Inocência: uma virtude de crianças.

A cada semana em Criminal Minds, estamos acostumados com aquele serial killer clássico, cujas características e motivações obviamente mudam devido à necessidade de reconstrução da série após tanto tempo no ar. É perfeitamente compreensível que, nesses casos, fiquemos desacreditados com a humanidade, levando a pensar como um ser humano pode ser tão cruel a ponto de cometer certas atrocidades. Esse é um das razões pelas quais Criminal Minds nunca poderá ser considerada mais um procedural da CBS porque, ao contrário das outras séries do gênero, a nossa veterana nos faz refletir depois de cada episódio com simples perguntas… Será que isso realmente existe? Até onde tudo não se passa de pura ficção? Então foi só criatividade dos roteiristas?

Particularmente, eu posso ver serial killers macabros com alguma repugnância, mas nada me toca mais em Criminal Minds do que um episódio sobre crianças. O fato de pessoas sequestrarem seres completamente inocentes – por diversos motivos, claro – é capaz de me deixar aflito em todos os quarenta minutos devido ao nível de sofrimento de todos os envolvidos: os pais, a criança e até mesmo os agentes. E com essa ideia, Gabby foi um grande episódio, hábil em trazer arrepios ao telespectador. Extremamente tenso e denso, foi bastante doloroso acompanhar a investigação que deveria ser realizada de forma mais rápida possível visto que, como Rossi disse, a cada minuto que eles passavam fazendo teorias, Gabby estava lá fora num lugar desconhecido.

Talvez outro fator que permita maior aversão aos vilões de Gabby corresponda ao episódio ter sido assinado pela showrunner Erica Messer e por Jim Clemente. Para quem não sabe, este último foi profiler do FBI e tem ajudado a série desde os seus primórdios. O visto neste décimo sexto episódio foi baseado em um dos últimos casos do agente, motivo pelo qual as ações de Sue incomodaram tanto. Não somente as dela, mas também aquele chat foi algo que, após assistir, precisei refletir um pouco. Provavelmente não tão chocante quanto as cinzas de Mosley Lane, mas ensurdecedor pela maneira que as conversas eram conduzidas naturalmente, como se fosse algo cotidiano, absolutamente normal e sem consequências alarmantes.

Mas é isso que Criminal Minds desperta nos seus fãs: uma noção bem maior de precaução. Tenho certeza que muitos pais que assistiram a Gabby pensarão duas vezes antes de deixar seus filhos dormindo num carro escuro à noite (se já não tivessem mudado seus hábitos por conta de episódios passados). Passa-se a encarar o mundo com uma menor simplicidade, visto que pequenas ações podem desencadear momentos terríveis, assim como é muito provável que todos nós tenhamos vivenciado um sentimento de perda quando Sue deixou Gabby no carro por apenas quatro minutos. E dessa vez foi muito tempo. A série já mostrou que até sete segundos são suficientes para sequestrar uma criança num shopping lotado lá na terceira temporada.

Tratando do episódio propriamente dito, fiquei ligeiramente desconfiado de Sue por ter visto a promo, em que ela golpeava Hotch num interrogatório. Entretanto, à medida que o fluxo narrativo dava sequência, pensei que tinha me enganado com a atriz daquela cena devido ao desespero dela quando Gabby sumiu ou mesmo no abraço com a mãe. Graças também às compras na loja de conveniência do posto de gasolina, feitas com rapidez, parecia realmente que ela não estava envolvida. Mas aquilo era somente uma encenação de uma psicopata oculta na figura de uma irmã adotiva.

Nesse ponto, é extremamente justo elogiar a atuação de Sianoa Smit-McPhee, que foi capaz de se transformar imediatamente numa pessoa enfurecida com todos ao seu redor após um brilhante empurrãozinho de Hotch, denominando-a patética e afirmando que ela tinha falhado no dever como mãe. Gostaria de destacar também a cena que Sue despertou toda sua ira contra Kate Hoffer, e a série foi muito bem ao não revelar se os incidentes ditos por ela foram verídicos. Presumo que os fatos, sim, ocorreram, porque a grande parte dos psicopatas precisa de um fator social para se sobressair. Entretanto, entrar neste campo do pai abusivo seria desnecessário em virtude dos quarenta minutos já pequenos para esse episódio.

