O momento em que fica claro que o talento para adaptar não se estende para a capacidade de criar.

A chegada na segunda metade desta temporada de “Game of Thrones” me confirmou algo que vem martelando na minha cabeça há algum tempo. David Benioff e D. B. Weiss são incríveis adaptadores, os grandes momentos que aparecem na obra original de George R.R. Martin são representados na tela de uma maneira empolgante e digna de um meio televisivo. Já quando o desafio é criar textos originais, a fim de desenvolver cenas que não possuem material de base nos livros, a dupla mostra o quanto pode ser limitada. Esse episódio marcou o retorno deles ao roteiro de um episódio desde quando o fizeram pela última vez na terceira semana, e a volta resultou em momentos catastróficos, tanto no já mal concebido núcleo de Dorne, quanto na jornada de Tyrion. Fora grandes falhas de caracterização no enredo de Sansa que merecem ser citadas, claro. Mas isso tudo será melhor formulado nas linhas a seguir.

Dorne

Dorne, Dorne, o que pode ser feito para salvar a sua história? Depois da aventura trapalhona digna de sessão da tarde da semana passada, houve duas cenas que podem configurar como a materialização da vergonha alheia. Primeiro, que diálogo foi aquele entre Jaime e Myrcella? Mais uma piada sobre a perda da mão? Sério? Vamos continuar nisso até quando? E a nova atriz que interpreta a princesa estava muito mal o tempo todo, transformando tudo em algo tão ruim que chegou a incomodar. Começo a me perguntar se o problema deve-se a uma direção de elenco fraca, pois não é possível que todos os personagens deste núcleo sejam tão pouco críveis em seus trabalhos de interpretação. Já estava esperando a garota sair da sala correndo e balançando os braços tamanho o nível de má concepção do que estava vendo. Como disse, D&D não são bons em criar diálogos originais e aqui não tinha nenhum ator excelente para salvá-los.

E foi aí que veio a cena nas celas onde estavam Bronn e as Serpentes de Areia, que agora consigo identificar como Lindinha, Zangada e a Outra. Sei que a série é conhecida por sua inserção de nudez gratuita, mas nada tinha chegado ao ponto das 13 (!) tomadas nos peitinhos de Lindinha. Era necessário isso tudo? Será que Michael Bay foi convidado secretamente para dirigir todas as cenas de Dorne? Bem, o que importa é que Bronn estava realmente envenenado, mas Lindinha deu o antídoto para o mercenário, tentando mostrar que se ela quisesse o teria matado. Isso quer dizer que a relação dos dois vai se aprofundar? Será que Zangada e a Outra gostaram disso? Espero ansiosamente pela resposta destas perguntas no próximo episódio. 

Meereen

A impressão que tive ao ver os acontecimentos que levaram ao encontro de Dany e Tyrion foi de que os roteiristas tinham acordado com uma enorme preguiça, com o prazo apertando pra entrega do texto, e resolveram fazer qualquer coisa. Jogaram uma tirada engraçada do anão, uma coincidência nada verossímil na arena de luta, mais trocadilho infames e pronto, cena enlatadinha pronta pra tela. Se Peter Dinklage não fosse tão bom quanto é, isso pareceria uma cena rejeitada de “Vikings”. Antes de tudo, cadê o mercador de pau que pagaria fortunas por um pau de anão? Tenho certeza que a recompensa seria maior que os trocados pagos pela posse de Tyrion. Fica parecendo que os roteiristas de cada episódio não conversam entre si. Ou que aquilo era só uma piada incrivelmente sem graça. E pelo que eu saiba, mercadores de escravos sequer dão ouvidos às suas posses, mas Tyrion consegue argumentar seu novo dono a comprá-lo como um lutador só por dar umas correntadas em um pobre coitado mentalmente debilitado. Sério que os mestres são influenciáveis assim? Que mundo é esse? Essa cena realmente aconteceu? Michael Bay além de dirigir também emprestou sua falta de talento ao roteiro? Foi tudo conduzido de maneira tão absurda que prefiro pensar que o período de escravidão de Tyrion não aconteceu e que ele e Jorah chegaram a Dany logo depois do embate com os Homens de Pedra. Fim.

Muralha

A Muralha se focou mais em Sam e Gilly nessa semana, trazendo a tocante cena da morte do meistre Aemon. Como foi dito, nunca houve uma pessoal mais sábia e gentil naquele local e vou além, dizendo que talvez ele fosse a pessoa mais doce de todo o seriado. Suas últimas palavras foram minha frase favorita do episódio. “Eu sonhei que era velho”. E não tem como não ficar feliz ao ver o velho Targaryen ir em paz num momento em que até voltou a ser criança. Todo o luto gerado uniu mais Tarly e sua amada selvagem e os dois acabaram transando pela primeira vez. Ah não, também houve um quase estupro que terminou de uma maneira super conveniente, onde Fantasma, depois de 7 episódios ausente, resolveu passear pelo cômodo e salvar a pele de Sam. Não sei, galera. Achei tudo ali tão mal forçado e conveniente, o quarto deus ex machina do episódio, que tirou todo o peso da consumação do amor dos dois pombinhos da Muralha. Uma pena.

