Criatividade: uma habilidade mais do que necessária.
Passadas várias temporadas de uma série no formato procedural, existe a tendência de que os casos comecem a se tornar repetitivos, numa espécie de reciclagem de tramas já solucionadas com míseras e insignificantes alterações. Esse, por exemplo, é um dos principais motivos pelos quais muitos fãs podem perder o interesse em uma determinada produção investigativa ao longo do tempo. Para evitar que tais acontecimentos estejam presentes após mais de 200 episódios, é preciso que os roteiristas tenham uma grande criatividade, mesmo num fluxo investigativo usual, ou seja, seguindo um modelo clássico como a arte do profiling. E, diante do visto em Persuasion e Rabid, é extremamente satisfatório observar que Criminal Minds ainda pode abordar uma imensidão de histórias e construir os mais variados Unsubs, cujas motivações são capazes de abranger muitos cenários.
Apesar de serem episódios bastante comuns e não acrescentarem importância a um arco que poderia ser construído nesses últimos meses, o fato é que Persuasion e Rabid primaram pela originalidade. Não se pode afirmar que eles foram de fato espetaculares, até porque estão muito longe disso, sendo considerados típicos episódios para um meio de temporada. Entretanto, ambos cumpriram exatamente o que se propuseram: entreter os telespectadores com tramas interessantes e instigantes (e desagradáveis em alguns pontos, claro), ao passo que simultaneamente eram tratados temas pessoais da vida dos nossos agentes, como os ligeiros destaques dedicados a Spencer Reid e Penelope Garcia. Embora não tenha sido dado todo o realce que eles mereciam, foi bom ver mais falas do nosso gênio da BAU, que se encontrava bastante apagado há muito tempo.
Trazer a mãe de Reid, mesmo que somente por meio de menções devido ao fato de atriz estar ocupada com outros trabalhos, foi uma forma inteligente de ressaltar a figura do membro mais novo da equipe. Como Diana Reid possui esquizofrenia, é perfeitamente compreensível o motivo pelo qual Spencer tem uma preocupação ainda maior com a mãe, que se encontra internada em uma clínica psiquiátrica. Como em temporadas anteriores era observado que eles escreviam cartas um para o outro quase que diariamente, esse ponto foi retomado para enfatizar que a relação deles, que mesmo distante fisicamente e no fluxo do tempo, ainda pode ser caracterizada como bela e leal, fato justificado pelos cartões postais do Grand Canyon. Naquela conversa com JJ, Reid se perguntou o porquê de sua mãe ter entrado em uma excursão sem ao menos comentar com ele, e a agente foi muito sensata na sua resposta. Além de ela estar melhorando, ela queria surpreender seu filho com imagens de uma viagem divertida, principalmente para o estado da doença após tantos anos.
Em, Persuasion, abordou-se a capacidade de convencimento de um ilusionista nos túneis subterrâneos de Las Vegas para induzir seus companheiros a cometer atos criminosos, como os mais variados roubos. Embora mostrar moradores de rua em Criminal Minds nunca poder ser considerado algo inovador, foi bastante interessante observar como um doutor foi capaz de manipular muitos ao seu redor – incluindo Cesar, o grande assassino – com o intuito de evitar uma traição numa organização em que ele era o líder, assim como ocorreu ainda no mundo da mágica. A dinâmica do código dos túneis, bem como a precaução dos residentes daquela área, reforçou uma noção de respeito e medo, visto que os que buscavam uma vida melhor – ou devolviam apenas uma fração do dinheiro roubado – eram eliminados sem qualquer hesitação.
Entretanto, acredito que o roteiro tenha sido infeliz ao tentar provocar suspense com a verdadeira identidade do doutor, já que, desde o início, estava claro que Marvin Caul era o responsável por aquela sucessão de crimes. Apesar de sua personalidade ser, mesmo inserido no mundo dos furtos, aparentemente pacata e bondosa devido ao auxílio prestado a Finn, a primeira conversa após o bar já tinha demonstrado toda aquela capacidade de convencimento pelo fato de ele ter conseguido, com facilidade, levar o homem que buscava um emprego para o subterrâneo.
Embora esta parte tenha sido bastante previsível, foi surpreendente ver que a aproximação foi proposital devido a uma vingança após a morte de sua irmã, que supostamente também teria sido persuadida por Marvin. E o plano foi muito bem elaborado, passando de um pobre coitado que não tinha um local para trabalhar, atraindo a atenção do doutor, ainda enigmático até então. Antes disso, como Salvador Dali afirmou, o segredo de sua influência sempre havia sido a permanência do segredo, até porque até mesmo os moradores não sabiam quem era o doutor. A chegada de Finn foi o início do processo de derrubada do doutor, gerando uma satisfação pessoal não somente para ele, mas também para os outros com quem dividia espaço naqueles túneis.
E assim como Arthur Erickson disse, a ilusão é necessária para encobrir o vazio interior, este evidente no submundo comandado por Marvin. Contudo, não foi o doutor dos túneis o grande mestre da ilusão, mas sim o doutor da BAU. Ele conseguiu perfeitamente convencer – ou melhor, iludir – o Unsub a respeito de uma admiração que nunca existiu, somente para, como sugeria seu profile, mostrar o narcisismo presente em sua figura e, por meio deste, prever seus movimentos e descobrir a localização das vítimas, trazendo conforto a todos aqueles cujas vidas foram arruinadas pelo doutor.
