E o tabuleiro deste cruel jogo mais uma vez é jogado para o alto.
Podemos confirmar, agora que todos os episódios foram exibidos, que está foi a melhor temporada de “Game of Thrones” até o momento. Cheia de eventos definidores e inúmeros arcos fechados, abrindo outros com muito potencial, essa sequência de dez horas conseguiu consolidar o programa como o maior fenômeno da HBO e como possuidora de uma legião invejável de fãs. E nesse capítulo final, a tradição de fechar o ano com acontecimentos mais mornos foi finalmente quebrada. Cheia de ação, mortes e reviravoltas, esses 66 minutos nos lembraram com bastante veemência o quanto é difícil esperar 9 meses para o retorno desse adorado seriado.
Por onde começar? Bem, vou tentar seguir o raciocínio cronológico. O episódio começou exatamente onde parou semana passada, com Jon Snow indo em direção ao exército de selvagens a fim de matar o seu líder. E que surpresa foi ver a única participação de Ciarán Hinds nessa temporada como Mance Rayder. É perceptível que sua abordagem melhorou bastante em relação às cenas do ano passado. Senti o ator muito mais à vontade e, consequentemente, seu personagem com as convicções muito mais críveis. A cena dos dois na tenda foi uma última maneira de começar o episódio. Agora o momento alto aqui foi a chegada de Stannis e do seu exército recém-adquirido com o empréstimo feito no Banco de Ferro de Braavos. O visual aéreo de sua nova força de ataque é impressionante e acredito que deva competir em números com os imaculados da khaleesi. Fico extremamente feliz agora que o último dos Baratheon e herdeiro de fato do trono de ferro recuperou o poder na sua campanha, mostrando o quanto sua decisão de partir para o norte foi acertadíssima.
Apesar de ser uma das tramas mais criticadas pelos espectadores, a chegada dos Baratheon a Castelo Negro promete dar uma nova dinâmica aos patrulheiros, assim como a presença de Mance Rayder como prisioneiro do grupo. Agora com a Muralha como sua base de operações, acredito que o próximo objetivo de Stannis seja recuperar o norte em sua totalidade. Já fica aqui o desejo de que a mulher de vermelho ponha fogo nos malditos Bolton. E posso não ter muitos concordando comigo aqui, mas essa será uma das histórias cuja continuação mais aguardarei ano que vem.
Ainda no Norte, mas muito além da Muralha do que onde se encontram os selvagens de Mance, vimos o quanto foi agitada a conclusão da jornada de Bran até o Corvo de Três Olhos. E essa agitação foi muito bem-vinda, afinal, toda vez que o herdeiro dos Stark aparecia, ele era acompanhado por um coro de bocejos do lado de cá da tela. Mas agora a adrenalina foi às alturas com um ataque coletivo de zumbis, Meera mostrando que pode ser durona e fazer amizade e trocar confidências com Brienne e Arya, Bran usando Hodor mais uma vez como seu robô de combate e o pobre Jojen pagando o preço por ser o mais fraco do grupo e entrando na lista como a primeira casualidade do episódio. Adorei a sequência e talvez minha única ressalva seja com relação à criança que atira bolas de fogo pela mão. Pareceu que a HBO reutilizou os efeitos de um momento muito vergonhoso envolvendo fadas em “True Blood”.
Fora isso, Bran chegou ao seu destino e encontrou aquele que será o seu mestre na utilização de seus poderes, um homem enraizado embaixo da grande árvore dos seus sonhos e que, conforme disse, irá ensiná-lo a voar (acredito que no sentido figurado da palavra). Engraçado perceber como cada uma das crianças Stark encontrou mentores para guiá-las desde a queda de sua família. Seja Sansa com Mindinho, Bran com o Corvo ou Arya, como iremos falar mais a frente.
Do outro lado do Mar Estreito, desde que assumiu o poder em Mereen, Dany tem aprendido muitas lições das piores maneiras possíveis. Não é fácil fazer todo mundo feliz, khaleesi. Governar é um constante passeio pela linha do certo e do errado e de todos os seus tons de cinza. Agora que seus dragões cresceram o bastante para ter pessoas como presas, a decisão de encarcerá-los tinha que ser tomada. Foram de cortar o coração os gritos de Viserion e Rhaegal ao ver sua mãe dando as costas após acorrentá-los. Será que se eu disser que a reação deles foi mais real que a de Emilia Clarke estarei sendo muito cruel com a atuação dela? Mas bem, numa temporada em que Daenerys passou de conquistadora para governante, vimos que as coisas não têm ido tão bem para a Targaryen. Imagino se ela conseguirá contornar essa crise e a enxurrada de más decisões.
Agora, as duas melhores sequências do episódio ficaram para o seu final. Primeiramente, o encontro entre Brienne e o Cão de Caça nunca aconteceu nos livros, mas acho que todos podem concordar que foi excelente ele acontecer na série. Os dois foram os protagonistas de um dos duelos mais brutais até agora e ouso dizer que superou aquele de Oberyn e Clegor duas semanas atrás. Não foram poupados golpes sujos, com direito a uma orelha mordida fora, culminando enfim com a vitória da Lady Tarth. Acho que verdadeiramente Sandor nunca imaginou que seria morto por uma mulher. E ficam aqui os parabéns à produção por toda a cena, que me manteve na ponta do sofá o tempo inteiro.
