Segredos, marcados por um ritmo alucinante, apenas corroboraram um episódio simplesmente memorável.

Como todos nós sabemos, Criminal Minds nunca foi apenas mais uma série policial. Suas diversas questões suscitadas episódio após episódio, fazendo uma bela analogia com a vida dos agentes, são capazes de entreter os fãs de forma admirável. E, quando diante de grandes momentos, estes repletos de imensas expectativas, este procedural da CBS sempre soube corresponder muito bem. Atingindo o ápice mais uma vez, talvez o único problema do ducentésimo episódio – intitulado com uma simplicidade incrível e coerente – seja a impressão de os minutos terem voado em todos os sentidos. Numa trama inteligente, acelerada e consistente, não existem palavras suficientes para descrever o vivenciado nesses fantásticos instantes.

Prefiro, desde um o início, não fazer analogias com o centésimo episódio. Em primeiro lugar, os propósitos foram divergentes: enquanto na quinta temporada buscou-se um tom mais emotivo vinculado à família de Aaron, aqui foi literalmente uma batalha pela vida de JJ e Cruz, visto que qualquer segundo nessa procura era determinante. Uma investigação em que segredos eram descobertos a cada minuto e, paralelamente, uma tortura física extremamente dolorosa garantiram um fluxo narrativo sensacional, ressaltado pelo intenso uso de flashbacks que, apesar de em grande quantidade, nunca soaram cansativos pelo número de informações lançadas rapidamente, além de permitirem uma análise da personalidade de Jennifer Jareau antes, durante e depois do período no Afeganistão.

Confidencial ao extremo, a transferência para o Departamento de Defesa fora apenas um pretexto para inserir a agente de comunicações da BAU numa missão com o intuito de caçar o até então terrorista mais procurado do planeta. Mas por que justamente JJ, aquela pessoa adorável que nunca tinha sido oficialmente uma profiler? Além de uma mediadora nata – não só pelas habilidades na imprensa, mas também por suas características mais que especiais, como a negociação com Billy Flynn na sexta temporada – Jennifer era a típica agente que se destacava com o pouco que detinha. Apesar de não possuir experiência em campos de batalha, ela apresentava competência inquestionável em interrogatórios quando era exigida, fato que nunca foi sua função na BAU. Isso sem contar o fato de, como Hotch disse na finale da segunda temporada, ela ter de dormir esperando haver tomado as decisões corretas nos casos que selecionava para a equipe. Jennifer não era mais uma oficial nos moldes de Hastings, mas uma pessoa, sobretudo, humana disposta a compreender as relações sociais e suas diversas consequências, requisito fundamental para interrogar esposas de terroristas vitimadas da guerra.

Escolhida para esse trabalho de certa forma ingrato, Jennifer estaria sujeita a um lugar que inevitavelmente mudaria as pessoas, o que justifica seu ego mais bad ass com o retorno na sétima temporada. Mortes em todos os momentos – esse ponto não tão diferente da BAU – e a determinação num contexto que qualquer erro seria fatal foram decisivas para a construção da nova JJ, mas isso não era tudo. A perda de seu segundo filho numa emboscada, fato este desconhecido inclusive por Will, foi capaz de a transformar diretamente, contribuindo para a consolidação de uma JJ centrada, desafiadora e preparada para caçar serial killers. Confesso que a possibilidade de aborto nunca passou pela minha cabeça e, quando ela compartilhou essa novidade com Cruz, só imaginei o quão dolorosa seria a cena da constatação do óbito, como de fato foi. Ver JJ passando a mão na sua barriga enfatizada por uma expressão de tristeza certamente machucou qualquer um de nós, acostumados a nos preocupar com os membros da BAU após nove temporadas.

Mas agora tratando do episódio propriamente dito, nota-se que ele foi extremamente bem conduzido, bem como as investigações executadas pelos agentes. Novamente foi observado um sentimento de família na BAU, visto que, com JJ em perigo, tudo seria válido: buscar documentos confidenciais ilegalmente, invadir espaços sem autorização ou mesmo enfrentar os diretores do Pentágono. Nesse último ponto, a participação de Rosemary Jackson foi bastante válida por demonstrar uma secretária, apesar de arrogante ao não se importar com a vida dos agentes, perspicaz com receio de revelar segredos a inimigos dos Estados Unidos. E, sem ajuda do governo norte-americano, Hotch se viu obrigado a chamar um reforço mais do que especial: Emily Prentiss.

