Vá para a luz, Sr. Heckles!

A maioria das sitcoms conta com aqueles personagens que aparecem eventualmente e que possuem uma única piada que, caso se estenda demais, deixa de ser engraçada e passa a ser repetitiva e cansativa. Por isso a decisão do roteiro de encerrar a participação do Sr. Heckles antes que isso acontecesse com ele foi acertadíssima. Ele nos proporcionou alguns momentos divertidos mas não tinha mais como contribuir com a série. E não apelar para um lado dramático desnecessário foi outra boa ideia.

Além disso, sua morte e as consequências dela serviram de pano de fundo para outras tramas do episódio, e permitiram que o drama do Chandler em sua crise de meia idade( ou um quarto de idade, já que ele nem é tão velho assim) fosse desenvolvido. Esse plot foi comicamente bem sucedido, pois explorou bem as semelhanças entre este e o vizinho ranzinza ao se apoiar nas características do Chandler que nós já conhecíamos e no recém apresentado incômodo com coisas quase insignificantes em todas as mulheres com quem já saiu. O desespero e o medo de ficar sozinho por ser tão implicante fazem com que ele recorra a sua última esperança. Então, Janice faz um retorno triunfal, e seu gosto em se encontrar com ele apenas para jogar em sua cara como ela tem se dado bem é perfeitamente condizente com a criatura irritante mas que diverte tanto que ela é. A gravidez e o comprometimento poderiam ser um ponto final no relacionamento dela com o Chandler, e logo, significar que ela não voltaria a aparecer, mas como vocês sabem – ainda bem – ela ainda vai dar as caras.

E já que falamos em novas características, Phoebe vem cada vez mais mostrando seu lado manipulador. Não é novidade nenhuma que é completamente avoada e por isso, dentro do universo da série, é cabível ela simplesmente não acreditar na Evolução e na gravidade por serem, segundo ela, “fáceis demais”. E não havia ninguém melhor do que o paleontólogo Ross para dividir esse plot com ela. Foi impagável ver o Ross gastando saliva ao tentar convencê-la de que a Evolução é uma teoria verdadeira enquanto ela brincava com o jeito nervoso dele até fazê-lo admitir que havia uma possibilidade, ainda que mínima, de ele estar errado. Aliás, é incrível como Phoebe funciona muito bem ao dividir a cena com qualquer personagem com o qual seja colocada, o que mostra a versatilidade e a capacidade de adaptação tanto da personagem como da Lisa Kudrow.

Enquanto isso, outra dupla resolvia seus problemas. Monica, apesar de já ter Rachel como colega de quarto há um bom tempo ainda vê o apartamento como seu e Rachel fica chateada, e com razão, visto que a amiga, com a sua postura controladora, não queria aceitar um abajur porque não combinava com as suas coisas. É interessante como algo tão simples quanto um objeto de decoração tenha desencadeado o conflito entre as duas e também tenha servido para a resolução do problema. Esse arco foi mais uma amostra das mudanças pelas quais a Monica vem passando e a coloca junto com Ross e Rachel entre os personagens que mais crescem como pessoas na série.

Joey teve uma menor participação no episódio mas nos agraciou com sua típica estupidez(ou inocência?), que a propósito vem atingindo níveis surpreendentes. A maldade dos amigos em deixá-lo pensando que é normal uma mulher ter pomo-de-adão foi uma das melhores piadas do episódio.

The One Where Heckles Dies pode não ter sido um dos melhores episódios de Friends, mas provavelmente, deve ser lembrado pelo evento que o intitula e pela querida pessoa chata que o vizinho dos protagonistas foi.

Um minuto de silêncio pelo Mr. Heckles.

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