraca, tudo bem, mas é importante ao menos tentar. Kevin, por sua vez, não quer ser hipócrita e falso como foi em sua relação com Jon. Ele já viveu uma relação séria uma vez e percebeu que, para si, a monogamia não funcionava. E, no fim das contas, se a ação for responsável, será que pôr as mãos (ou outras coisas) na genitália alheia é realmente uma “traição”? O que define uma relação estável: o sexo exclusivo ou aquele sentimento e aquela vontade de estar sempre na companhia da outra pessoa?

O que me assustou um pouco foi perceber que, em termos de ponto de vista, eu concordo plenamente com Kevin. Amar não é uma escolha simplesmente física, é uma escolha da mente e das emoções. Por isso, se você não tem dúvidas de que ama alguém e quer passar o resto da sua vida com a pessoa, que diferença faz viver alguma aventura estritamente sexual? Será que a traição não está mais no ato de mentir e enganar do que no contato físico em si? Eu sempre tive tudo contra Kevin, mas, desta vez, admirei o pé no chão com o qual ele encara essa situação.

Isso posto, existe uma diferença muito grande entre não acreditar em monogamia e tentar impor esse ponto de vista à outra metade da sua relação. Se amar é sempre se importar com as necessidades do outro, não cabe à parte monogâmica – no caso, Paddy – sorrir e fingir que não se importa com Kevin indo pra cama com qualquer um. Cabe, sim, ao Kevin da relação, perceber instantaneamente que o namorado não está preparado para algo assim, e nem pensar duas vezes antes de fazer a concessão e ser monogâmico. Uma relação aberta só funciona se as duas partes estiverem interessadas. Caso contrário, o compromisso com a monogamia é, sim, uma obrigação de quem valoriza aquele relacionamento. E quem não acha que a outra pessoa vale o “sacrifício” tem mais é que terminar tudo, mesmo. Afinal, é injusto e desonesto se comprometer com alguém se você ainda quer pegar geral.

Por isso, apesar de admirar a transparência de Kevin em algum nível (embora ele estivesse certíssimo quando disse, no início, que aquele não era um bom momento para entrar nesse terreno – e deveria ter mantido essa posição!), não acho que uma pessoa possa se dar ao luxo de dizer que quer passar a vida inteira com outra, desde que possa impôr a ela um relacionamento aberto. Isso não existe! É claro que boa parte desta análise é apenas a minha opinião sobre o assunto, então, por favor, arrasem nos coments e deixem a visão de vocês sobre monogamia, se quiserem.

Factualmente, o que é importante fazer aqui é elogiar MUITO Russell Tovey e, principalmente, Jonathan Groff pelo incrível trabalho dos dois nesse episódio. Foi uma briga extremamente devastadora, e uma briga na qual era possível criar empatia pelos dois lados – de um lado, a visão realista; do outro, a visão romântica. As duas atuações, extremamente bem sintonizadas, evidenciavam em todos os aspectos possíveis essas duas visões contrastantes, transbordavam essa diferença. Ver o coração de Paddy se partindo doeu de verdade. Ainda que a direção de Andrew Haigh, a iluminação, a edição, tudo tenha contribuído perfeitamente para esse clima, o trabalho dos atores foi essencial para garantir a qualidade de todo o episódio.

É um pouco ridículo ver Kevin entregando a Paddy a responsabilidade de decidir se fica ou se vai. Esse papel não é de Paddy, é Kevin quem precisa tomar uma decisão aqui e se comprometer. Mas, antes de sabermos a escolha do nosso herói magoado, o episódio faz uma pausa para finalizar o arco de Dom e Doris, a mais bela relação retratada em Looking no fim das contas. Doris não abre mão de estar certa, mas ela aceita Dom de volta, e ela entende que ambos precisam reconhecer e trabalhar nos próprios problemas que vieram à tona. E, quando Dom diz que eles “meio que precisam terminar”, é claro que ele não se referiu ao fim dessa amizade. Dom e Doris compreenderam apenas que não é mais saudável continuar morando juntos, continuar tão dependentes. Era necessário seguir em frente em suas vidas e explorá-las em outros aspectos para evitar que o mundo de cada um fosse tão completamente dependente da existência do outro. Não encaro o final de Dom e Doris como uma piora no relacionamento dos dois. Eles apenas cresceram.

Mais uma vez voltando a Paddy, descobrimos que ele decidiu ficar e esfriar a cabeça. Kevin, então, finalmente faz a promessa que deveria ter feito logo de cara: ele irá se adaptar. Mas, depois de tanta discussão, é uma promessa que soa mais vazia do que Patrick gostaria. E o ingrediente mais importante de qualquer relação, aquele chamado confiança, pode ter se quebrado com perda total.

Há um fato bastante notável durante a briga: Paddy finalmente assume para Kevin e para si mesmo que uma de suas principais motivações para iniciar um relacionamento foi “mostrar para o mundo que era capaz disso”, a típica visão dos gays que não são felizes se não forem aceitos pela sociedade como pessoas “normais”, ou seja, capazes de viver a vidinha monogâmica que a heteronormatividade tanto preza. Paddy estava vivendo sua vida e tomando decisões em função dos outros, e não de si mesmo, e percebeu que talvez esse tenha sido seu grande erro. Ao admitir isso e mostrar que o Agustín mala e grosseiro da primeira temporada estava certo no fim das contas, nosso protagonista amadureceu o correspondente a pelo menos uma década de vida.

