A quinta temporada de Game of Thrones chegou a ser considerado como o pior ano da série por muitos fãs e senão fossem pelos oitavo e nono episódio sensacionais, somados a um season finale com cliffhangers de arrancar os cabelos, teria sido ainda mais complicado. Para uma temporada que veio carregada de comentários sobre “alcançar os livros”, nós tivemos mais um grande distanciamento da obra original do que um emparelhamento propriamente dito. A diferença entre as mídias são diversas e vieram se acumulando, seja por causa das modificações e “adaptações” durante os anos, ou pela necessidade de resumir a obra original.
Acredito que os fãs de GoT, sejam dos livros ou da TV, já estão um pouco cansados de tanto se falar desse distanciamento. No início, como todo fã conservador, reprovei completamente as adaptações. Acreditava que as alterações na obra descaracterizariam a história a um ponto que Game Of Thrones jamais seria o mesmo. Então entendi que não precisava ser o “mesmo”. Imaginem se a HBO resolvesse colocar uma atriz mirim de 13 anos no papel de Daenerys Targaryen (no livro, ela se casou com Khal Drogo após sua menarca), ou um adolescente de 16 anos no papel de Robb Stark, se esforçando para ter filhos. As adaptações sempre foram necessárias para viabilizar a produção da série e podemos encará-las como blasfêmia, ou como outra forma de contar a história. A maioria escolhe a segunda opção.
Aqui será abordado, resumidamente, as principais diferenças entre o show da HBO e a obra de George R.R. Martin. Procurarei mostrar como isso influenciou e pode influenciar na atual fase da série. De qualquer forma vocês lerão spoilers e não se enganem, a série não alcançou completamente os livros. As sequências de Bran Stark não foram abordadas nessa temporada, Sam acabou de partir para Vilavelha e se não bastece isso para dar respaldo a minha afirmação, ainda temos os POVs (Point of view – Perspectivas) das ilhas de ferro e a possibilidade de os roteiristas e produtores da série escolherem reviver alguma cena que ainda não foi adaptada. Fizeram isso com Brynden Tully, o Peixe Negro. Ignoraram o personagem no início para “trazê-lo” mais adiante.
A escolha de atrasar plots dos personagens – considerando a cronologia livros – foi utilizada nessa temporada com Arya. A filha caçula dos Stark deve ser a personagem mais fiel a sua versão original, porém, a vimos iniciar seu treinamento da Casa do Preto e Branco já com uma missão de assassinato e terminar cega após executar Sor Meryn. No livro, Arya primeiro é privada de sua visão e aos poucos consegue superar esse teste graças aos seus poderes de Warg. Aliás, essa característica da personagem foi completamente negligenciada. George descreve a garota sonhando que está no corpo da sua loba Nymeria, que continua viva e comanda uma grande alcateia nas terras fluviais. Foi através dessa habilidade que a menina viu o corpo da sua mãe após o Casamento Vermelho e foi assim que ela pode enxergar através dos olhos de um gato e reagir as surras que seu mestre lhe aplicava.
O assassinato de Sor Meryn Trant só será visto nos livros no capítulo “Mercy” do sexto volume. Não faz muito tempo que o Tio George disponibilizou esse capítulo em seu site pessoal e a narrativa original é bem diferente já que é Arya quem atrai o cavaleiro para seu quarto e o mata insinuando contato sexual. Mesmo com as diferenças, talvez seja esse o primeiro spoiler invertido, confirmado, entre as obras.
Se ao falar de Arya eu citei Lady Catelyn, então seria um sacrilégio não citar a Lady Stoneheart. Seria impossível não a considerar, já que a personagem está intrinsicamente ligada a Brienne e Jaime. No livro, Catelyn é revivida por Sor Beric Dondarrion e o Sacerdote Thoros de Myr e torna-se a líder da Irmandade sem Bandeiras. A alcunha de Stoneheart é atribuída a ela pelos próprios membros da irmandade, que a confiam o destino das pessoas que são capturadas em suas andanças. O que ocorre é que uma dessas pessoas é a donzela Brienne de Tarth e logo a Coração de Pedra a sentencia a morte caso ela não aceitasse cumprir com uma tarefa específica. Essa tarefa, é nada mais nada menos que levar até ela Sor Jaime Lannister. O Guarda Real estava no cerco de Correrrio e ao se deslocar para lidar com a situação de Edmure Tully encontra com Brienne. Ainda não sabemos como ambos lidarão com isso, mas sabemos que Jaime não perde seu tempo em Dorne e Brienne não passa semanas esperando Sansa acender uma vela na torre quebrada como foi mostrado na quinta temporada da série.
