Uma trajetória que transforma covardia em coragem, branco em vermelho e autodefesa em crueldade.
A grandeza de Fargo não provém de um elemento específico. Temos a mania de enfatizar individualmente cada aspecto de uma obra, para no final construirmos um balanço, numa espécie de média aritmética. Mas o grande trunfo dessa produção surge quando esses elementos se encontram, quase poeticamente, fazendo brotar um sentimento de grandiosidade no espectador em relação a série. O que seria de Fargo sem a incrível capacidade de seu elenco? Ou até mesmo sem a magnitude de seu roteiro? Tiramos a neve que cobre o cenário e a experiência se torna outra, ou seja, cada componente tem a sua relevância para o produto final.
Uma das grandes características dos irmãos Coen, criadores do filme homônimo, e que aqui fazem o papel de produtores executivos, é contar histórias comuns a partir de uma perspectiva deturpada, ou seja, em Fargo temos uma cidade pequena, calma, onde todos se conhecem, mas a chegada de Lorne Malvo dá início ao desequilíbrio. É como se o personagem tivesse a capacidade de colocar à mostra o lado ruim do ser humano, distorcendo tudo o que está a sua volta, e é exatamente o que ocorre quando ele conhece Lester Nygaard, um homem displicente e fracassado.
A partir desse encontro Lester passa a observar os “defeitos” de sua vida. É como se Lorne tivesse arrancado a venda de seus olhos, tornando os problemas mais claros. Na incrível cena onde ele mata a esposa essa ambiguidade fica óbvia. Ainda há uma parte do homem fraco, desesperado, em busca de ajuda, mas também existe o homem que resolve assumir o controle de sua própria vida a partir de suas próprias regras.
Em Fargo estamos do lado de fora. O roteiro não nos permite conhecer o que realmente motiva cada um dos personagens, e isso foi trazido do filme. É impossível entender a mente de Lorne Malvo, o porquê dele agir daquela forma, apesar do notável prazer que ele sente na dor. O mesmo ocorre com Lester, que foi se tornando cada vez mais frio, abandonando seus valores, como se Malvo fosse um exemplo a ser seguido, um semelhante. Fica subentendido que Lester cansou de ser apático, e resolveu tomar o controle de sua vida, a própria direção nos leva a comprar isso quando mostra o cartaz “E se você estiver certo e eles errados?”, mesmo assim, não é suficiente para explicar por que o caráter do personagem se corrompeu tão rapidamente.
E apesar da intensidade com que ocorreu essa transformação na personalidade de Lester, tudo funcionou naturalmente bem, graças a excelente atuação de Martin Freeman, e ao cuidado do roteiro para desenvolver o personagem. Foi possível notar que inicialmente ele tentou retomar sua vida cotidiana, mas o peso em sua consciência era ainda maior. Então Lester resolve assumir seu novo eu, criando um mundo a partir de sua nova moral, e agindo conforme lhe convém.
Existe uma grande comparação entre essa trama de Fargo e o caminho seguido pelo protagonista de Breaking Bad. A transformação do homem bonzinho, que aos poucos vai se afeiçoando ao “mal” e se distanciando completamente da simples defesa pessoal. Lester se torna um homem cruel, e não poupa recursos para colocar cada um de seus planos em prática. A agressão ao policial com o intuito de receber certa “custódia” momentânea, a incriminação do irmão e do sobrinho com autismo, a manipulação da esposa de seu inimigo falecido, e o sacrifício de Linda logo após o salto temporal de um ano.
E quando chegamos nesse momento é incrível como o roteiro nos leva a temer pela vida de Lester. Mesmo depois de tantos erros, continuamos torcendo para que o personagem encontre sua redenção, mas aqui ela não vem. Aliás o final de Fargo é fechado, quase um “happy ending”, o bem vence sobre o mal, mesmo que para isso tenha sido necessário uma “punição” da própria natureza, que alegoricamente representa a divindade, não podendo ser vista como um mero recurso de finalização ou até mesmo um “deus ex machina”, já que a trama havia se utilizado dela para encerrar o plot de Stravos.
O exagero foi aproveitado em favor da própria narrativa, o branco extremo em contraste com o intenso derramamento de sangue. A chuva de peixes, que entra em cena quando Malvo tenta fraudar as pragas bíblicas. A invencibilidade do vilão, que foi utilizada ao máximo durante os 10 episódios da série, distinguindo-se de um defeito, mas se sobressaindo como uma marca da trama.
Outra grande qualidade da produção está em seus personagens, que foram criados e desenvolvidos com maestria. Molly, que de início me causou certa repulsa, cresceu dentro da trama a partir do momento em que o roteiro passou a explorá-la de maneira menos cômica, e seu encontro com Gus me fez torcer intensamente pela dupla de mocinhos. Esse equilíbrio acaba funcionando bem, protagonistas e antagonistas que caíram no gosto do público.
Fargo também exala qualidades técnicas, com uma fotografia excelente e uma trilha sonora (muito dela vem do filme) de dar gosto. Em alguns momentos era possível sentir arrepios com um simples efeito sonoro, e além da influência do próprio filme, consegui enxergar semelhanças com Twin Peaks em vários aspectos.
A série se aproveitou do ambiente do filme para criar uma história excelente, apresentando um contraste entre o puro e o perverso, mas ao mesmo tempo enfatizando um universo onde é difícil distingui-los. Parece contraditório, mas é exatamente o que ocorre: A trágica família de Lester e a união de Gus e Molly, as diversas mortes e a gravidez, a coragem e a covardia. Fargo utiliza de seu exagero para tornar possível a visibilidade das diferenças entre coisas, que de tão próximas, parecem iguais, sem sentido, mas que aqui ganham um significado.
Aliás, a tensão psicológica causada por Lorne Malvo sonda a narrativa. As atitudes do personagem, interpretado pelo incrível Billy Bob Thornton, são únicas, intimidam não só seus inimigos, mas o próprio espectador. Após o salto temporal, no momento em que Lester se julga capaz de enfrentar Malvo num elevador, somos agraciados com uma das cenas mais cruéis e desesperadoras do ano.
Tudo em Fargo parece milimetricamente calculado. Ao mesmo tempo a sensação causada pela obra se intensifica conforme vamos nos envolvendo com cada personagem, a insegurança paira, em qualquer momento é possível que alguém morra. Uma série que utilizou suas qualidades para criar uma tensão e experiência única na tv. Com personagens bem construídos, diálogos fortes, e uma trama intrigante a obra conseguiu desenvolver sua premissa com calma, utilizando cada um de seus dez episódios de maneira relevante, sem soar cansativa por sequer um segundo. Sem dúvidas uma das melhores produções do ano, se não a melhor.
Observação nº 1: Fargo não é uma história real. Nem o filme, nem a série. Tudo não passa de uma brincadeira dos produtores.
Observação nº 2: O FX já cogita uma 2ª temporada para a produção que foi projetada como uma minissérie. No caso a ambientação seria a mesma, porém com novos personagens.