Como alguém que sempre observou e ressaltou a importância dos signos religiosos na primeira temporada (é curioso como esse finale faz referências a vários momentos da primeira temporada, quase como um fim de série costuma fazer, mesmo), fiquei absolutamente extasiado com o simbolismo envolvido na ideia de transformar o escapulário que Paddy ganhou de Richie em Looking for the Future na resposta – ou, no mínimo, no conforto – de que o protagonista precisava para sua agonia. A fé e a religiosidade de Richie foram responsáveis pela última cena de Looking, e isso é algo grande.

O fato de Paddy ter recorrido a Richie após a quebra de confiança em sua relação com Kevin fica aberto a muitas possíveis interpretações. Richie atingiu, enfim, o status de amigo com o qual Paddy pode contar? O protagonista estaria finalmente tendo uma recaída ao ver que perdeu alguém que era 100% devotado a ele como ele queria? É possível defender as duas teorias, mas elas são apenas teorias, por enquanto. Uma conclusão, porém, é definitiva: toda a confiança que o protagonista não tem em seu namorado ele claramente encontra em Richie. O mexicano é o porto seguro que Kevin falhou em ser. E, ainda que o final não tenha sido planejado como encerramento, pensar que a última fala de Looking foi Paddy finalmente dizendo a Richie “I’m ready” para que a série então nos deixasse ao som da perfeita “Simple Man” (Graham Nash) faz com que eu considere esse um dos mais belos finais de série que já tive o prazer de assistir.

Pode parecer exagero, mas a verdade é que escrever sobre Looking neste espaço foi uma enorme realização pra mim. Libertei-me de tantas amarras, desprendi-me de tantas preocupações, expus muito do que jamais havia sido exposto sobre quem sou e sobre aquilo em que acredito. Conheci pessoas lindas que compartilharam suas visões e histórias – sim, vocês, mesmo! – ao longo dessa jornada, pessoas que me estimularam a tentar ser melhor semana após semana, e que me fizeram perceber que, quanto mais eu derramasse a minha alma sobre este trabalho, melhor seria o resultado.

Para quem ainda não sabe, Looking foi cancelada e um telefilme para encerrar a história está a caminho e provavelmente será lançado em 2016. Mas, ainda que a decisão tenha prolongado por provavelmente cerca de 90 minutos (oremos) a vida da nossa querida série , a resposta para a minha questão inicial continua sendo um gigante e sonoro “NÃO”. Não era hora de dizer adeus ainda. Comercialmente, era uma decisão óbvia, e a HBO não precisava pensar duas vezes para optar pelo cancelamento. Ouvi comentários de que “a HBO abandonou as guei”, mas a verdade é que “as guei” abandonaram a HBO antes, ao esvaziarem quase completamente a demo de uma série feita para esse público.

Mas nós ainda estamos aqui. E nós, definitivamente, merecíamos mais. Por isso, fiquei feliz ao ver a decisão da emissora de não tirar de nós o fim da jornada de Patrick & Cia. Podemos encarar o cancelamento como uma decisão triste e amargar o luto pelo fim da série. Ou podemos perceber que o telefilme que será lançado é, na verdade, um enorme presente a todos nós, que prestigiamos esse lindo trabalho. Particularmente, mal posso esperar para abri-lo e transformar em palavras todo esse unboxing aqui no Série Maníacos. Espero que, quando chegar a hora, nos encontremos novamente aqui no blog, para comentar sobre a abertura do restaurante de Dom (finalmente!); sobre novos conflitos entre Agustín, Eddie e as crianças do abrigo; sobre Doris reclamando de Malik largando a cueca suja e a toalha molhada pela casa; e, claro, sobre os rumos que Paddy, Richie e Kevin tomarão em suas vidas. Aguardarei ansiosamente (e espero MUITO mais Richie no filme do que nesta segunda temporada, por favor!).

Mais uma vez, MUITO OBRIGADO por acompanharem o meu trabalho, por compartilharem comigo a sua visão de mundo, enfim, por terem escolhido embarcar comigo nesta jornada. Espero que tenha conseguido transpor para este espaço a experiência inesquecível que Looking – e o fato de compartilhar tudo com vocês – foi pra mim. E, que este fim da série, que pra mim está com mais gosto de “até logo” do que de “adeus”, sirva para mostrar que, sim, ainda temos um longo caminho a percorrer se quisermos que a sociedade nos dê respaldo para ser tão bem representados na TV como essa série era capaz de nos representar. Ainda falta muito para a comunidade LGBT ter o direito de, de fato, sair da coadjuvação. Se a latente necessidade de união pelo bem comum e pela importância de lutarmos pelo direito de ir mais longe for a lição dada – e, mais importante, compreendida – por Looking, ainda que ela tenha sido cancelada após duas temporadas apenas, eu não poderei chamá-la de nada além de “sucesso absoluto”. Um grande abraço a todos, e até o filme, pessoal!

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Guto Cristino
Guto Cristino é engenheiro químico, jornalista e administrador. Nessa salada toda, o tempero constante é a paixão por séries e por Christina Aguilera, sempre presentes em seu cada vez mais curto tempo livre. No Série Maníacos desde 2011, é especializado em cretinice televisiva, com foco em novelões e realities, mas garante que vê série boa de vez em quando.