E o nível alto da cena se manteve quando Sandor implorou pelo golpe de misericórdia de Arya e a garota decidiu que ele simplesmente não o merecia. A frieza da garota Stark está cada vez mais perceptível e a maneira como o mundo a moldou nessas três últimas temporadas a transformou nessa nova figura. E a tendência é que ela se aprofunde ainda mais nessa nova faceta e aprimore suas qualidades na arte do assassinato, já que agora a garota se dirige a Braavos, terra de seu primeiro mestre, Syrio Forel, e de Jaqen H’ghar, o homem sem rosto que demonstrou habilidade única em despachar os inimigos da garota em Harrenhal. E apesar da sua partida de Westeros parecer um final feliz para Arya, não deixa de ser algo agridoce já que isso implica na destruição do que ainda resta da ingenuidade infantil na sua personalidade.
Por fim, Porto Real. Sim, a capital dos Sete Reinos foi palco de mais uma jogada inesperada dentro do jogo dos tronos. Se há apenas um ano, a história de George R.R. Martin nos surpreendeu ao destruir totalmente a campanha dos Stark, ele agora começou a fazer o mesmo com os Leões de Rochedo Casterly. Tyrion, ao fazer um pequeno desvio na sua fuga orquestrada por Jaime e Varys, acabou descobrindo que as suas decepções podem ser ainda maiores do que se imaginava. Ao ver Shae na cama de seu pai, ficou claro o quão hipócrita é o discurso do patriarca Lannister, que tanto condenava o gosto do filho pelas prostitutas. Mas pior ainda foi ver sua amada mostrando a verdadeira face. Posso dizer que vibrei muito mais no estrangulamento cruel de Shae do que no sufocamento de Joffrey. Livrarmo-nos de um personagem com um grande potencial destruído por uma péssima atriz. Boa sorte no seu retorno ao mundo dos pornôs, Sibel. Por outro lado, a cara do anão enquanto a prostituta dava seus últimos espasmos foi genuinamente de cortar o coração. Conseguia sentir naquele momento o quanto Tyrion estava sofrendo.
E quem imaginaria que o homem mais poderoso de Westeros poderia morrer de maneira tão vergonhosa? Com as calças arriadas, sentado na privada, Tywin Lannister foi confrontado uma última vez pelo filho que sempre rejeitou. E nem mesmo nessa situação, na mira de uma besta, Tywin perdeu seu dom de conseguir manipular as situações a seu favor. Foram três minutos de muita tensão em que o Mão do Rei tentou escapar da fúria do filho, mas acabou sendo a sua hipocrisia velada, em forma da constante reprovação das prostitutas, que acabou selando seu caminho. E, assim, a casa dos leõs perde o seu poderoso e influente líder, o que provavelmente vai colocá-los em uma situação de extrema fragilidade. Afinal, lembram-se dos Tyrell logo ao lado de olho no trono, e dos Martell com um desejo de vingança incendiado? O futuro não parece nada promissor para eles. E imagino que deva haver uns lobinhos de alma lavada com tudo isso.
Então, Tyrion parte para o outro lado Mar Estreito, com um destino incerto. E assim como a maioria dos personagens, fica a impressão de que um grande ciclo da história se fechou neste fim de temporada. Quase todos se encontram em novas situações e novos lugares, simbolizando o novo momento que a narrativa deve dar início. E para onde o poder irá pender agora que o tabuleiro do jogo dos tronos mudou mais uma vez? Infelizmente, essa é uma resposta que só teremos em abril de 2015, quando a quinta temporada do programa estrear. Agora, só resta digerir, e confabular.
Em Tempo de Melhor Frase do Episódio: “You shot me! You’re no son of mine!” – Tywin Lannister ao perceber, em choque, que seria morto pelo próprio filho.
Em Tempo de Nudez do Episódio: Acho que foi o papai Lannister que ganhou esse distinto prêmio, protagonizando sua infame morte com as calças arriadas.
Em Tempo de Olhares Flamejantes: E a troca de olhares entre Jon Snow e a sacerdotisa vermelha? Será que nascerá aí uma nova relação conturbada na vida do bastardo?
Em Tempo de Últimas Despedidas: E o último adeus a Ygritte foi bem merecido. A selvagem fará falta.
Em Tempo de Mudar os Planos: Varys mandou bem ao dar meia volta e embarcar no navio de Tyrion ao ouvir os sinos da Fortaleza Vermelha. Constatou que o anão tinha feito alguma merda e isso ia sobrar pra ele. Bem pensado!
Em Tempo de Pista Falsa: Adorei ter sido enganado pelos roteiristas no que diz respeito àquela ferida no pescoço do Cão de Caça que achei que eventualmente o mataria. Seus sabidinhos!
Em Tempo de Dr. Frankstein: E num episódio onde o elemento fantástico ganhou um peso bem grande (turminha do Bran), tivemos a insinuação de que o Meistre Qyburn transformará o moribundo Montanha num ser “diferente”. Nada como ter seu próprio monstro guarda-costas, né, Cersei?
Em Tempo de Até Mais: E agora começam aqueles recorrentes nove meses anuais de abstinência que temos até a próxima temporada. Como pretendem passar por isso? Eu só espero que o velhinho lance o sexto livro antes do retorno do seriado.