Não sei se minhas emoções falaram mais forte, mas só de ver aqueles créditos com a localidade da agora agente da Interpol já me senti extasiado com a situação. Nunca fiz comparações da personagem de Paget Brewster com Alex Blake – e nem vou fazer – mas toda a prontidão em ajudar despertou em mim um sentimento de saudade da maravilhosa Prentiss, este antes escondido. Eu podia ficar aqui discutindo os porquês disso por várias linhas, mostrando todos os adjetivos que confirmam a assertiva anterior, porém isso tornaria essa review ainda mais longa. Ver Emily interagindo com os agentes, cedendo informações dos criminosos e conversando com JJ no avião, mesmo que por poucos minutos, foi algo encantador de se ver por uma infinidade de razões. O fato é que acho difícil encontrar alguém que não goste da personagem e é muito provável que a maioria de nós tenhamos vivido essa mesma sensação.

Quando Emily citou James Burke ao questionar por que devemos olhar para o passado com o objetivo de se preparar para o futuro e responder que não existe outro lugar para olhar, já foi algo único de se escutar. Mas, diante de tudo isso, pode-se seguramente afirmar que isso reflete exatamente a sucessão de fatos que transformaram a personalidade de Jennifer Jareau no que ela é hoje. Um exemplo prático disso é a conversa das agentes no avião enquanto se dirigiam a Paris, visto que ali JJ já era uma nítida profiler, e Emily muito bem percebeu isso, numa analogia brilhante com o blackbird. E não foi somente nesse contexto que a citação caiu como uma luva. Os agentes precisaram descriptografar documentos do passado para salvar vidas no futuro, ainda que isso significasse agir contra as normas do governo.

Numa linha do tempo perfeita com os eventos da sexta temporada, os flashbacks foram acentuadamente bons. Aquela cena do avião, por exemplo, minutos após a falsa morte de Prentiss reforçou a amizade entre Jennifer e Emily, determinando a evolução da agente como profiler, visto que as falas e os conselhos desencadearam questionamentos na investigação conduzida no Oriente Médio. Além disso, a forma que os papéis se inverteram, evidenciados pelos mesmos flashbacks, em três anos foi algo apreciável: Jennifer não titubeou quando recebeu uma ligação de emergência da BAU, assim como Emily interrompeu todos os seus afazeres em Londres quando Hotch a contatou.

200 também pode ser caracterizado como portador de um sofrimento angustiante envolvendo Jennifer Jareau, e nesse ponto elogio a atuação de AJ Cook. Vê-la sendo torturada deixou-me bastante aflito (tornando uma impressão completamente verossímil), um dos motivos pelos quais não preferiria um episódio de duas partes. Anteriormente em Criminal Minds, os agentes já foram torturados – Reid em Revelations (2×15), Emily em Lauren (6×18) e Hotch em 100 (5×09) – mas cada situação possui seu pretexto único e diferencial. Cada personagem teve seus momentos específicos e não se deve tirar o mérito de os roteiristas retomarem o método da tortura. JJ foi a que saiu com as piores dores materiais, embora os outros tenham sofrido traumas psicológicos mais fortes.

Ressaltando o ritmo do episódio, em alguns momentos chegou a ser difícil respirar! As reviravoltas chocantes que se sucediam – primeiramente, era só Askari, mas depois o próprio Cruz podia ser o traidor, só que o verdadeiro vilão era Hastings! – mostravam-nos um mundo em que ninguém podia confiar nos outros. Vi também muitos reclamando que a ação exacerbada, principalmente nos minutos finais, acabou não correspondendo a um episódio típico de Criminal Minds. Discordo veemente. Os agentes chegaram a Askari e Hastings com a análise do seu comportamento e, num evento especial, por que não deixar a trama diferente, mais acelerada? Além disso, li críticas a respeito de uma JJ torturada e fraca fisicamente correr atrás de Hastings, mas se deve analisar toda a motivação que ela detinha naquele momento. Ela havia perdido um bebê por causa dele. Ela fora quase estuprada por ele. Ela estava sendo torturada sob os mandos dele! O fato de tudo isso se tornar pessoal para JJ reeditou a parceria que tanto gostávamos nas temporadas anteriores, numa cena de ação muito bem feita. A verdade é que Criminal Minds conseguiu construir um ducentésimo episódio sensacional. Simplesmente.

