E chegou o momento onde a linha entre adaptação e obra original foi rompida.

Sempre foi um temor de produtores, fãs, roteiristas e até do próprio George R.R. Martin que chegasse um momento da adaptação do seriado onde este superaria o que já havia sido publicado nos livros das Crônicas de Gelo e Fogo. E a última cena do episódio de domingo foi a prova definitiva de que isso não só irá acontecer como bem mais cedo do que o imaginado. Chegamos num cenário que chega a ser irônico, onde a série está dando spoilers dos livros. Isso mesmo. Você, fã da série, que sempre sofreu com os spoilers daqueles que já haviam lido a obra literária, agora pode se vingar, pois a recíproca aqui é verdadeira. Nada como um pouco de carma, hein?

Passada a surpresa com a ousadia dos roteiristas, não podemos deixar de admirá-la. Lógico que o programa quer criar uma fidelidade no seu público, que já é bem forte, e a ideia de dar dicas do que estar por vir no demorado próximo livro, Os Ventos do Inverno, foi uma esperta maneira de criar mais falatório. E que assustador foi tudo aquilo. Toda a construção da cena, desde o momento em que o cavalo morto vivo e seu cavaleiro Caminhante Branco surgem indo em direção ao que parece ser a cidade das criaturas, até a lenta aproximação de um novo e assustador tipo de Caminhante. E este, com apenas um toque, desencadeia algum tipo de transformação no bebê de Craster, talvez representando a própria reprodução dessa espécie. É certo que muitos fãs não vão gostar dessa nova artimanha lançada pelos produtores do programa, mas eu adorei a possibilidade de ter algumas novas informações sobre os mistérios da história enquanto o velhinho não termina de escrever. E não esqueçamos que este episódio foi escrito por Bryan Cogman, o grande homem-enciclopédia por trás da produção da HBO.

Fora essa espiada no futuro, o episódio ainda proporcionou muitos momentos derivados do que ocorre no livro. Todo o arco dos desertores da Patrulha, incluindo aí a captura de Bran e a marcha de Jon Snow em direção à fortaleza de Craster, é algo exclusivo da telinha. E acredito mais uma vez que a mudança tenha sido um acerto. O material para a jornada de Bran sempre foi muito escasso e o seu envolvimento numa trama de combate da Patrulha da Noite ajuda a nos trazer para mais próximo do personagem, além de pôr a vida de todo o seu grupo em risco, afinal, o espião dos Bolton, Locke, está infiltrado na Patrulha para encontrar e matar o herdeiro dos Stark. Apenas mais uma prova de que adaptações podem ser surpreendentes também e sem prejudicar ou diminuir o trabalho original.

Outro exemplo foi a tomada de Mereen pelo exército da khaleesi. Apesar de usar alguns elementos presentes no texto original, a tomada da cidade foi realizada de maneira bem mais emocionante na série. Toda a incitação dos escravos contra seus mestres foi uma jogada bem inteligente. Mas e agora? Qual será o próximo passo da Mãe dos Dragões agora que a Baía dos Escravos se encontra sob seu poder?

Já em Porto Real, Jamie continua sua jornada de desprendimento emocional, aonde aos poucos vai percebendo que sua relação simbiótica com a irmã gêmea não consegue mais existir espontaneamente. A tão falada cena do estupro que ocorreu no último episódio foi apenas uma tentativa desesperada de fazer com que a conexão entre os dois fosse reestabelecida. Jamie está perdido, sem a mão que o tornava o melhor no que fazia e com os sentimentos conflitantes para com a sua família, tudo parece fora de lugar. Tudo isso culminou com a última tentativa de manter sua honra e, quem sabe, produzir um legado. Lembrando-se do acordo que fez com a finada Lady Stark, o regicida envia Brienne e Podrick numa missão em busca de Sansa a fim de protegê-la e assim cumprir sua promessa. Para um homem mais conhecido por ter quebrado um dos mais sagrados juramentos, o cumprimento de uma promessa acaba de se tornar mais um passo em busca de redenção e, também, de um lugar no mundo.

Ainda tivemos a revelação de todo o esquema por trás do assassinato do rei Joffrey. A escolha por não se alongar nesse mistério foi acertada, e consolida o papel do Mindinho como o maior jogador de Westeros. Através do veneno plantado no colar de Sansa, Petyr forneceu a arma necessária para que a Rainha dos Espinhos desse fim no rei bastardo mimado e fortaleceu assim a sua relação com os Tyrell. Agora ele e Sansa partem de volta para o Ninho da Águia, onde a irmã surtada de Catelyn os espera.

Mas a expectativa se constrói em torno do que poderá ser a maior catfight da Fortaleza Vermelha. Cersei e Margaery deram início à batalha de quem terá mais influência sobre o doce Tommen. O herdeiro de Joffrey parece já ter caído na sedução da jovem de Jardim de Cima, mas como resistir a um jogo sujo como o dela? Tendo sua avó como tutora, ela dá os primeiros passos para se tornar a maior inimiga da desestabilizada Cersei.

Neste quarto capítulo, “Game of Thrones” mostrou que pode surpreender até os grandes fãs dos livros. Com a inserção de pequenas dicas sobre mistérios globais da história, assim como a incrementação da jornada de personagens com menor destaque, a experiência se torna muito mais interessante para diversos públicos. Agora, ajam todos com cautela! Ninguém mais está imune aos spoilers.

Em Tempo de Melhor Frase do Episódio: “Eu vou responder à injustiça com justiça” – Daenerys ao mostrar o seu punho de ferro frente às conquistas na Baía dos Escravos.

Em Tempo de Direção: Esse episódio foi dirigido por Michelle MacLaren, que exibiu seu talento ao mundo no comando de alguns dos melhores episódios de “Breaking Bad”.

Em Tempo de Peninha: Tadinho do Hodor, indefeso em meio aqueles brutamontes…

Em Tempo de Lamento: Primeiro episódio sem Oberyn e já sentimos sua falta…

Em Tempo de Fofura: E o gatinho de Tommen, o Ser Pounce? Cada vez mais o novo rei vai mostrando um lado doce e ingênuo totalmente oposto ao do seu finado irmão mais velho.

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