Se, em Persusasion, Reid foi o grande responsável pelas revelações, pode-se afirmar que Rabid seguiu uma linha de raciocínio semelhante, visto que Spencer foi quem elaborou as teorias necessárias para chegar a uma conclusão ingrata num caso extremamente macabro. O episódio começou bastante incerto e duvidoso, mas, à medida que a investigação foi ganhando contornos a respeito da doença, o caso tornou-se muito interessante, pois, como disse Hipócrates, é mais importante saber que tipo de pessoa tem uma doença do que saber tipo de doença uma pessoa tem. Nesse contexto, seria preciso analisar como essa patologia teria moldado o Unsub, papel muito bem executado por Reid.
Apesar de um início não claro, acredito que eu não tenha sido o único surpreso ao ver que aquele passageiro do ônibus não era o Unsub. Muito provavelmente, ele estaria planejando cometer algo mais elaborado após seguir uma mulher pelas ruas escuras de Milwaukee, porém esse não foi o propósito de Rabid visto que, como sugere o título do episódio, as questões suscitadas podem ser bem mais complexas do que elas parecem ser.
Agindo sob uma lógica masoquista e cruel ao, além de implementar o vírus da raiva nas suas vítimas, sentir prazer com o sofrimento alheio, a personalidade do Unsub foi muito bem construída para compor um homem motivado por um sentimento de ódio devido à morte de seu irmão, que não obteve os meios necessários para se salvar de uma doença tão letal em casos de não vacinação. Mas Cunningham foi mais a fundo quando utilizou jatos de água de alta pressão e eletrocutou suas vítimas, motivo pelo qual suas ações não podem ser definidas apenas como uma simples jornada de vingança, mas como uma psicopatia intrínseca a ele, oculta na sua consciência.
De todas as cenas chocantes do episódio, eu gostaria de destacar apenas duas. A primeira delas, repugnante ao extremo, foi ver a desgraça causada pelo vírus da raiva e, de maneira remota, pelo Unsub. Sei que Criminal Minds já mostrou instantes que poderiam ser considerados até piores, mas o estado daquela mãe de família me causou arrepios primeiramente devido ao grau de sofrimento dela, sem julgar suas ações, e também pela forma que a doença se manifestou no seu corpo, destruindo-a cada vez mais e escandalizando os seres ao seu redor, principalmente no parque.
A segunda delas, entretanto, é mais simbólica por conta do contraste implícito nela. Enquanto uma vítima agradecia à BAU por ter salvado a vida dele, uma família tentava encontrar consolo após o coma induzido de uma mulher, que dificilmente teria condições de voltar a ser o que era antes. Ver esse conflito em Criminal Minds é sempre bom, embora muito doloroso, por mostrar que nem sempre, mesmo num contexto de ficção, os agentes serão capazes de salvar todos. Infelizmente, essa é uma verdade que dói, mas não há como negar que esses dias existem. Os sorrisos e as lágrimas acabaram por sintetizar, de uma forma bastante trágica, mais um caso dos profilers.
Talvez a maior motivação desses agentes seja a busca de dias mais belos, porém há um fator decisivo que permite estes grandes resultados. Como Baltasar Gracián disse, a amizade verdadeira multiplica o bom da vida e divide o mau. Sem uns aos outros, dificilmente os profilers seriam uma equipe de tanto sucesso, visto que são essas relações as que tornam o cotidiano menos angustiante e menos difícil. Momentos como o teste físico de Reid e Garcia, que em todo momento tentavam fugir do temido preparador físico Morgan, alegram e justificam o valor da amizade. Além disso, claro, ressaltam-se as risadas proporcionadas por cada diálogo.
Como dito anteriormente, não foram episódios memoráveis, mas apenas meros episódios de meio de temporada que souberam cumprir às expectativas pautadas num ideal de criatividade. Tal característica somente pode ser corroborada pelo anúncio feito na última semana, com a renovação de Criminal Minds para a sua décima temporada! Sem discussões salariais e problemas contratuais, depois de muito tempo é possível que os roteiristas construam uma grande finale com um cliffhanger de tirar o fôlego, ponto que a série pecou há pelo menos três anos. Agora basta só esperar o que Erica Messer tem em mente, porque ela mesmo afirmou que uma grande finale estava sendo planejada. Todos comemoremos por essa grande notícia!
Profiling…
– Infelizmente, caros leitores, o tempo se mostrou curto para mim nessas últimas semanas. Adentrei em um novo universo – a universidade – e ainda estou me acostumando, motivo pelo qual esta review atrasou bastante. Mas podem ficar tranquilos! Farei de tudo para não os abandonar! Adoro esse espaço, a série e principalmente o carinho que vocês têm tido comigo em um pouco mais de um ano, com excelentes comentários e enorme compreensão. E, além disso, certamente evitarei os atrasos… 🙂
– Além de uma bela escultura do Grand Canyon e uma carta adorável, a relação entre Spencer e a sua mãe rendeu uma analogia sensacional! Diana andar numa mula seria simplesmente como Hotch estar numa praia! Confesso que ri muito com isso…
– Reid mais uma vez servindo como computador humano… Como ele é nativo de Las Vegas – se isso fizesse alguma diferença – ele simplesmente sabia todos os dados a respeito da cidade!
– Mais engraçado que Reid e Garcia treinando, só os dois terrivelmente cansados após tentar esconder o que realmente acontecia do Morgan. Todo mundo notou como Garcia subiu as escadas, e olha que aquele teste físico não serviria para absolutamente nada para sua função de analista…
– Mas até que o treino foi útil para o Reid, que acabou golpeando o Unsub por estar malhando recentemente, como ele mesmo disse.
– Não é que a Garcia estava certa? Além de o Morgan falar que a avó dele faria melhor do que eles dois, Garcia e Reid ainda passaram por uma maratona de exercícios que poderiam ser evitados. Pelo menos eles compensaram a enganação do Morgan com uma retomada incrível de fôlego…