Já que o nome de Sansa apareceu na conversa, a personagem que foi o centro de uma das polêmicas que quebrou a internet esse ano, foi a que mais sofreu desvio em sua história original. Da mesma forma que foi divulgado o capítulo do “Ventos do Inverno”, que narra o assassinato de Sor. Meryn, pouco antes da season premiere da quinta temporada, tivemos a divulgação de um POV de Sansa intitulado “Alayne”. Enquanto na série ela substitui a falsa Arya – Jeine Poole – nos livros o plano de Mindinho é casá-la com Sor Harrold Hardyng, o herdeiro do Ninho da Águia, caso aconteça algo com Robert Arryn. Com esse objetivo, Petyr organiza uma competição de justas e promove o encontro entre Sansa e o herdeiro. Enquanto os produtores da série preferiram colocar a personagem nas mãos de um sádico, o Tio George a mantem flertando com jovens rapazes.
A modificação da história de Sansa criam inúmeros desdobramentos. Além de afetar o desenvolvimento de Theon, ter sido exposta a verdade sobre Bran e Rickon e estar próxima de Brienne, ela foi afastada de Petyr e se vê a mercê na história, avulsa, sem poder e ao lado de um homem quebrado que é mais cão do que gente. Aqui encontramos um vórtice criado pela substituição de uma personagem secundária por uma de grande importância. A possível morte de Stannis já interfere no futuro de Theon e com isso fica impossível saber ao certo qual será o destino da Stark, além de ser caça para Ramsey, é claro.
Já que estamos próximos da muralha, por que não pensarmos um pouco sobre Jon Snow? A forma como foi desenvolvido o resgate dos selvagens após a eleição para senhor comandante, só teve um ponto positivo: Hardhome. O Jon dos livros resgata selvagens e os incorpora a patrulha, até o gigante Wun Wun se junta a corporação, casa lideres tribais com garotas de famílias do norte, protege Val – a princesa selvagem – e o filho de Mance Rider das garras de Melisandre. Todas essas ações irritam não só seus patrulheiros, mas também a Rainha Selise e seus cavaleiros que ficaram na muralha. E lembra a meiga garotinha que foi queimada no episódio nove? Pois bem, nos livros, ela não vai para frente de batalha, a princesa Shireen e a sacerdotisa vermelha ficam na muralha. E como não falar do Fantasma? O lobo gigante e o Sr. Comandante, a essa altura da história, são quase o mesmo ser. Nos livros, Jon sente gosto, fareja e escuta através dos sentidos do lobo. Isso deixa claro que o Snow é um Warg e alimenta a teoria de que ele pode ter transferido seu espírito para o Fantasma antes de morrer.
Na série, não tivemos indícios claros de que Jon era um Troca Peles e como disse no parágrafo anterior, isso fica implícito nos livros. O mais interessante é que no prologo do “Dança dos Dragões”, nós acompanhamos a morte de Varamyr Seis Peles, um Warg que anda com uma bicharada. Esse cara morre e se transfere para a pele de um de seus lobos e isso acaba por alimentar a teoria de que o Fantasma seria o novo receptáculo para a alma de Jon. Infelizmente não tivemos o Troca Peles Varamyr montando seu urso na série, então a única teoria plausível para o retorno do personagem seria o uso da magia de R’hllor. Com as recentes declarações dos atores e produtores (leia aqui), fica difícil dizer alguma coisa sobre isso e ainda não tivemos nenhuma informação divulgada sobre o destino do personagem.
Se fossemos enumerar todas as diferenças entre livro e a série, teríamos um livro sobre o assunto. Seja pela extensão da obra de Martin ou pelo o número de episódios por temporada. São centenas de pormenores deixados de lado e inúmeras consequências na narrativa. Por isso, voltaremos a falar mais sobre isso em breve aqui no Série Maníacos. Pelo menos para suprir essa temporada que continua dando o que falar. Espero ter contribuído de alguma forma para a experiência de acompanhar essa gigante obra de entretenimento e nos vemos na semana que vem.
Ps1: Gostaria de parabenizar o Lucas Müller pelas reviews de Game of Thrones aqui no SM. Não é fácil segurar a barra com uma série tão forte. Parabéns pela cobertura da temporada Lucas.