Aquela citação final, dita por Nietzsche, de que quando se olha muito para um abismo, ele te encara de volta, é perfeita não somente para o episódio, mas para a série como um todo. Repetida, claro, em momentos especiais – piloto, 100 e agora – confesso que fiquei ligeiramente arrepiado com os dizeres de JJ. Os agentes, cercados pela escuridão, podem eventualmente sofrer deslizes na trajetória. E esse abismo que eles tentam sempre combater pode acabar retornando de uma forma trágica. Mas como fugir de tudo isso e se recuperar desses abismos? Com aquela família chamada BAU e o bem-estar diário no ambiente de trabalho deles.

Aos sons de Blackbird de Sarah Darling, a comemoração foi outro momento memorável, principalmente pelos diálogos. Hotch e a equipe já sentindo saudades de Emily por sua iminente partida, Blake enfatizando estar feliz de finalmente conhecer a agente da Interpol, Prentiss sendo extremamente humilde e divertida simultaneamente e JJ constatando que, de agora em diante, somente a verdade era necessária. Ver todos reunidos novamente, montando um time perfeito… Épico!

Talvez as minhas palavras não tenham ecoado como as de um crítico responsável por apontar os pequenos detalhes incoerentes no episódio (que infelizmente existiram), mas de um fã apaixonado por essa série fantástica. A review ficou extensa, eu sei. E olha que eu gostaria de tecer elogios ainda mais significativos para a minha querida Criminal Minds. Já foram 200 episódios até aqui. E, depois desse minifilme – como definido por Erica Messer – não sei até que patamar Criminal Minds pode alcançar. Estivemos diante de algo fenomenal numa nona temporada, período em que muitas séries já se desgastaram há muito tempo. Desde que mantida essa qualidade, muitos anos ainda podem vir pela frente. Afinal, Criminal Minds é, somente, Criminal Minds. Isso é suficiente. 

Profiling… 

– Deixo aqui meus elogios à direção de Criminal Minds. A transição do atual para os flashbacks foi muito inteligente: os gritos de JJ e da mãe, a foto de Strauss no Afeganistão, o olhar para trás de Emily… Simplesmente sensacional!

– Erro de continuidade… Em There’s No Place Like Home (7×07), Will afirmava que gostava dos tempos que JJ trabalhava no Pentágono, porque ela tinha mais instantes com a família. Viajar para o Afeganistão já seria extremamente contraditório diante de tudo isso.

– Um breve comentário sobre audiência. Criminal Minds atingiu, em termos absolutos, os melhores números desde a finale da sétima temporada! Certamente isso tem relação com o retorno impactante de Emily Prentiss.

– Erica Messer, todos nós queremos Prentiss de volta. Participações de Paget Brewster são sempre bem-vindas.

– O que Cruz teria dito para JJ na ambulância?

– É impossível não notar a expressão chorosa de Garcia quando ela deseja confirmar se aquele era o homem que detinha JJ.

– Aquele sotaque de Hastings era irreconhecível! Tahmoh Penikett interpretou Cole Maddox em Castle, um dos peões do senador!

– Foi muito bom ver Strauss novamente, apesar de Cruz ser aparentemente um chefe mais humano e menos político.

– Sinceramente, Will. Até quando sua esposa está correndo perigo você fica com cara de sono?

– Melhor episódio da série? Não sei. Mas que foi sensacional, isso foi. Nas minhas séries policiais procedurais dessa temporada, não há dúvidas de que tenha sido o melhor.

– Somente um simples diálogo para fechar essa review. Espero que tenham gostado!

Hotch: Prentiss, quando tempo temos?

Prentiss: Seis horas…

Rossi: Mais do que tivemos ontem.

Blake: Estou feliz por ter finalmente te conhecido. Ouvi coisas tão incríveis.

Prentiss: Todas mentiras.

JJ: Chega de mentiras. Daqui para frente somente a verdade.

Artigo anteriorThe Big Bang Theory 7×15: The Locomotive Manipulation
Próximo artigoAnálise de Audiência 2×15: A Influência do The X-Factor