Já Stannis está a caminho de Winterfell, mas como pudemos ver ao longo de todo o episódio, o inverno já chegou no norte! Muita neve, ventos cortantes e a certeza de que a batalha final contra os Boltons não será nada menos que impressionante. Fico feliz com as palavras do verdadeiro rei, pois não há mais volta naquelas condições, é agora ou nunca! O tempo não irá melhorar e essa é a única oportunidade de reclamar o norte. Mas aí que veio a pegadinha. A mulher de vermelho, depois de não ter conseguido queimar Gendry, nem ter feito um bebê sombra com Jon Snow, decidiu que o único caminho pra vitória é pôr fogo numa garotinha fofa. Shireen queimada é uma coisa que não quero ver no seriado e deixarei de ser team Stannis no momento em que isso ocorrer. Queima  a Selyse!

Winterfell

E agora vemos a maior falha na adaptação do enredo dessa temporada. Sansa, originalmente, não se casa com Ramsay Bolton, ela continua no Ninho da Águia, treinando sua arte no jogo dos tronos juntos ao Mindinho. Entretanto, para o seriado, foi decidido fundir a personagem Sansa com uma outra nortista que não está no seriado. Sendo assim, nada seria mais coerente do que modificar a trama de Winterfell, a fim de adequá-la a um personagem diferente, mais forte e menos ingênuo. E foi aí que a falha de D&D foi completa. Sansa parece uma outra pessoa, ela está encarnando tudo que a outra personagem faria, o choro, o vitimismo, coroada pela contradição de querer ir embora de um lugar pro qual você escolheu ir. Era necessária uma mudança no roteiro e por comodismo isso não foi feito. Uma pena, uma grande pena vê-la como a donzela a ser resgatada mais uma vez.

No mais, vimos o quanto Ramsay destruiu a mente de Theon. Ele realmente se tornou Fedor e entregou o plano de Sansa pro seu mestre sem nem pestanejar. A redenção para o príncipe das Ilhas de Ferro ainda não veio e, quem sabe nem venha, mas Stannis está chegando pra trazer o caos necessário para o fim da tortura que os dois personagens têm sofrido nas mãos do bastardo. Ah, e a herdeira dos Stark pegou alguma ferramenta no pátio do castelo, que deve ser vital no seu plano de fuga. Mas, pensando bem, porque ela quer fugir mesmo? Ah, era o outro personagem que queria fugir e fizeram uma transferência de personalidade momentânea pra tudo fazer sentido. Somente aos olhos deles, claro.

Porto Real

E o melhor ficou por fim, mostrando que pelo menos de edição, o programa ainda entende. Já estava ficando claro que a decisão de Cersei de empoderar a igreja ia acabar saindo pela culatra e foi o que aconteceu essa semana. Mas a maneira como ocorreu não poderia ser mais satisfatória, pois, mais uma vez, Mindinho mostrou que tem um baralho inteiro nas mangas e não só algumas cartas. Depois de entregar uma testemunha para Cersei poder derrubar tanto Loras quanto Margaery, Petyr jogou mais lenha na fogueira da briga entre Lannisters e Tyrells, entregando Lancel e todos os podres da Rainha-Mãe para a Rainha dos Espinhos. A cena no bordel foi fantástica e foi o único momento no episódio onde o diálogo não me incomodou tanto, provando o quanto bons atores podem fazer a total diferença, palmas para Diana Rigg, Aidan Gillen e, claro, Lena Heady e Jonathan Pryce que também foram sensacionais. Trouxeram toda aquela urgência e credulidade ao qual estamos acostumados a ver na série. E tenho certeza que todos estão empolgadíssimos para ver como serão os dias duros de Cersei na prisão nas mãos da septã gigante. Como será que o Rei Tommen vai reagir ao saber que sua mãe também é prisioneira da fé? Senti uma nota de Joffrey nele, mas acho que ainda assim ele continuará inerte.

E é aí que chegamos a um pensamento preocupante. O que está segurando a série no momento é o seu elenco. Todo os atores já estabelecidos estão fazendo malabarismos a fim de dar sentido ao texto por ora fraco e irreal que vêm sido dado a eles. Já quando não há atores talentosos o suficiente, tudo parece um pastelão, vide Dorne. Isso mostra nuvens escuras no futuro da série que até a metade desta temporada estava indo muito bem e com poucos percalços. É triste esperar que a partir da sexta temporada, quando todo o texto a ser adaptado tiver acabado, tudo se torne muito ruim. Tão ruim quanto mercadores de pau, serpentes de peitos de fora e romances dignos de Malhação das arábias. Mas tenho três episódios pra tentar colocar essa impressão pra trás e irei de coração aberto, mas com certa tristeza no olhar.

Em Tempo de Brienne: Espero que a guerreira não passe o dia inteiro, todos os dias, naquele cantinho observando a janela e esperando a vela de Sansa. Se for assim, pneumonia is coming.

Em Tempo de Arya: Sinto que a saga da jovem Stark não está ganhando o espaço que merecia esse ano. Menos mercadores de pau e mais Arya.

Em Tempo de Conversinha de Travesseiro: Daario e seus conselhos de qualidade duvidosa. Não sei se ele é a melhor pessoa para sugerir a Dany os próximos passos a serem tomados. E dessa vez, criei uma certa desconfiança com ele. Estaria ele por trás dos Filhos da Hárpia?

Em Tempo de Novidades da Família: Adorei ver Sansa recebendo notícias do seu irmão Jon Snow. Será que ele tomará parte na guerra com os Boltons quando souber que ela está lá também?

Em Tempo de Nostalgia: É tão bom ouvir o Sor Jorah falar khaleesi de novo.

Em Tempo de Frase do Episódio: “O que vamos achar quando tirarmos todos os seus adornos?”– o Alto Pardal, logo antes de dar a lição a Cersei que esperamos há cinco temporadas.

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