Apesar de todo o time estar bastante preocupado com o resgate de Gabby, duas personagens se destacaram diante dos acontecimentos: JJ e Garcia. Jennifer, obviamente, por ser a única mãe da equipe feminina. No decorrer do episódio, seu drama não foi tão evidenciado devido à necessidade de os atos correrem de forma acelerada, mas o grande foco ficou no instante final quando seus olhos, ao passo que viam algo comovente como o reencontro, observavam duas crianças sem rumo, cujos pais não foram encontrados. O orfanato era a única saída e, mais uma vez, Rossi fez uma constatação interessante. Quantas crianças existem nessa situação? Embora seja uma boa pergunta – de uma difícil resposta – cabe ressaltar que a ausência de uma mãe ali faz muita falta. Afinal, como diria o francês Victor Hugo, os braços de uma mãe são feitos de ternura e os filhos dormem profundamente neles.

Penelope Garcia, por sua vez, provavelmente teve a reação mais humana dos profilers – ainda que ela não seja efetivamente uma. Suas lágrimas que caiam a cada descoberta foram emocionantes por anunciarem que não somente ela, mas eles se importavam com a situação. Talvez este seja um dos motivos pelos quais se costuma dizer que não há pegada tão pequena que não deixe sua marca no mundo. De um lugar muito distante, ela tentava ao máximo que seus esforços fossem ágeis o suficiente num intervalo curtíssimo de 24 horas, com o intuito de evitar o inesperado. Belíssimo por sinal foi quando Morgan a mostrou o contagiante abraço entre mãe e filha através de uma simples chamada, esta bem mais do que uma mera imagem: um momento inesquecível.

Se não fosse evitado pelos agentes, provavelmente as crianças se encontrariam em um lugar muito parecido com aquela casa de Mosley Lane. Muito provavelmente Gabby apanharia de sua suposta mãe e seria molestada por seu insano “novo” pai. E nesse ponto, a criança pode perder toda sua inocência. Felizmente, parece que isso não aconteceu com Gabby, que se surpreendeu com as lágrimas de alegria da mãe no reencontro. Nesse mundo cercado pela escuridão, citando mais uma vez o décimo sexto episódio de quatro anos atrás, o que motiva os agentes são dias assim. Dias em que há um final feliz. Dias em que os monstros são derrotados. Dias em que existe uma vitória.

Contudo, apesar de Gabby ser magnífico, acredito que um ponto tenha ficado meio atropelado na investigação. Quando Blake citou as diferenças linguísticas na escrita de Sue, a revelação da conversa foi extremamente rápida, visto que Garcia encontrou o link logo após somente digitar a expressão. Mas isso não pode ser encarado como uma falha no roteiro, porque naquele momento era mesmo preciso que tudo fosse encontrado sem grandes mistérios. A vida de uma criança estava em jogo.

Impactante do início ao fim, Gabby foi um excelente episódio que cumpriu absolutamente tudo o que se prontificou a fazer: dar um ritmo acelerado à investigação, estudar a mente humana na forma de psicopatas (característica magistral da série), comover ao melhor estilo Criminal Minds e entreter da melhor maneira possível, não abrindo espaço para deslizes ou desinteresses significativos no roteiro. Este provavelmente não será o último episódio da série que trará o resgate de crianças como o foco principal. Apesar de eu ter um relacionamento ambíguo com esse formato – não gostar devido ao sofrimento, mas me empolgar em cada minuto – Gabby foi mais um exemplo de como Criminal Minds consegue moldar seus telespectadores, definindo-os a cada ação cotidiana simples, como a de deixar uma garota de quatro anos dormindo no carro. Mesmo com nove anos, Gabby é a prova viva que Criminal Minds ainda pode durar por muito tempo.

Profiling… 

– Reid está muito apagado ultimamente, sem qualquer dúvidas, mas parece que o próximo episódio terá um foco maior nele. Afinal, desde aquela conversa com Rossi sobre Maeve em Alchemy, ele perdeu muito destaque.

– Na review, citei Mosley Lane (5×16) várias vezes. Até hoje, esse foi o episódio de qualquer série de TV, independente do gênero, que mais mexeu comigo. Provavelmente ainda ficará marcado na minha memória por muito tempo…

– Caros leitores, fiz um perfil no twitter e esqueci de comentar aqui na review passada. Trata-se de @gabriellanzaro. Espero todo mundo por lá para comentarmos mais sobre nossas séries!

– Talvez as expressões da Garcia com aquelas “famílias” (se fosse possível chamá-los de uma “família”) tenham sido mais tristes que as da pobre criança sequestrada. Bastante comovente, ressaltando a personalidade de Garcia como uma pessoa alegre e divertida, mas preocupada com as pessoas ao seu redor.

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